Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

Num tempo político em que os investimentos públicos estão na linha da frente da discussão, era inevitável que a RTP voltasse à baila. Já se começam a ouvir os políticos a debitarem banalidades de base, cheios de certezas sobre o que fazer. Desde logo, vozes pseudoliberais do partido que cometeu o maior erro que se fez com a RTP – a abolição da taxa, uma decisão de Cavaco Silva. O que é lamentável é que nenhum dos partidos, nem dos grandes nem dos pequenos, tenha uma posição reflectida e articulada sobre o tema e não se vislumbre neles sequer quem a possa ou queira ter (as únicas excepções são Arons de Carvalho do Partido Socialista, que já há muito tempo desempenha o mesmo papel, e Pacheco Pereira que, como é seu hábito, usa o tema não para o discutir em si mas como um pretexto para defender a sua agenda politica ). Duplamente lamentável é que a abordagem ao tema seja exclusivamente economicista e não se inscreva no quadro onde realmente se deve inscrever - no contexto cultural. A manutenção do serviço público de televisão e de rádio - do serviço público multimédia é um pilar fundamental de uma política para o audiovisual em Portugal. Num futuro governo a tutela deste serviço público devia ser inequivocamente do Ministério da Cultura. Mas para além disso, deveria ser o próprio Primeiro Ministro, neste caso, como noutros de política cultural (a política da Língua, por exemplo), a chamar a si a primeira responsabilidade desta causa e a garantir a articulação do Ministério da Cultura com outros, como o da Economia, o dos Negócios Estrangeiros, o da Educação e o da Ciência. Tal como noutras áreas culturais (e sobretudo não culturais), a pequena dimensão do país faz com que tenha que ser o Estado a criar condições para a existência de uma indústria audiovisual que possa ser diversa e acessível a todos. Mais: o próprio jornalismo de qualidade pode ter que vir a necessitar de apoios do Estado. Parece paradoxal num tempo em que se clama pela não interferência do Estado na actividade dos jornalistas mas, quando nos grupos privados escasseiam as condições para um trabalho jornalístico mais aprofundado, a ironia dos tempos é que pode vir a ser o Estado quem tem que ser chamado a apoiar projectos que mantenham vivo o pulmão da democracia: o jornalismo livre. Não podemos ser simplistas nem ingénuos nesta discussão. Quando se diz que se quer privatizar a RTP, isso quer dizer o quê? Quem é que quer comprar a RTP? E, já agora, que parte da RTP? E a dívida? E os trabalhadores? Só a RTP 1? E o resto? E ao privatizar a RTP 1 ficariam três canais generalistas a competir? Então não se aprova um quinto canal e privatiza-se o canal público? Julgo que seria aconselhável uma discussão aprofundada sobre o assunto. O que me parece é que a médio prazo faria sentido renegociar a dívida da RTP e, logo que possível, tirar os intervalos publicitários à estação pública, mas não tirar completamente a publicidade, isto é, manter a possibilidade de haver programas e iniciativas patrocinadas e product placement nas séries de ficção. Parece-me que seria desejável que a RTP fosse o centro de uma nova estratégia de financiamento para a produção, promoção e divulgação de filmes, séries e documentários. É fundamental que, ao fazer esta mudança radical, a RTP não se transforme num serviço público residual, como existe na América, com a PBS, ou no Brasil, não somos um país com aquela escala que permite ter grandes estações privadas, que façam grandes produções, precisamos de manter uma grande estação pública, que faça investimentos na ficção e no documentário e que articule co-produções de maior dimensão ( A ideia de uma televisão da Sociedade Civil tal como foi ensaiada pela RTP2 é um absurdo que ninguém vê). Tudo está a mudar no mundo das televisões - E aproveito aqui para saudar o novo canal Etv do grupo Económico - por mais que os canais generalistas façam esquemas com as agências de meios para atrasar o inevitável: o futuro está numa estratégia de rede de canais integrados em grupos de comunicação (Por isso é que é a TVI - e não a SIC, que tem um problema para resolver a curto prazo, se não quer ficar reduzida a um canal de Cs e Ds) Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto, a terceira ponte e o TGV. 

 

Crónica publicada no dia 8 de Maio de 2010 no Económico.

 

 



Nuno Artur Silva às 15:25 | link do post

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