Terça-feira, 6 de Abril de 2010
Há uma cena no Annie Hall em que a personagem do Woody Allen, Alvy Singer, um comediante, está à porta de um cinema e um transeunte começa a andar à volta dele, a perguntar se ele é da televisão. Singer acaba por confirmar vagamente, o transeunte pergunta-lhe o nome e acaba a cena a gritar a todos os que passam “ Está aqui o Alvy Singer !”. Sempre me divertiu muito a relação com os famosos, sejam os famosos realmente famosos, sejam só “famosos por ser famosos”. É uma evolução da relação com os heróis e deuses antigos, no contexto da sociedade contemporânea do espectáculo. A relação de um adulto com um famoso acaba por ser sempre a relação que uma criança tem com um boneco que faz parte do seu imaginário, das suas histórias de faz de conta. O encontro com esse famoso é como o momento em que a criança cumprimenta o Pato Donald na Disneylândia. Não importa para o caso que não seja realmente o Pato Donald que ela está a cumprimentar mas eventualmente um pobre de um actor desempregado com uma vida miserável, ou simplesmente o Chico da Farmácia num biscate. Tal como o grande cantor ou o grande escritor que cumprimentamos com admiração nunca é a figura mítica criada pela distância e veneração, mas simplesmente uma outra pessoa que desconhecemos. O cumprimento ou o autógrafo são sempre uma forma fetichista de relação com o nosso herói, um fake de uma intimidade que não aconteceu. Mas os momentos da fotografia com o Pato Donald são sempre emocionantes ou anedóticos, ou seja, transformam-se sempre numa história para contar. Eu tenho vários, anedóticos, porque apesar de não ser jornalista a minha actividade já fez com que me cruzasse com inúmeras celebridades. É batota, claro. Não tem o impacto de encontrar a celebridade por acaso ou por destino. Os jornalistas, como os que trabalham nos bastidores dos espectáculos, vivem do brilho alheio e por vezes confundem situações profissionais com cumplicidade com os artistas. Mas a verdade é que estiveram próximos deles. Eu, por exemplo, lembro-me de ter sentido que estava a cumprimentar o Pato Donald quando conheci o Herman, que eu admirava profundamente da televisão. Depois comecei a trabalhar com ele e o efeito desvaneceu-se (embora não completamente). O próprio Herman conta, a rir, a história do encontro com o seu Pato Donald, Frank Sinatra, quando ele veio a Portugal. O Herman, que fez a primeira parte do show do Sinatra, dirigiu-se-lhe dizendo “Mr. Sinatra, I’m Herman José, a very popular comediant in Portugal”, ao que Sinatra respondeu, sem o cumprimentar e não parando: “I bet you are”. É claro que isto já foi na fase em que Sinatra saía de uma limousine e entrava na sala de concertos e dizia, como disse cá, “I’m very happy to be in... this part of the world”. Nos bastidores do programa do Herman cruzei-me e conversei com grandes celebridades mundiais (a sério!). Mas a história mais extraordinária de todas é capaz de ter sido quando, na época do primeiro Big Brother, o convidado do Herman Sic foi o irmão gémeo do Marco, um dos concorrentes. E nos bastidores, na sala do Herman, a dada altura, estava a equipa toda, Herman incluído, reunida à volta do sofá, onde estava sentado esse irmão do Marco, que falava como se fosse o Marlon Brando perante uma multidão ávida para o ouvir. Apesar de ter sido o irmão, este momento foi um marco na definição contemporânea de famoso. Contudo, a minha história pessoal favorita com famosos é a seguinte: como grande fã de música brasileira, fui com uns amigos aos bastidores de um concerto do Caetano Veloso, cumprimentar o Caetano, mas sobretudo reencontrar um famoso entretanto já transformado em meu conhecido, o grande músico Jacques Morelenbaum. Tínhamos combinado jantar depois do concerto e no meu carro, para além do Jacques, dei boleia ao guitarrista do Caetano e a uma sua namorada. Ao chegarmos ao restaurante começámos a falar e eu perguntei à namorada, que ficou à minha frente, “então e você faz o quê, Ivete?”. Ao que ela respondeu “eu canto, né?”. Nesse momento eu, que me considero razoável conhecedor de música brasileira, percebi que tinha feito aquela pergunta à Ivete Sangalo, provavelmente, à época, a cantora mais popular do Brasil. Já contei tantas vezes esta história que, por causa dela, estou a ficar famoso. Qualquer dia começo a dar autógrafos.

Nuno Artur Silva às 10:15 | link do post | comentar

1 comentário:
De Creditos Online a 15 de Abril de 2010 às 22:13
Está fantástico o seu blog, parabéns.


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