Terça-feira, 30 de Março de 2010

No meio do turbilhão de trabalho e de informação e de todo o sem tempo, tiro um tempo, faço uma suspensão no tempo e, por um momento, penso e pergunto: o que fica do que passa? Vejo os jornais em cima da mesa, hesito no tema da crónica, penso em tudo o que tenho para fazer e me apetece muito fazer e apetece-me fazer o que não tenho que fazer. E penso em tudo o que tenho feito e no que não fiz para fazer o que fiz. Agora ajusto o espelho retrovisor, e começo a ver o que vou deixando para trás. O que é que vai ficar? Agora que estou outra vez na voragem de mil e um projectos, com mil e uma coisas em falta, mal dormido e sem tempo para os amigos e para os prazeres, páro e pergunto o que fica do que passa? Lembro-me do poema do O’Neill: “E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa / Passa pelos olhos de um gato (...) O destino passa (...) o destino demora-se e passa...” E o que vai ficar? Dos recortes do jornal que é a nossa memória dos dias quais é que vamos guardar, quais vão sobreviver ao pó e à humidade e às mudanças da casa que é a nossa memória? Quais é que vão acontecer pela segunda vez? (“A memória é o sítio onde as coisas acontecem pela segunda vez” – Paul Auster). No Blade Runner, filme meu tão favorito, na cena derradeira, quase final, o Replicant, antes de morrer, salva a vida do polícia que o queria matar e recita-lhe as suas memórias: “Vi coisas que vocês homens nem imaginam. Naves de guerra em chamas na constelação Orion. Vi raios C resplandecentes no escuro, perto do Portal de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. Lembro-me dos versos da belíssima canção de Sérgio Godinho e Ivan Lins “Que há-de ser de nós?”: “Que há-de ser do mais longo beijo / que nos fez trocar de morada / dissipar-se-á como tudo em nada? / já fizemos tanto e tão pouco / que há-de ser de nós?” Há experiências que se vivem intensamente como uma canção pop, que se repete e se canta até à exaustão, celebrando a novidade do ritmo e da melodia até se gastar como uma pastilha elástica. É a vibração pop de viver o momento intensamente, carpe diem, dizia Horácio, seize the day dizia Robin Williams no Clube dos Poetas Mortos. No meio do frenesim de tudo o que há para fazer, alguém aqui nas Produções Fictícias começou a colar pequenos poemas nas cadeiras, nas portas, nos dossiers... Como este do Jorge Sousa Braga (no espelho da casa-de-banho): “Nos semáforos da rua de Santa Catarina: ao menos os teus olhos / permanecem verdes / todo o ano”. E depois tudo se recupera pela nostalgia. Estamos a saír da nostalgia dos anos 80 e a entrar na nostalgia dos anos 90. Com a aceleração, a cultura pop vai-nos fazer celebrar o dia de hoje e iniciar a nostalgia deste dia no dia seguinte. Uma vez escrevi um sketch para o Zé Pedro Gomes e o António Feio em que eles eram dois amigos nostálgicos dos anos 60 e depois dos 70, e por aí fora, até ficarem com nostalgia do momento em que começaram a fazer o sketch e do fim do sketch, que dessa forma nunca mais acabava. Resistindo a todas as modas ficam os clássicos. Que são o que fica com o tempo. Que são o essencial. Mas o que fica com o tempo? Lembro-me que a seguir ao 25 de Abril o escritor de que se falava e que era O Escritor era o Fernando Namora. Quem lê hoje Fernando Namora? Lemos Vergílio Ferreira. Vamos continuar a ler? E Saramago, Lobo Antunes, Agustina... Aceitam-se apostas. Mas isso interessa para alguma coisa? São todos expressões do seu tempo. Se forem as vozes do seu tempo o que importa que não sejam vozes de outro tempo? Quando procuro lembrar-me da televisão que se fazia nos anos 90 em Portugal, lembro-me de uma pequena produtora de vão de escada, a Latina Europa. A Latina Europa foi fundada em 1989 pelo Paulo Miguel Fortes e pelo António Saraiva. Fez programas para a RTP 2, como Lusitânia Expresso, PopOff ou Lentes de Contacto. Por lá passaram todos os que viriam a ser os melhores realizadores de televisão da década seguinte. Era uma pequena produtora mas foi mais importante pela inovação e pelo espírito do que praticamente tudo o que se fazia na altura. Do outro lado da minha vida, fora da televisão, nesse início dos anos 90, lembro-me do Herminio Monteiro e da sua Assírio e Alvim. E de como ele juntou à sua volta poetas e artistas e editou milhares de livros de poesia. Agora que estou no meio de um lançamento de um novo projecto, no meio das tentativas e dos erros, e das dúvidas e alegrias , no meio de mil e uma ideias e pessoas , páro para pensar no que vai ficar de tudo isto. E penso que é sempre imprevisível, que nunca se pode saber. E que isso é inspirador.



Nuno Artur Silva às 10:27 | link do post | comentar

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