Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

E ao vigésimo sétimo dia Steve Jobs lançou o iPad. E viu que era bom. “É a nossa tecnologia mais avançada, num aparelho mágico e revolucionário, a um preço inacreditável”, diz Jobs to the boys (and girls), que estavam mesmo a pedir, o iPad.
O iPad é, e cito a notícia do i, “um leitor de livros electrónicos, um aparelho de acesso à internet, um centro multimédia para gerir fotos, vídeos, música e contactos, uma consola de jogos...”
A característica decisiva é, sem dúvida, a primeira: um leitor de livros electrónicos. O próprio Jobs elogiou o papel pioneiro da Amazon nos leitores de livros electrónicos, mas disse que com o iPad a Apple vai “subir para os ombros” da Amazon. Ou seja, vai replicar o modelo da iTunes Store. Isto é, o mercado dos livros electrónicos (e dos jornais electrónicos, o New York Times é, desde já, o primeiro parceiro) vai ter finalmente o seu boom.
Uma revolução em marcha, claro. E o papel, o papel dos livros e dos jornais? Não vai desaparecer, mas os livros e os jornais vão ser cada vez mais objectos, peças de design, para guardarmos o que queremos preservar. Relembremos o verso de Caetano Veloso: “os livros são objetos transcendentes / mas podemos amá-los do amor táctil”.
A transcendência dos livros materializa-se cada vez mais no imaterial electrónico dos e-readers. Estamos a ler de uma nova maneira, tal como quando deixámos de ler em voz alta e passámos a ler em silêncio, agora estamos a aprender a ler em hiperligação. Não é só ler vários livros ao mesmo tempo, e jornais e afins, é ler e abrir uma porta numa palavra para passar para outro texto, e doutro texto para outro texto, sem fechar a porta do primeiro.
Passamos do texto para o hipertexto, e no paradoxo da hiperleitura lemos cada vez mais e cada vez menos lemos, com o tempo que temos, que não temos, para o tempo que a literatura exige.
Eu adoro ler livros, romances, contos, ensaios... Todos os dias leio referências a livros que quero ler e que se publicam diariamente. Mas só leio as referências, não leio os livros. Não tenho tempo. E olho à minha volta e vejo que é igual com os outros que, como eu, gostam de livros e gostam de ler. Mesmo os que vivem de escrever sobre livros (ou sobretudo esses) lêem a correr, transversalmente. E depois passam para outro, e para outro. Transformámo-nos todos em Marcelos Rebelo de Sousa, a despachar recomendações e títulos. Todos? Nem todos. Há, felizmente, aldeias de gauleses irredutíveis, fora do tempo. Mas o tempo é de hiperligações, caminhamos por cima de livros abertos e deixados a meio.
E o papel, o papel dos escritores, dos intelectuais? Pessoa antecipou tudo. O escritor é persona e personas, o escritor é múltiplo e palco de dramas em gente. O drama hoje em dia está desdramatizado mas os escritores heteronimizam por aí, pelo espaço público- que é o espaço mediático. Os escritores estão a tornar-se actores, performers e, tal como os músicos que, depois da net ter estoirado com as editoras todas poderosas, vivem dos concertos ao vivo e seus derivados, os escritores e intelectuais contemporâneos vivem dos seus espectáculos ao vivo: lançamentos, conferências, debates, defesa de causas, participações em fóruns, programas de TV, net, redes sociais, etc.
Os escritores do século XXI são performers da palavra no espaço público. Haverá sempre os eremitas, claro ( por sinal os que poderão ter mais valor mediático pela escassez das suas aparições), mas como já acontece noutros territórios - como a política, tudo se joga na representação pública no palco dos media e na replicação dessas representações nas hiperligações.
A literatura, ou a poesia, no futuro, como no passado, é o que resiste, o que fica dos tempos, com o tempo.



Nuno Artur Silva às 10:02 | link do post

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