Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Uma das minhas frases favoritas de sempre da comédia portuguesa, da comédia em geral, é a frase de António Silva no filme O Costa do Castelo, quando abre a janela da casa da sua personagem, precisamente na Costa do Castelo, e diz: “Olhem para esta maravilha, aqui é que devia ser o Estoril!”.
Eu moro na Costa do Castelo e quando abro a janela lembro-me da frase do António Silva. E vejo que a luz e a vista sobre o rio são uma maravilha, e nunca mais vi comédias como aquelas, em Lisboa e no cinema português.
Na Costa do Castelo é que deve ser a Costa do Castelo, mas a vida das cidades e dos bairros das cidades, muda, está sempre a mudar. E o que era está sempre a deixar de ser.
Torço sempre o nariz quando leio comentários, aliás frequentes, de respeitadas figuras, quase sempre mais velhos que novos, que dizem que Lisboa está cada vez mais sem interesse e sem sítios para ir, que está abandonada e a morrer. Pergunto-me sempre se essas pessoas saem de casa, ou se já experimentaram saír dos seus circuitos habituais e deixar-se ir pelos novos caminhos, para os novos sítios de Lisboa? É claro que Lisboa já não é o que era, é outra coisa. Mas percorrendo a cidade e observando o que se perdeu e o que se ganhou, parece-me evidente que nunca Lisboa foi tão diversa, dinâmica e estimulante nas últimas décadas como é agora.
Há muitas Lisboas em Lisboa, para além do bilhete postal do castelo, das sete colinas e do rio. E dentro do bilhete postal, por entre a luz de Lisboa, há as pessoas e a vida de todos os dias. A vida dos bairros. Como o da Costa do Castelo. Aliás, uma pulverização de múltiplas freguesias separadas numa organização administrativa que não faz sentido e não dá efectivos poderes às direcções das Juntas de Freguesia, para poderem resolver os pequenos problemas dos seus habitantes.
A vida de um bairro como este está sempre num equilíbrio precário, frágil e vulnerável a qualquer pequena mudança. A minha casa fica entre dois restaurantes. Nas traseiras o ambiente é sempre festivo, há música de fundo e animação e isso traz vida ao bairro, sem no entanto o perturbar de forma drástica, antes lhe dá um colorido harmonioso. Frente à minha casa, na rua de baixo, um outro restaurante veio mudar radicalmente o ambiente do bairro. Desde logo pelo cheiro insuportável a fritos de má qualidade, mas sobretudo pelas hordas de adolescentes que se acumulam à porta e que depois dos jantares ficam a beber cerveja e depois a uriná-la e vomitá-la por todos os cantos, sempre com manifestações de grande alarvidade gutural.
A pequena praceta dos jacarandás vai ficando conspurcada com os imundos graffitis e tags, odiosas formas de expressão sem imaginação e ditatoriais na maneira como se impõem na paisagem perante aqueles que lá moram ou passam.
À noite, com os outros bares à volta, as ruas enchem-se de carros por cima de todos os passeios e, por mais que se peça à Câmara Municipal para vedar o trânsito, para o limitar aos moradores, isso não acontece, e a única actividade policial é a caça à multa indiscriminada, que frequentemente recai sobre os próprios moradores, que se vão cansando cada vez mais da dificuldade permanente que é viver no centro de Lisboa.
Agora é Inverno, chove e faz frio. Lisboa parece feia e triste. Na praça dos jacarandás, do outro lado do restaurante dos jovens alarves, em frente ao Ministério das Obras Públicas, aumenta de semana para semana o número de sem-abrigo que ali dorme, no meio de cartões e plásticos. Não se vêem das janelas das casas da Costa do Castelo, agora fechadas, abrigadas do vento e da chuva.
Com a Primavera e os jacarandás em flor vão-se voltar a abrir as janelas e talvez alguém volte a dizer “Olhem para esta maravilha!”. Talvez se venha a filmar uma comédia aqui, talvez tenha graça. Mas o Estoril também já não é o que era.

 

Crónica publicada no Económico no dia 6 de Fevereiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:03 | link do post

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