Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Nasci nos anos 60, em 62, no exacto dia em que os Beatles lançaram o seu primeiro single, Love Me Do. Adoro os Beatles, as suas canções, e tudo o que eles foram e representaram. Quando os comecei a ouvir já eles tinham acabado. O meu primeiro LP dos Beatles foi o duplo de capa azul com o best of da 2ª parte da carreira deles. Eu, tal como Portugal, cheguei tarde aos anos 60, por causa da minha idade e por causa da ditadura. Em Portugal a explosão da cultura pop e jovem (passe a redundância) só aconteceu plenamente depois da revolução e do PREC, já nos anos 80.
Este delay acompanhou sempre a minha adolescência e fez de mim e de muitos da minha geração um adolescente tardio com tendência para começar a gostar de coisas que já tinham acabado. Daí a passar a gostar de coisas porque já tinham acabado foi um pequeno passo para a melancolia.
Musicalmente, os anos 70, os anos da minha adolescência, foram anos de rock sinfónico, de bandas pop rock que incharam em delírio megalómano até rebentarem ou serem rebentadas pelo movimento punk.
A verdade é que nunca gostei muito de rock, com excepções de que gosto muito, como Jagger e os Stones ou Morrison e os Doors (Muito menos de hard rock ou heavy metal. O punk sempre detestei). Mas adorava poder ter estado com 16 anos em Londres no início dos anos 60, e em São Francisco no final dessa década.
Extraordinário foi estar em Lisboa no 25 de Abril de 74, ter saído à rua nos dias seguintes e ver a revolução. Tinha 11 anos. Se tivesse 18 talvez fosse perfeito.
Vivo na cidade do Pessoa mas nasci quase 30 anos depois dele ter morrido. Estive de certeza em cafés e esquinas onde ele esteve. É possível que o meu pai, mais possível ainda o meu avô, se tenha cruzado com ele numa qualquer rua da Baixa. Se calhar falaram e beberam um copo juntos. É possível que um dos miúdos que vejo a jogar à bola no meu bairro lisboeta seja o super Pessoa do século XXI.
A seguir ao 25 de Abril comecei a ouvir música brasileira. Lembro-me que um dos primeiros discos era um best of do Chico Buarque, que vi ao vivo numa das primeiras festas do Avante. E depois foi o Caetano, e depois a bossa nova.
Se tiver que escolher um género musical é este, essa bossa e seus cantores. João Gilberto, a começar tudo com o Chega de Saudade, e Jobim, o compositor maior. Penso como seria maravilhosa a cidade, o Rio de Janeiro, no final dos anos 50, naquele intervalo de meia dúzia de anos antes da ditadura e antes das favelas e do crime. No meu best of do Mundo esta era a faixa 1: ter 20 anos e partilhar as canções e a praia com as garotas de Ipanema e os seus cantores.
A felicidade no Mundo, como na vida de cada um de nós, é efémera, mas pode acontecer várias vezes e sempre onde menos se espera. Ao olhar para trás, para toda a História do Mundo, para toda a alegria e glória, para toda a tragédia e pó, penso como seria a utopia da viagem no tempo, por todos os tempos e lugares do Mundo. Se fosse possível, como num best of das melhores músicas, viver, estar no sítio e no tempo dos melhores momentos do Mundo.
Uma ideia que tenho para um livro que ainda hei-de fazer, O Mundo, best of: Rio de Janeiro, 1958; Lisboa, 25 de Abril a 1 de Maio de 1974; Londres, início dos anos 60; Califórnia, fim dos anos 60. Mas também: Paris, início do século XX ou Filadélfia na Revolução Americana. Ou Roma, na República Romana. Ou a Atenas dos Filósofos. E a Lisboa de D. Manuel, no Terreiro do Paço, com o regresso das Caravelas e os seus mistérios e maravilhas. Córdova e o Al Andaluz. O Egipto de Nefertiti. O momento da descoberta do Brasil, ao lado de Pêro Vaz de Caminha. A Florença do século XV. A Pérsia de Alexandre. A Badgad das mil e uma noites. Uma ilha esquecida da Polinésia...
Discografia alternativa, os lados B dos singles, as faixas esquecidas, as raridades: Aquele entardecer perdido no Portinho da Arrábida da adolescência. O pai a dizer : uma noite descansada, antes de eu voltar a acender a luz para ler. Eu a dizer ao meu filho uma noite descansada. Como diz a canção, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.



Nuno Artur Silva às 09:43 | link do post

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