Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

Promoveu a Sociedade Portuguesa de Autores, em colaboração com a RTP, a Gala dos Prémios Autores, que teve lugar esta semana no CCB e transmissão directa via RTP 1. A iniciativa é louvável. Um dos sinais da vitalidade de uma indústria é a existência de festivais ou iniciativas de escolha e premiação dos artistas dessa indústria. Em Portugal, tirando o território da publicidade e do marketing onde, pelo contrário, se dão prémios até à exaustão e ao ridículo, não é habitual celebrar os artistas vivos, nem a memória dos que nos deixaram. As galas de atribuição de prémios, quando acontecem no universo televisivo, confundem-se normalmente com festas do social e o critério de escolha dos premiados resume-se quase sempre a votações populares via chamadas de valor acrescentado ou cupões de revistas cor-de-rosa.
É por isso de saudar que surja uma iniciativa vinda de uma casa de autores, que se destine a premiar a criação em vários domínios e, particularmente, no caso do audiovisual, cinema e televisão, que há muitos anos não tinham uma escolha dos melhores do ano feita por críticos ou profissionais do sector.
Por muito arbitrária e discutível que seja essa escolha, e por muito relativo que seja, para um artista, a eleição como “melhor do ano”, estes momentos são sempre um pretexto para se celebrar e pensar comparativamente a produção nessa área artística.
Dito isto e não hesitando em elogiar a iniciativa, não quero igualmente deixar de manifestar a minha surpresa e o meu desconcerto quando ao assistir ao desfile dos prémios e dos premiados reparo que, nomeadamente nas áreas do teatro, do cinema e da televisão, não só não se considera a categoria de escritor, dramaturgo ou argumentista, isto é, o primeiro autor de uma obra de ficção teatral ou audiovisual, como quando o prémio é atribuído ao filme ou à série quem é chamado ao palco são os actores e produtores. A situação tem o seu climax de ironia quando, depois de receber o prémio para melhor programa de ficção pela série Conta-me Como Foi, o produtor actual da série chama ao palco toda a gente menos os argumentistas, que mal são referidos no discurso de agradecimento. É certo que é um formato espanhol, mas cada episódio é um original português, escrito de raiz.
Um dos chavões da cultura portuguesa é que “não há argumentistas em Portugal”. Como poderão eles ser reconhecidos se quando se dão prémios para o teatro, para o cinema e para a televisão, não se premeia aqueles que nestas áreas são os primeiros autores: dramaturgos, argumentistas, guionistas? Para ser exacto, é como dar o prémio de melhor romance ao editor do romance, sem referir o escritor ou dar o prémio de melhor disco à editora discográfica, sem referir o músico.
Sabendo que a infeliz tradição da nossa pequena indústria de entretenimento e audiovisual é a do louvor e glória dos apresentadores sobre o esquecimento continuado dos autores, nunca imaginei ver a própria Sociedade Portuguesa de Autores a contribuir para perpetuar o poder mediático da sociedade portuguesa de apresentadores sobre os criadores. Eu sei que era um espectáculo televisivo e que naturalmente houve a preocupação antes de mais, de certeza por parte da RTP, de pôr em palco caras conhecidas, mas é fundamental que em futuras edições haja lugar para as categorias, de facto, autorais. Estou certo que quer a SPA quer a RTP corrigirão esta falha numa iniciativa que é muito importante continuar.
À margem de tudo isto, no entanto, os autores movem-se. Também esta semana tive ocasião de participar na iniciativa Shortcutz, um festival de curtas-metragens que tem vindo a ter lugar no bar Bicaense, em Lisboa, todas as terças-feiras. Uma iniciativa de um pequeno grupo liderado por Rui de Brito, que tem vindo a exibir curtas-metragens e a promover conversas com os seus autores – realizadores e argumentistas. Havia um Benfica-Sporting mas a sala estava cheia de um público interessado nas novas gerações de autores do audiovisual. Falou-se de muita coisa, inclusivamente de filmes de zombies, a propósito da passagem do excelente I’ll See You in My Dreams, do Filipe Melo. (Filmes de zombies que são, aliás, de um certo ponto de vista, uma tradição do cinema português, onde muitas vezes temos a sensação que está tudo a morrer). A verdade é que festivais como o Shortcutz são sinais de uma nova vitalidade, por sinal nada zombie. 

 

Crónica publicada no Económico no dia 13 de Fevereiro de 2010.

 

 



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

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