Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

De que falamos quando falamos de televisão? De dia para dia a pergunta aumenta a sua interrogação. Na segunda metade do século XX a televisão ocupou o centro do palco mediático contemporâneo e o televisor foi o altar das nossas salas de estar. Foi o tempo das grandes estações generalistas, das grandes produções, do grande fluxo televisivo.
E agora? O televisor continua nas nossas salas de estar, mas está também frequentemente noutras divisões da casa. E há os portáteis e mutantes computadores, telemóveis, consolas, etc. Écrãs por todo o lado e cada vez mais conectividade, convergência, integração. Ou seja, acesso a conteúdos e plataformas de todas as maneiras e feitios. A diferença passa a ser mais de condição de recepção: mais perto, mais longe, com maior ou menor qualidade de definição e imagem, ver sozinho ou ver acompanhado; e muito menos do tipo de conteúdo, no sentido em que tudo tende a estar permanentemente disponível, seja por que meio for. Vai ser curioso ver quais as expressões que vão prevalecer. Continuaremos a dizer “ir à net”? E o que é que isso vai querer dizer? E ver televisão vai ser o quê?
O que vai acontecer com os conteúdos audiovisuais é o que já aconteceu com os conteúdos musicais. Eles vão surgir por todos os poros da net. E isso vai mudar radicalmente a indústria. Já está a acontecer em todo o mundo e vai acontecer em Portugal.
Veja-se o caso da música. Nunca a música popular portuguesa foi tão rica e variada. Porquê? Porque deixou de estar tudo afunilado nas editoras que decidiam o que se devia editar e não editar. Porque deixou de haver meia dúzia de papas que decidiam o que era ou não era bom. Desde que qualquer músico passou a poder chegar directamente aos ouvintes sem ter a autorização de qualquer detentor de meios de distribuição, que as propostas musicais se multiplicaram e a diversidade abriu novos caminhos, não só artísticos, mas igualmente novos modelos de negócio, dando origem a um novo panorama musical, inquestionavelmente mais vibrante e estimulante.
É preciso que aconteça o mesmo no audiovisual. Durante anos a produção audiovisual portuguesa foi decidida por meia dúzia de pessoas, em lugares chave: os directores, primeiro só da RTP, e depois da SIC e da TVI. É muito pouca gente para decidir o que tanta gente deve ou não deve ver. Se analisarmos mais em pormenor a história da televisão em Portugal, veremos que não só os centros de decisão eram muito poucos e sempre os mesmos, como as pessoas que ocuparam esse lugar foram e continuam a ser sempre as mesmas ou com o mesmo perfil. Quase sempre jornalistas, generalistas ou da área da política, a decidirem que filmes, séries, documentários, programas, é que devem ser produzidos.
O património audiovisual criado pelas televisões portuguesas reflecte o perfil dos decisores. Há um domínio de programas de informação de actualidade e entretenimento e uma escassez absoluta de programas de documentário e ficção. Há uma abundância de apresentadores e uma falta gritante de autores.
Tal como na música, este mundo está a acabar. Os canais vão-se multiplicar e os conteúdos audiovisuais vão surgir por todo o lado. E, à partida, essa diversidade é muito boa. Mas fazer produção audiovisual é mais caro do que fazer música. E a perda de importância dos canais generalistas traz grandes desafios. Quem vai investir em conteúdos de produção mais cara? Desde logo reportagens de investigação e, na área da ficção, grandes séries e filmes? Como é que se vai conseguir massa crítica, investimento publicitário, receita, se tudo está pulverizado e as audiências dispersas por mil e uma plataformas? E a questão não se põe unicamente do ponto de vista da sustentabilidade do negócio. Antes de mais, o que se pergunta é: que meios de comunicação, que canais, vão ser agregadores capazes de atrair e mobilizar comunidades? Ou seja, de ter relevância política.


 

Crónica publicada no Económico no dia 23 de Janeiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:20 | link do post

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