Terça-feira, 23 de Março de 2010

Está tudo a mudar no mundo da produção audiovisual. A própria divisão entre o que é cinema e o que é audiovisual, ou seja, televisão, está a deixar de fazer sentido no território do multimédia digital. E no que era o universo específico da televisão o território não está menos incerto. A decadência dos canais generalistas é uma evidência. O ritual de visionamento televisivo passivo, frente ao fluxo dos canais, está a ser substituído por visionamentos escolhidos, on demand, da maneira e no tempo que os espectadores querem. Isto obriga a um reposicionamento das estações de televisão, dos seus canais, das suas estratégias de produção, programação, divulgação e dos seus modelos de negócio.
A TVI estreou esta semana uma nova telenovela. Nada de novo. Aparentemente um êxito de share, nada de novo também. A TVI lidera de forma sólida no conjunto das três grandes estações generalistas há uma década. E, no entanto, a TVI tem um problema: o modelo está esgotado. A monocultura da telenovela gera um monopúblico. O canal está a deixar de ser generalista. E, ao perder determinados públicos, perde anunciantes. E não os recupera doutra maneira porque a estação não soube criar outros canais. A TVI 24 não tem ainda marca própria e os outros anunciados canais não aconteceram.
A TVI tem, pela sua estrutura accionista, condições privilegiadas para fazer pontes com Espanha e com a América Latina. A sua marca produtora, Plural, segundo foi anunciado, foi formada para concretizar esse potencial. Mas tudo parece adiado. E ainda não se começou a produzir ficção que não fosse para exibição na TVI. E praticamente tudo telenovela. O êxito telenovelesco esconde o impasse estratégico.
Já o êxito da SIC está na sua rede de canais. Falta criar condições para que esses canais possam crescer. A SIC Notícias é um êxito e tornou-se o canal informativo de referência. A SIC Radical, a SIC Mulher e, recentemente, a SIC K, têm grande potencial de crescimento, desde que haja investimento financeiro e criativo. Falta resolver a programação da SIC generalista. Não é fácil. Desde o início que a SIC tem uma matriz informativa muito forte. Primeiro, ela foi complementada do lado da programação com a parceria com a Globo, num tempo em que as novelas brasileiras tinham público e notoriedade. Esse tempo acabou. Depois, o modelo de programação foi genericamente o da Endemol, do grande entretenimento com uma componente de reality show. Numa terceira fase apostou-se no humor popular português. Hoje em dia, e desde há uns anos, a programação procura uma marca própria que ainda não foi encontrada. A enorme instabilidade da grelha nocturna não tem fidelizado públicos. No caso da SIC podemos dizer que o impasse da estratégia de conteúdos do canal generalista tem prejudicado o desenvolvimento do conjunto dos canais. Mas, paradoxalmente, por causa da existência desta rede de canais, a SIC está mais bem posicionada para o futuro do que a TVI.
A RTP mantém-se fiel ao modelo de sempre, os novos canais são pequenos satélites do grande canal que é a RTP 1. A RTP Internacional continua a não ser uma prioridade. Como lhe compete, a RTP, dentro desse modelo generalista comercial que está definido desde há décadas, tem procurado ter uma programação mais diversificada que a dos privados.
Fazendo uma retrospectiva muito geral da história da televisão em Portugal, é fácil constatar que os modelos dominantes (e os próprios decisores) não mudaram muito. Com a excepção da SIC inicial, de Emídio Rangel, que de facto introduziu uma mudança no audiovisual português, e da TVI pós-Big Brother, de José Eduardo Moniz, da monocultura telenovelesca e da lógica reality tablóide dos talkshows aos telejornais, nada mudou substancialmente.
E, no entanto, como dizia no início do texto, tudo está a mudar. Em que direcção? E de que maneira? O novo modelo dominante é não haver modelo dominante? É capaz de ser um bom princípio para o futuro.

 

Crónica publicada no Económico no dia 20 de Março de 2010.
 



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

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