Terça-feira, 27 de Abril de 2010

No meio da crise e do impasse geral, no país e em particular no mundo dos media, escolho dois temas que merecem ser destacados: os nove anos da SIC Radical e o sétimo ano do Festival Indie Lisboa.

Nunca a produção audiovisual em Portugal teve um horizonte tão indefinido como o actual. O fracasso do modelo do FICA gerou uma situação pantanosa que ainda não foi clarificada. Este retrocesso, aliado à quebra de receitas do ICA, fez de 2009 um dos anos mais negros e menos produtivos do cinema português.

Do lado das televisões o panorama também é desolador. A única produção regular de ficção é a de telenovelas. A pouca diversidade ficcional e os poucos documentários praticamente se reduzem a uma RTP que cumpre os mínimos a que é obrigada.

Perante este cenário insiste-se em fazer manifestos como o Manifesto pelo Cinema Português, assinado pelos realizadores do costume, isto é, o status quo que tem dominado a política de cinema em Portugal, onde se defende a continuidade de um modelo que conduziu à situação actual de o cinema português ser aquele que detém a mais baixa quota de mercado de exibição de cinema nacional em sala da Europa, com uma quota inferior a 3%, contra números de pelo menos dois dígitos em todos os restantes países. Um manifesto que confunde o inegável prestígio internacional de Manoel de Oliveira e Pedro Costa (nos festivais de cinema, que não nas salas) com qualquer reconhecimento do cinema português para além destes autores, que não existe de todo.

Como muito bem assinalaram António Ferreira e Miguel Rosa numa excelente "Carta aberta à Ministra da Cultura a propósito do cinema" publicada esta semana no Público, "uma quota de mercado assim baixa só pode ser explicada por uma desadequação entre a oferta cultural e os gostos do público". E noutra passagem: "o Estado tem vindo a apoiar o cinema (...) resguardado na estéril (e falsa) divisão entre cinema comercial e cinema de autor, atribuindo subsídios a filmes sem qualquer tipo de viabilidade económica e cultural, cobrindo praticamente 100% dos custos destes, quando o papel do Estado devia ser o de cobrir apenas a falha de mercado, ou seja, aquela fatia de receita que a nossa dimensão não consegue gerar (...) Esta política de privilégio de um suposto cinema de autor, hermético e de baixo retorno, penaliza os verdadeiros autores que procuram uma política de aproximação ao público..." ( Aqui só contesto a utilização do adjectivo "verdadeiros") . Como tem sido habitual, este artigo não teve o eco que o outro manifesto teve, cujos promotores há anos têm tido o benefício de uma imprensa que também não tem dado espaço para o contraditório dessa corrente.

Mas, fazendo jus à etimologia da causa, as novas gerações de cineastas movem-se e procuram novas formas de filmar e de produzir. É ver a vitalidade da produção de curtas metragens e das suas mostras e festivais, que se multiplicam. E falando de festivais, nunca é demais saudar a maturidade e o profissionalismo do Indie na sua sétima edição, cuja programação e organização exemplares falam por si.

Enquanto isso, do lado da televisão, é de saudar igualmente a SIC Radical, no seu nono aniversário. O primeiro canal de cabo português que, para lá da informação e do desporto, abriu espaço à produção nacional realmente alternativa na área do humor e, ainda que mais timidamente, na ficção.

Há pouco tempo num artigo publicado na Meios e Publicidade, o director da SIC Radical, Pedro Boucherie Mendes, assinalava o facto de canais estrangeiros a operar em Portugal, como por exemplo a Fox Life, não terem qualquer obrigação de uma percentagem de programação de obras de origem europeia, muito menos portuguesa.

Seria o mínimo exigível e um pequeno contributo para a produção independente portuguesa. Contributo que a SIC Radical tem de facto dado. Apesar do baixo orçamento tem sido possível neste canal, ainda que de forma rarefeita e irregular, dar a ver novos humoristas (o caso mais emblemático é, claro, os Gato Fedorento), ou mesmo novos formatos. Isto para além de programação estrangeira que não estariamos a ver se não fosse aqui. Era preciso que houvesse mais investimento neste canal ou noutros que possam surgir (e aqui agora falo com conhecimento de causa). Por muito que não pareça agora, o futuro passa mais por esses canais do que pelos grandes generalistas.

 



Nuno Artur Silva às 10:40 | link do post

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