Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

2009 ficará como o ano da grande crise mundial. Em Portugal poderá não ser assim. Pode ser que o ano da crise venha a ser 2010. 

Os sinais são péssimos: o impasse e a degradação da cena política, a corrupção e a falência do modelo de justiça, o problema financeiro e económico e o desemprego.

Como podemos contrariar este cenário pessimista? Para além de todas as reformas necessárias e urgentes nas áreas referidas que, bem ou mal, vão inevitavelmente ter de ser feitas, a resposta é simples: o foco tem que estar na economia. É pelo desenvolvimento da economia que podemos começar a resolver o problema do país. Temos de ultrapassar as análises pessimistas do défice, da dívida e da estagnação, e passar para a aposta nos investimentos económicos de futuro.

Há inúmeros estudos sobre as potencialidades do país e as áreas onde se deve investir. Falta investir. Não há, em Portugal, uma cultura do risco. Houve, no tempo das Descobertas, depois disso ficámos soterrados debaixo de séculos de inquisição e de um século XX de salazarismo.

O problema principal da economia portuguesa é o perfil do empresário típico português. Mais chico-esperto do que informado, provinciano, sem mundo, agarrado ao dinheiro, sem dedicação à causa pública, com uma cultura empresarial onde há uma grande desproporção financeira entre os quadros superiores e os trabalhadores, e onde a motivação é muitas vezes substituída pelo simples medo de perder o trabalho. Acima de tudo, há uma visão predominantemente conservadora ou mesmo retrógrada, em vez de uma cultura da inovação e do risco.

São raras as excepções, felizmente cada vez mais, mas ainda não as suficientes para que se perceba que há uma nova classe empresarial capaz de mudar o país.

Estão identificadas áreas de grande potencial económico em Portugal, onde está quase tudo por fazer. Desde logo o turismo, mas claro um turismo que aposte na qualidade e na diferenciação. Relacionado com o turismo, mas não só, a cultura. O potencial económico da cultura nunca foi realmente valorizado por nenhum governo. O entendimento que se tem da cultura tem sido sempre o da subsidiação a actividades consideradas decorativas ou ornamentais. Falta uma política integrada e transversal de incentivo às artes e indústrias criativas para que estas possam estabelecer as suas redes e gerar valor.

E é preciso investir nas cidades, nas cidades como grandes centros agregadores de mistura e ligação, no potencial económico do cruzamento de culturas das cidades. É preciso investir no mar, na nossa costa. Nas energias renováveis. Nas redes de nova geração. Na Língua. No espaço da Língua Portuguesa. É preciso não perder a oportunidade do Brasil.

Dizia António Câmara, CEO da Ydreams, numa entrevista aqui no Económico, no final de 2009, que nos falta uma cultura de querer fazer e que o problema começa nas universidades, que não estão ligadas às empresas, não promovem essa abertura à sociedade e não estimulam o empreendedorismo. Mas dizia igualmente que apesar de não termos quadros de gestão em economia do conhecimento – “um dos dramas de Portugal” – a mudança empresarial é possível, “porque há uma massa crítica da juventude muito mais bem preparada do que alguma vez houve (...) há muito mais pessoas expostas ao mundo e portanto Portugal tem uma massa crítica de talento que nunca teve”. Portugal não pode deixar desperdiçar esta geração.
 

 

Crónica publicada no Económico no dia 9 de Janeiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 18:26 | link do post

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