Terça-feira, 2 de Março de 2010

Há 20 anos que trabalho em televisão e ainda não me habituei ao sacrossanto culto das audiências. Eu sei que não sou exemplo para ninguém e que no “mundo da televisão” serei sempre um estrangeiro, um tipo que veio do lado da cultura, pior que tudo: um intelectual. Ou seja, um tipo que não percebe nada de televisão. (Claro que para o “mundo da cultura” eu serei sempre o tipo da televisão, um entertainer. Ou seja, um tipo que não tem nada a ver com a cultura.) Mas a questão das audiências e da obsessão de (quase) todas as pessoas que trabalham em televisão pelas audiências sempre me passou ao lado. Eu sei que os canais que vivem de publicidade dependem das audiências e que não há serviço público sem público, mas – e este é um grande mas – primeiro, penso sempre que a prioridade deverá ser fazer não o que nos parece que o público acha o melhor possível, mas aquilo que nós achamos que é o melhor possível; segundo, as audiências já não são o que eram, ou seja, têm cada vez mais que se lhe diga.
É raro encontrar um director de programas que diga que gosta ou não gosta de um programa antes de consultar as audiências. Pode parecer estranho mas o normal em televisão, quando se pergunta a um director se gostou do programa, é receber a resposta: “vamos a ver amanhã”, isto é, “vamos a ver se teve boas audiências, porque se teve é sinal de que gostei muito”. Traduzindo para a vida real, é como se a excelente noite que passámos só foi realmente excelente se o público tiver gostado, ou na versão do Woody Allen: “Finalmente tive um orgasmo mas o meu médico disse-me que era do tipo errado”.
Esta febre das audiências é contagiosa. A quantidade de pessoas que nas produtoras de televisão correm com ansiedade para ver “como é que foi ontem” é incomparavelmente superior ao número de pessoas que se preocupa com a qualidade do programa. E, no entanto, chamem-me idealista, mas continuo a achar que o verdadeiro barómetro deve ser a consciência que cada um tem do trabalho que está a fazer, a partir das reacções que tem. É claro que as audiências são um dado importante mas – cada vez mais – a análise dos públicos não se resume a um simples número.
Já em 1997, quando fizemos um programa chamado Herman Enciclopédia, tivemos esta percepção. O programa foi um relativo flop de audiências. Era sempre derrotado de forma clara pela programação dos outros canais. Mas começámos a reparar que – nos cafés, nos locais de trabalho, e depois nos jornais – foram aparecendo frases do programa: “não havia necessidade”, “este homem não é do norte”, “não te desgraces”, “fantástico Melga” ou mesmo “lets look at the traila”. O programa não tinha grandes audiências mas ganhou notoriedade e deixou marcas. Ao contrário dos programas que na altura o derrotavam no campeonato das audiências.
Hoje em dia há muitíssimas mais razões para pôr em causa esta ditadura das audiências. Com a multiplicação dos canais e dos hábitos de consumo, os mecanismos de medição estão manifestamente obsoletos e não acompanham minimamente o que se está a passar em termos de visionamento. As agências de meios têm interesses instalados, ou seja, modelos de negócio e de influência sobre os anunciantes que estão promiscuamente relacionados com o status quo dos canais generalistas. Por fim, hoje mais do que nunca, os públicos estão pulverizados e dizer que se teve x ou y de audiência ou de share pode não querer dizer nada, se não tivermos mais dados. Por exemplo, o perfil de quem estava a ver ou a quantidade de pessoas que não viu nessa altura mas vai ver mais tarde, em gravação, on demand, na net...
Dizendo de outra maneira, temos que comparar tudo porque cada vez mais as coisas não são comparáveis. Não podemos comparar o milhão de pessoas que viu a telenovela com as cem mil que viram a entrevista com o escritor. Tal como não podemos comparar a tiragem do livro de poemas do Herberto Hélder com as vendas do José Rodrigues dos Santos.
A decadência das televisões generalistas e a multiplicação dos canais de nicho vem trazer uma nova realidade. Agora não temos público, temos públicos. Muitos públicos. 

 

Crónica publicada no Económico no dia 27 de Fevereiro de 2010.

 

 



Nuno Artur Silva às 10:20 | link do post

Bio Notas biográficas Currículos Fotos Links Acerca E-mail Work Livros Peças Episódios Artigos Ideias Notas Média Rádio English