Terça-feira, 4 de Maio de 2010

Dizia o Almada Negreiros: "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."

Relembro esta frase num tempo em que, mais que nunca, a política e a discussão pública, no essencial, se jogam e se decidem muito mais em função do que é dito do que a partir do que é feito.  Fazer politica foi sempre, antes de mais, fazer discurso politico, narrativa, oratória, mas agora essa separação entre o dito e o feito é radicalizada na medida que o dito acontece nos palcos mediáticos de uma forma mais dramática, espectacular, hiperbolizada,  que ilude, confunde e obscurece o feito ao ponto de prescindir dele.  

A formação da opinião pública, que pode determinar as escolhas e as tendências da sociedade, é feita mais em função do que é tido como verdadeiro ou mentiroso do que  daquilo que é realmente verdadeiro ou mentiroso, mais em função do que se disse ou não se disse  do que daquilo  que se fez ou não se fez.

Penso nisso a propósito do discurso do Presidente da República no 25 de Abril. Cavaco Silva criticou os prémios milionários atribuídos a gestores de empresas, denunciou as desigualdades e disse que se devia apostar no mar e num pólo criativo no Porto. É claro que não se pode deixar de contextualizar o discurso num contexto de pré-candidatura presidencial (a especificidade do pólo criativo no Porto é claramente um apelo ao eleitorado tradicionalmente cavaquista do Norte). Mas, independentemente do contexto, foi um excelente discurso, que sinalizou problemas e possíveis alternativas de futuro.

É verdade que não foi um discurso original, outros antes do Presidente já tinham dito o mesmo. Mas é importante que seja o Presidente a dizê-lo. Contudo, o que me parece tristemente relevante e exemplar da vida política portuguesa é que este discurso tenha sido proferido pelo mesmo Cavaco Silva que cada vez mais estamos a concluir ter sido o principal responsável pela situação em que nos encontramos. Foi nos dois governos de Cavaco Silva, com a abundância de dinheiros europeus a entrar em Portugal pela primeira vez, que cresceu e se estabeleceu o modelo de desenvolvimento de que hoje estamos reféns. Cavaco fala no mar, mas foi no seu tempo que se desmantelou a nossa frota pesqueira, fala nas remunerações, mas foi no seu tempo que se iniciou o fosso desproporcional entre administradores e trabalhadores das empresas (no caso concreto da EDP, a comissão de remunerações tem como um dos seus administradores um fiel cavaquista, Eduardo Catroga), etc, etc, etc, ... sem querer deixar de referir como político exemplar do que foi o cavaquismo o inefável Dias Loureiro, nomeado, por Cavaco Silva, Conselheiro de Estado.

O que torna este discurso e a sua situação tão exemplares do que é Portugal tem como cereja nesse bolo simbólico o facto de, com grande probabilidade, Cavaco vir a ser reeleito Presidente da República.

E este discurso surge a fechar a semana em que uma das situações mais aberrantes da história da justiça em Portugal se declara. Falo, claro, do caso Domingos Névoa/Sá Fernandes, em que, depois de ter sido provado o acto de corrupção do primeiro, se acaba por condenar o segundo, o que denunciou a corrupção. Não quero deixar de exprimir a minha perplexidade e a minha revolta pela decisão do Tribunal da Relação. Numa altura em que toda a gente fala da corrupção e da incapacidade da justiça para a combater como o principal problema da sociedade portuguesa, esta decisão que premeia um acto de corrupção e condena a denúncia desse acto é, na sua chocante realidade, de um simbolismo absoluto  daquilo em que se tornou a sociedade portuguesa. Uma sociedade onde  falta quem honre a causa pública, onde falta quem cumpra, quem faça. Uma sociedade de homens palavrosos onde faltam homens de palavra.

 

Crónica publicada no Económico no dia 1 de Maio de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:04 | link do post

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