Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.

O tema, cíclico, regressou à praça pública. E, como é habitual, a discussão raramente é aprofundada, acabando por limitar-se aos clichés prós e contra cristalizados há anos e que se resumem, no essencial, à questão do controlo do Estado ou dos governos vigentes na informação dos canais da RTP, e à questão dos custos brutos de manutenção desses canais e da estrutura que os sustenta.

A falta de uma discussão pública aprofundada sobre o serviço público de televisão e, num quadro mais geral, mas indissociável do primeiro, sobre o investimento público na área das redes de comunicação e dos seus conteúdos, tem originado um rol de decisões erradas ou, no mínimo, muito discutíveis, no território audiovisual português.

É ver a forma como foram atribuidos os canais privados em Portugal, como foi desenvolvida a televisão por cabo ou, mais recentemente, o processo de (não) atribuição da licença para o quinto canal ou o processo da televisão digital terrestre.

A verdade é que, independentemente da posição dos sucessivos governos e do atraso da legislação, o mundo não pára e a inovação tecnológica tem permitido o surgimento de novas realidades para além de todos os obstáculos.

Ainda que nem sempre da melhor forma, ainda que desregulados, desregrados ou sem obrigações, hoje a oferta de conteúdos multiplicou-se e a diversidade instalou-se. Simultaneamente com esta diversidade de oferta, e de forma aparentemente paradoxal, nunca a produção independente de conteúdos audiovisuais e de cinema, em Portugal, esteve numa situação tão frágil e indefinida como a actual.

É neste quadro que se deve pensar numa reformulação da RTP. E sobretudo no quadro mais vasto de uma política para a defesa, valorização e promoção do nosso maior património: a Língua Portuguesa. Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.

O que tem que acontecer é deixar de se pensar na RTP como a pensámos até aqui: um grande canal nacional, agregador de toda a população, uma variante “cultural” na RTP2, uma RTP Internacional praticamente sem programação própria e uns canais regionais (e, mais recentemente, um canal informativo do Porto e uma residual RTP Memória).

A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.

Neste sentido, como já escrevi antes, e partilhando a opinião de Miguel Gaspar num texto recente no Público, deve-se pensar a RTP mais numa lógica net do que numa lógica de televisão tradicional. Cito Miguel Gaspar: “... aquela que devia ser neste momento a principal preocupaçao do Estado em matéria de comunicação social permanece no maior dos esquecimentos. Essa prioridade deveria ser a criação de conteúdos para a internet e ainda o equivalente a uma rede social para os espaços das comunidades portuguesas e da lusofonia, que poderia desempenhar um papel muito mais interessante do que a anacrónica RTP Internacional. Em matéria de serviço público, entrámos na era digital a pensar em termos analógicos”.

É por aqui que devíamos iniciar este debate que, apesar de urgente, deve ser feito com tempo e sem decisões precipitadas.

 

Crónica publicada no dia 17 de Abril de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:37 | link do post

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