Terça-feira, 18 de Maio de 2010

Sempre me pareceu que Deus está mais na palavra “acredito” do que na palavra “ Deus”, quando se diz “acredito em Deus”. Natália Correia deixou-nos um belíssimo pequeno texto “Exórdio”, incluído no livro “O Armistício”, onde diz: “Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles”. Fui educado no catolicismo mas depressa o abandonei. Imediatamente depois de ter feito a primeira comunhão, desliguei-me. A variante católica do cristianismo não só nunca me sensibilizou como, em muitos aspectos me ofendeu e ofende. Desde logo pela chocante contradição entre a pompa e ostentação do poder do Vaticano e o despojamento da mensagem cristã, mas sobretudo pela imposição do conceito de pecado e pela continuada repressão do corpo e das ideias - da liberdade, e em suma, pela sua primária e bafienta mitologia. Mas fico sempre fascinado pela necessidade que as pessoas têm de acreditar em qualquer coisa e pela forma como satisfazem essa necessidade celebrando essa fé em público e em colectivo. Aconteceu agora de novo em Portugal com a vinda do Papa, como acontece sempre com o fenómeno de Fátima ( Ou, de outra maneira não tão diferente quanto possa pensar-se, aconteceu no domingo passado, com a vitória do Benfica numa outra forma de celebração colectiva de uma fé, neste caso muito terrena, profana e prosaica, mas que suscita, como a outra, paixão libertação e alegria, e igualmente promove rituais de celebração colectiva). Não me identifico com nenhuma das grandes religiões, todas me parecem muito mais formas políticas de poder sobre os pessoas e os povos do que sistemas de relação com a transcendência, o divino ou a espiritualidade. O sentido etimológico da palavra religião, religare, é voltar a ligar, reencontrar a ligação com aquilo de que estamos separados, afinal um sentido comum com o da mitologia universal do amor. E, tal como o amor, o sentimento religioso é uma questão íntima e privada, uma relação individual com uma transcendência que, no essencial, faz da epifania uma experiência estética. Há um verso luminoso na obscura poesia de Herberto Hélder que, para mim, exprime, cintilante, esta ideia: “Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza”. Uma das mais gritantes evidências das grandes religiões é, precisamente, a péssima relação delas com as artes contemporâneas, por mais que, por exemplo, o próprio Papa invoque a Beleza. António Marujo escrevia no Público desta semana que “há uma estética na Igreja Católica feia e ridícula, presa que está a expressões de um passado recente – século XIX e XX, em que o catolicismo se zangou com a arte e vice-versa – ou à reprodução deslocada de ícones de séculos”. Mas a inadequação das grandes religiões à época contemporânea não é unicamente uma questão estética, ou sequer ética. A verdade é que não sinto necessidade, como a personagem do Woody Allen num dos seus filmes, de bater à porta de todas as congregações – judaicas, cristãs, muçulmanas, budistas – para perceber qual é a religião ideal para mim. Aliás, num mundo dominado pelas leis do mercado e pela obsessão do consumo, as religiões hoje chegam-nos por catálogo multimédia, muito mais do que por via familiar, escolar ou estatal. Lembro-me de ter escrito um sketch sob a forma de uma rubrica de defesa do consumidor, em que se comparavam diferentes religiões, como quem compara electrodomésticos, usando tabelas onde se comparam a qualidade das igrejas, o interesse dos discursos, a relação entre tempo investido e alívio das consciências, etc. Para lá da anedota, é isto que hoje se passa, quando por exemplo entre nós temos católicos não praticantes, ou seja, católicos que acabam por não praticar ou concordar com muitas coisas que estruturam a sua própria religião. A questão é que não precisamos das grandes religiões tradicionais e do seu totalitarismo politico. Acreditar e ter fé faz parte da natureza e da cultura humanas, a espiritualidade é um caminho para a nossa alegria e elevação. Mas é tempo de inscrever esse caminho no território do livre arbítrio e da liberdade. Acabo como comecei, citando Natália Correia: “Verdade de todos os deuses serem verdadeiros; e não o deus totalitário da verdade única tenazmente administrada pelo fantatismo dos monoteístas (...) Já que só se defende fanaticamente aquilo de que se duvida (...) Os deuses são da poesia.”

 

Crónica publicada no Económico no dia 15 de Maio de 2010.

 



Nuno Artur Silva às 10:16 | link do post

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