Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Do monte de jornais e revistas desta época de Natal e de fim de ano, no meio de balanços e antevisões do ano e da década, recorto e guardo um artigo de António-Pedro Vasconcelos no jornal Sol onde, a propósito da estreia de Avatar ele diz: “... estes filmes (...) apesar do virtuosismo e das boas intenções, não respondem ao problema essencial do nosso tempo: poderemos ainda ser salvos pela ficção?”.
Jorge Luís Borges dizia que os jornais eram feitos para o esquecimento, ao contrário da literatura, que era o que ficava. Não sei se esta citação será esquecida, como boutade jornalística, ou se será lembrada como frase literária. O certo é que é uma citação datada.
Hoje publicam-se mais livros do que nunca, mas decresce o número de jornais em papel. No futuro próximo tudo estará disponível online e multiplicar-se-ão os dispositivos de leitura tipo Kindle. As publicações em papel, livros ou jornais, serão objectos de design destinados a coleccionar, tal como os DVDs ou os CDs. Como já acontece hoje com os livros para crianças, que se transformaram em livros-objectos, tridimensionais, arquitecturas de papel, por vezes com sons e gadgets diversos.
No futuro, como já acontece hoje, não é o suporte que determina a literatura. A literatura, ou a poesia, pode estar em todo o lado e onde menos esperamos, no hipertexto, em rede, nas paredes do metro ou no jornal de fim-de-semana, no meio dos artigos de economia e intriga política.
Num tempo em que a realidade dominante da comunicação social é a crise económica e financeira, e que os problemas do país e do mundo se resumem ao impacto dessa crise no quotidiano do país e de cada um de nós, a ideia de que a salvação pela ficção é o problema essencial do nosso tempo é tão absolutamente poética como verdadeira.
É sempre pela ficção, pelas histórias, pelo seu enredo e pelos seus heróis, pela sua poesia, que redimimos a realidade das nossas vidas. Desde sempre aquilo que nós somos, o que vivemos e o que sonhamos, na religião, na política, no amor, é por aquilo em que acreditamos. E aquilo em que acreditamos é a mitologia criada pelas ficções do nosso tempo.
As ficções do século XX foram sobretudo as do cinema e depois da televisão. E agora, no século XXI, que ficções temos, no momento em que a internet ocupa o centro, e a rede é não só uma realidade como um conceito e um processo de relação com o real e com as suas histórias?
Na sua recente passagem pelo festival de cinema do Estoril, Francis Ford Coppola dizia o mesmo que A.P. Vasconcelos, ou seja, que independentemente do 3D e dos efeitos especiais, o futuro estava, como sempre, nas histórias, na capacidade de contar histórias, de enredar os ouvintes e espectadores na teia (na rede) dessas histórias.
A visão de futuro de Coppola passava não tanto pela inovação tecnológica mas antes por novos conceitos como o surgimento de sessões de cinema onde realizadores/performers misturem fragmentos de filmes como hoje em dia os DJs e os VJs já fazem. É um novo futuro para as sessões em sala, dando-lhe um carácter único de eventos. Ou, numa versão mais pessoal, a possibilidade de cada um de nós ter um iPod de imagens ou de cenas favoritas de filmes.
Conceitos como o de mistura e ligação estão no centro da cultura popular contemporânea e não há-de faltar muito para estas antevisões começarem por se tornar culto e depois globalizarem-se. As formas reinventam-se, os meios mudam. Estamos sempre perdidos na tradução do mundo em que vivíamos para o mundo onde estamos sempre a começar a viver. O que nos pode salvar é - agora como sempre - a ficção.

 

Crónica publicada no Económico no dia 2 de Janeiro de 2010.

 



Nuno Artur Silva às 09:56 | link do post

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