Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

“Famílias e como sobreviver-lhes” era o título do livro que John Cleese fez a meias com o (seu) psiquiatra Robin Skynner e podia ser uma definição para a vida de cada um de nós. Ou nas palavras de Philip Larkin “They fuck you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do. / They fill you with the faults they had / And add some extra, just for you. / But they were fucked up in their turn / By fools in old-style hats and coats, / Who half the time were soppy-stern / And half at one another's throats.”, Não preciso de traduzir, julgo que o primeiro verso, que dá o tom, é Esperanto Universal. 

As famílias são a base da sociedade e podem ser, claro, lugares maravilhosos ou inescapáveis pesadelos. Ou as duas coisas, ou nenhuma delas. A verdade é que nascemos, quase todos, no seio delas, e delas temos que nos emancipar e libertar, partir para outra, quase sempre para outra família, sabendo sempre que a nossa família inicial permanece connosco até ao fim, bem ou mal.

Isto tudo a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da discussão à volta da sua legalização. É sempre fascinante observar a obsessão da direita conservadora, com o seu lastro de opressão católica sobre a liberdade, a individualidade, o corpo e o desejo, em querer que o Estado interfira e controle aquilo que é mais irremediavelmente pessoal, enquanto simultaneamente defende a mínima intervenção possível desse mesmo Estado em tudo o que tenha a ver com os bens materiais e as suas transacções e negócios , negando uma intervenção estatal reguladora para a salvaguarda de um mínimo de dignidade social e de condições e oportunidades económicas justas para todos. É como se o dinheiro fosse o corpo para o sexo livre e sem barreiras, a orgia pública e consentida da direita dos bons costumes.

Mas o que estava em questão era pura e simplesmente uma questão de igualdade de direitos. O amor, o sexo ou a amizade são outra coisa. E não são para aqui chamados. Aqui trata-se de um direito a um contrato. Um contrato de casamento. Uma relação institucional de direitos e deveres com o Estado, que já tardava em ser aprovada. A sua proibição a pessoas do mesmo sexo era uma imposição abusiva do Estado ( como, aliás, é abusiva a lei das uniões de facto, que impõe o estatuto de casados a pessoas que não manifestam a vontade de casar).

Os argumentos de que tudo isto acabará afinal por servir unicamente a meia dúzia de casais são falaciosos no contexto do respeito pelas minorias e pelos seus direitos, que não são, aliás, referendáveis Nem que tudo isto fosse para que um único casamento acontecesse, teria valido a pena.

O que eu lamento é que tenha sido aprovado à portuguesa, com condicionante, amputada do direito de adopção. Que, no entanto, não tenho dúvidas, mais tarde ou mais cedo virá. Afinal o que é melhor: dezenas de milhar de crianças à espera de adopção, amontoadas em instituições, ou a possibilidade dessas crianças serem adoptadas por famílias, diferentes tipos de família, desde que aprovadas para adopção com critérios que tenham a ver com as possibilidades de felicidade que aquelas famílias em concreto possam proporcionar e não com preconceitos de género ou outros?

“Um dia mereceremos que não haja governos” dizia Borges. Hoje não é a véspera desse dia, dizia Asterix, a propósito de outra coisa.

Neste caso, o Parlamento, ainda que por linhas tortas escreveu direito ao aprovar esta lei. Abre caminho para famílias mais abertas, com mais hipóteses para haver nelas pessoas mais felizes.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

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