Terça-feira, 13 de Abril de 2010

Segundo o Financial Times que é, para a economia mundial, o que o Weather Channel é para o estado do tempo, a Grécia não tem hipóteses. É bancarrota pela certa. E depois será Espanha. E depois Portugal. A Europa, isto é, a França, e sobretudo a Alemanha, não nos salvarão, somos PIGS, ficaremos PIGS, provavelmente PGS porque a Irlanda será salva pela vizinhança inglesa. Uma tragédia, grega, traduzida para espanhol e para a região autónoma de Portugal. Ver-nos-emos todos gregos. Tal como antes o sonho do império se esfumou na realidade do pequeno país à beira-mar, agora o sonho europeu desvanece-se e deixa ver a pequena região subdesenvolvida da periferia. O país mudou muito desde o 25 de Abril, como comprovam as auto-estradas, a alfabetização e os hipermercados. As estatísticas do Prodata e do Portugal, Um Retrato Social, do António Barreto, falam por si. Mas, no essencial, nos centros de poder e de decisão, as mentalidades não mudaram. Tudo está como estava no século XIX. E por isso é que o Eça de Queirós é tão actual e as crónicas dos pessimistas como o Vasco Pulido Valente, ou os relatórios catastrofistas como os do Medina Carreira, se adequam à interpretação da realidade que, como eles, teima em não mudar. O problema é sempre o mesmo: a corrupção. A promiscuidade entre o Estado e os privados, a cupidez dos empresários que dizem mal do Estado mas não podem viver sem os seus favores, o tráfico de influências e, por fim, ou mais exactamente antes de tudo, a completa ineficácia e corrupção do sistema de justiça que permite que tudo isto se perpetue impunemente. Num dos inumeráveis estudos comparativos publicados nos últimos tempos dizia-se que se não houvesse corrupção em Portugal poderíamos estar como a Finlândia. Com a vantagem do clima. Ou seja, se cá nevasse fazia-se cá ski. Mas neste caso perdíamos a vantagem do clima. É o inevitável destino português? Estamos de novo na cauda da Europa, prontos a carregar a pedra de novo para o cimo da montanha. No filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, Bill Murray interpreta um egocêntrico apresentador do programa de meteorologia que é enviado à localidade de Punxsutawney para fazer a cobertura do Dia da Marmota. Ele não vê a hora de terminar o trabalho e voltar para casa, mas o inesperado acontece: ao acordar, no dia seguinte, percebe que está de novo no início do dia anterior e que tudo vai recomeçar exactamente igual e ele vai ter que fazer a reportagem do Dia da Marmota outra vez. Portugal está outra vez no Dia da Marmota, de onde afinal parece que nunca saímos. No filme a personagem de Bill Murray apaixona-se por Rita, a personagem de Andy MacDowell. Os primeiros encontros são desastrosos e ele não tem nenhuma hipótese com ela. Mas já que o dia se vai repetindo infindavelmente, e ele parece ser o único a ter consciência disso, começa a fazer com que isso jogue a seu favor. Sabendo já o que vai acontecer, ele altera o seu comportamento de modo a obter um resultado diferente. Será que Portugal pode fazer o mesmo? Ou não há volta a dar porque os portugueses serão sempre portugueses? É inescapável? Há uns anos fui convidado para uma conferência na Universidade de Rutgers, em Newark, para falar a um grupo de alunos de Estudos Portugueses. Foi um convite muito simpático e correu tudo lindamente. Já não ia a Nova Iorque há uns anos e estava desejoso de voltar a Manhattan e de visitar a cidade. O grupo de professores convidou-me para jantar e prometeu levar-me a um restaurante muito especial. Animado pela perspectiva de uma noite nova iorquina acabámos num restaurante típico português, em Newark, cheio de portugueses, com a televisão ligada na SIC Internacional, na telenovela. O bacalhau era excelente e foi uma bela noite. No dia seguinte juntei-me a outro grupo de amigos, que não via há muito tempo, e que me desafiaram para ir até Washington. Pensando que não ia estar muito tempo em Nova Iorque, e que a viagem de carro ainda era longa, troquei o programa por um bom jantar, num restaurante muito especial, que eles sugeriram. Acabámos num restaurante típico português do outro lado da rua do restaurante do dia anterior e absolutamente igual ao primeiro. Rodeado de portugueses, com a televisão na RTP Internacional, no futebol. O cozido estava óptimo e foi uma bela noite. Na terceira noite jantei sozinho. Em Manhattan. Não foi tão divertido. Três dias em Nova Iorque e dois a jantar em Carnide. É o destino português.

 

Crónica publicada no Económico, no dia 10 de Abril de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

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