Terça-feira, 16 de Março de 2010

O dinheiro, numa época materialista como a nossa, é o último reduto da espiritualidade. Uma imaterialidade que origina todos os bens materiais que possamos imaginar. Que origina não, que pode originar. Porque para a maioria de nós o dinheiro nunca passa de uma imaterialidade. Aquilo que quase ninguém tem mas que toda a gente anda à procura. Um Graal contemporâneo.
Os grandes temas da Humanidade: o Sexo, a Morte, o Poder, a Religião, as Letras Maiúsculas não são nada comparado com a fé transformadora do Dinheiro, que é a única verdadeira religião universal.
Como qualquer texto religioso, este texto tem de conter uma parábola. “Pergunta o ignaro ao mestre: Porque é que o cão lambe a pila? O mestre sorri com condescendência e retorque: Porque pode.”
E porquê esta parábola? Porque é sábia e se adapta a qualquer coisa. Por exemplo, ao dinheiro. O dinheiro permite-nos lamber a pila. Metaforicamente, claro. (E também sem ser metaforicamente, mas nesse caso, normalmente, são outras pessoas).
Nessa medida, podemos dizer, também metaforicamente, que a vida é um casino, uma roleta que determina quem nasce rico e quem nasce pobre. A grande divisão do mundo não é entre homens e mulheres, judeus e muçulmanos, bonitos e feios, estúpidos e inteligentes: é entre ricos e pobres.
Claro que o dinheiro não traz a felicidade, de maneira nenhuma. Mas permite viver a infelicidade de uma forma muito mais confortável.
Em certos países, os milionários doam grande parte da sua fortuna para fins de beneficência, para combater doenças, abrem alas de hospitais que ficam com o seu nome, criam Fundações… Em Portugal tudo isso é considerado ostensivo e de mau-gosto. Doa a quem doer, por regra, em Portugal ninguém doa nada. O milionário português quando produz riqueza fá-lo normalmente com grande discrição e nunca permite que se esbanje um tostão que seja em acções que beneficiem pessoas que afinal nunca viram mais gordas.
Pode-se perguntar de que serve ser milionário e ter carros e jactos e ilhas se depois se usa calças encarnadas e se casa com uma mulher que parece saída de um casting para uma novela venezuelana. Ou de que serve ter-se dinheiro para contratar qualquer artista do mundo e depois se contrata para festas privadas a Celine Dion. Quem pergunta isso não percebe o grau de infelicidade dessa gente e a sofisticação irónica do seu sofrimento Camp.
Sendo o dinheiro a fonte do prazer que ilude a nossa miséria, o Banco é o Grande Colchão onde enganamos a infelicidade com as mil posições desse kama-sutra que são as operações financeiras.
Terminamos, como começámos, com uma parábola. E que não se pense que é sobre sexo outra vez (embora seja). É a parábola do milionário e das três mulheres. “O milionário queria deixar a sua fortuna à mulher que mais o merecesse e perguntou às três mulheres o que iriam fazer com o dinheiro quando ele desaparecesse. A primeira disse que doaria tudo para beneficência; a segunda investiria, faria negócios e multiplicaria a fortuna; finalmente a terceira, sem hipocrisias, disse que gastaria tudo e se divertiria sem culpa gastando tudo até ao último cêntimo. Pergunta: a quem deixou ele o dinheiro? Resposta: à que tinha as mamas maiores.”
Esta parábola revela muitas coisas. Primeiro, que o dinheiro permite-nos tomar qualquer decisão de forma completamente arbitrária. Segundo, que é sempre escolhido quem tem as mamas maiores. Terceiro, que o dinheiro pode fazer as mamas maiores. E, nesse sentido, quem tem as mamas maiores pode, não só ser escolhido, como escolher. E nesse caso normalmente escolhe quem tem as mamas maiores.
É por isso que o dinheiro é a coisa mais espiritual do mundo.



Nuno Artur Silva às 10:27 | link do post

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