Terça-feira, 25 de Maio de 2010
Num dos últimos fins-de-semana passei pela Feira do Livro para uma sessão de autógrafos a dois com o António Jorge Gonçalves. Estava bom tempo e a feira estava cheia de gente, mas a sensação que ambos tivemos e comentámos foi a de que, num tempo em que se começam a comercializar os dispositivos electrónicos de leitura, este modelo de Feira do Livro de papel está esgotado. A feérica exibição comercial e industrial do livro enquanto objecto impresso massivamente e indiferenciadamente (seja literatura, livro técnico ou simplesmente versão livresca de qualquer sucesso televisivo) esconde com a sua incontinência editorial o fim de uma época na história da edição. O Jorge dizia que a multidão de pessoas com sacos cheios de livros lhe fazia lembrar o tempo em que não havia água canalizada e as pessoas iam às fontes com bilhas e garrafões. Hoje em dia os “livros” começam a chegar-nos electrónicos e canalizados e já não falta muito para que todos nós tenhamos, para além do telemóvel e do “computador” portátil, hoje absolutamente banais e essenciais à vida urbana contemporânea, um dispositivo de leitura electrónica portátil, na linha Kindle ou iPad ou o que for. Ironicamente, esta mudança não vai ser a morte do livro em papel, mas a sua salvação. Quando pudermos ler o que quisermos e quando quisermos no nosso leitor portátil, vamos poder perceber e escolher melhor, com melhor critério, aquilo que gostaríamos de ter em edição especial. Como já acontece com os CDs ou os DVDs, aquilo que faz sentido editar são colecções especiais, objectos de design em colecções limitadas e muitas vezes personalizadas pela assinatura dos autores. Os livros que escolhemos ter nas nossas estantes vão ser, literalmente, escolhidos a dedo como objectos de colecção e, tal como hoje acontece com os livros infantis, podem ter mil e um formatos e vir em caixas de diferentes formas e feitios. Talvez quando isso acontecer as feiras do livro se transformem novamente em sítios onde o contacto com os autores seja também transformado em momentos mais especiais, sítios com uma arquitectura que valorize mais os lugares de encontro dos escritores com os seus autores e os separe um pouco mais dos postos de venda, ou seja, cafés literários, aquilo em que, desejo e espero, acabarão por se transformar as livrarias. Por outro lado, os leitores electrónicos vêm permitir um novo género de escrita e de leitura, que ainda mal começou a ser explorado. Refiro-me não só à possibilidade do hipertexto, que permitirá, a partir de uma palavra, expressão, ou de uma citação, entrar – literalmente, noutro texto, como à possibilidade de cruzar com as palavras e as imagens dos livros tradicionais, outros registos, como o som e a música ou as imagens em movimento. Imaginem as possibilidades que se abrem ao podermos “escrever” um livro que nos faça passar de uma história para outra que foi citada, que nos permita ouvir a música que a personagem trauteia, que nos faça ver a cidade que ela percorre, etc. É claro que a literatura continuará a ser a literatura, como o cinema continuará a ser o cinema. Haverá mistura, mas o que muda não é tanto o género em si como o suporte e a maneira como ele chega a cada um de nós. O cinema, por exemplo, na maior parte das vezes, já nos chega por múltiplos ecrãs nas nossas casas ou nos dispositivos portáteis. Numa altura em que é o cinema que vem até nós, “ir ao cinema” vai ser uma de duas coisas: ou vamos ao cinema para namorarmos ou nos divertirmos em grupo, ou para fruirmos uma experiência estética que, curiosamente, aproxima o cinema do teatro: isto é, ou vamos como adolescentes para uma grande sala de cinema divertirmo-nos, ou vamos para um cinema de culto ou uma cinemateca ver um filme clássico ou de autor em película num grande écrã como quem vai ao teatro ter uma experiência que só acontece naquela noite. ( A propósito, já era tempo de haver uma sala que só programasse grandes clássicos do cinema). Tudo se resume a podermos escolher, mas escolher de forma personalizada, como na anedota das duas cabras que estão numa lixeira a comer os restos de uma película de cinema e uma comenta para a outra: “que tal, gostas?”, e a outra responde “gosto mas prefiro o livro”. Crónica publicada no Económico no dia 22 de Maio de 2010.

Nuno Artur Silva às 10:42 | link do post

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