Terça-feira, 9 de Março de 2010

Este tem sido o Inverno do nosso descontentamento. Desde logo, meteorologicamente. Nunca como este ano tenho estado tão farto da chuva, do vento e do frio, e das previsões meteorológicas que, invariavelmente, prevêem chuva para os próximos dias. E não se enganam.
Mas, pior ainda que o tempo meteorológico, no país real da política não pára a chuva de casos, intrigas e revelações inundando os média e deixando tudo literalmente na lama, o país transformado num pântano e numa grande metáfora climática.
A verdade é que estou, estamos, fartos, de Sócrates e da sua obsessão doentia pela comunicação social. Tão fartos dele como da comunicação social e da sua obsessão doentia pela obsessão doentia de Sócrates. Isto não é saudável.
E o pior de tudo é a impunidade com que este sistema de justiça e, muito em particular, a magistratura judicial, do Ministério Público, não faz nada para impedir que certos elementos seus condicionem as investigações, manipulando informação, fazendo fugas de imprensa sistemáticas, corrompendo completamente todo o sistema.
Estamos fartos que toda a gente diga que o principal problema é a justiça e ninguém faça nada. Estamos fartos deste bloqueio político em que já não acreditamos no governo e não acreditamos na oposição e nas suas rupturas e mudanças e políticas de verdade.
É um território perigoso este pântano. Pode abrir caminho a demagogias e populismos que se apresentam como clarificadores e acabam em autoritarismos déspotas. Quando começamos a ver maus jornalistas a transformarem-se em mártires da luta pela liberdade de imprensa está aberto o caminho para vermos maus políticos a transformarem-se em justiceiros da insatisfação popular.
Os média parecem um disco riscado e o coro de comentadores, a que me junto nesta crónica, repete incessantemente os refrões da praxe: contra, a favor, os do “isto já não tem saída”, e os do “é preciso acreditar”. Já para não falar dos cómicos e dos piadistas, que pululam por todo o lado, tanto quanto as novas fadistas. E estamos todos fartos uns dos outros. Deve ser do tempo.
E, no entanto, mais do que nunca, é preciso saber ler os sinais, é preciso ter critério, é preciso ter lucidez, inteligência, sensibilidade, é preciso separar, escolher. Não recusar a política, mas separar os maus políticos dos bons políticos, seguir os bons jornalistas e ignorar o mau jornalismo, não perder tempo com os engraçadinhos para poder rir com os cómicos, é preciso fazer escolhas, escolher o essencial, esquecer o acessório.
É preciso ter um critério de exigência, procurar em todas essas áreas as boas ideias e as boas pessoas e no meio do ruído encontrar as vozes certas fazendo dissipar as nuvens que as estão a tapar.
Para concluir, recorro ao mais citado e singular dos comentadores portugueses. Falo, claro, de Gabriel Alves. O homem que disse frases tão inesquecíveis como “um passe para a zona de ninguém, onde realmente não estava ninguém” ou “Juskoviac, a vantagem de ter duas pernas” ou ainda, enquanto o público gritava “Ó Pinto da Costa vai para o c.....” : “o público entusiasmado apoia as duas equipas”. Verdadeiros haikus com uma amplitude de significado que não se esgota no jogo de futebol.
O meu haiku favorito de sempre de Gabriel Alves é, na sua contenção, um tratado definitivo sobre o falhanço. O falhanço do próprio comentador mediante a incerta realidade. Penso muito nele a propósito de Portugal: “Já perdeu tempo para o remate... Golo.”
Portugal já perdeu tempo para o remate, falta dizer golo.
 

Crónica publicada no Económico no dia 6 de Março de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:28 | link do post

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