Terça-feira, 1 de Junho de 2010

A minha história favorita sobre as relações entre produtores e autores é a do argumentista de um filme de ficção científica que viu um argumento seu recusado pelo produtor com a justificação que dá título a esta crónica: “Um marciano nunca diria isso”. Este episódio e a sua punch line sintetizam de forma exemplar o choque de civilizações que é sempre a relação entre o criador e o produtor. Trabalhar em cinema, como em televisão, é trabalhar em equipa. E é sobretudo trabalhar numa cadeia de acontecimentos, desde a ideia inicial até à forma final, em que, muitas vezes, qualquer semelhança entre a ideia original e o resultado final é pura coincidência. Em Portugal isso tem sido por demais evidente, quer no cinema quer na televisão, pela simples razão que em ambos o autor inicial, isto é, o argumentista, não tem normalmente qualquer poder para fazer vingar as suas ideias. No caso do cinema esse poder em Portugal tem estado excessivamente concentrado no realizador, no caso da televisão esse poder tem estado concentrado no produtor e, ultimamente, no director da estação televisiva. Esta fragilidade dos argumentistas portugueses explica muito do insucesso da produção de filmes e séries em Portugal. Costuma dizer-se que o problema é não termos argumentistas. A verdadeira razão é não termos produtores. E por trás desta razão há outra que é a estagnação estrutural do audiovisual em Portugal. É sempre uma questão de poder, aquilo que se joga no processo de produção de um filme ou de uma série. Quem toma as decisões artísticas, quem decide se fica desta ou daquela maneira, quem tem o final cut. Em Portugal é muito normal não haver sequer direcção artística e o processo ficar numa deriva que deve mais à arbitrariedade, ao desleixo e à desresponsabilização do que a qualquer escolha fundamentada. Quando não é assim, normalmente é tudo afunilado numa única pessoa. Tradicionalmente o actor comediante nas séries de humor, o realizador autor nos filmes, a direcção de programas na televisão em geral. Nunca, praticamente nunca, no primeiro autor que é o argumentista, que em Portugal ainda hoje é considerado um tarefeiro, quase ao nível de um fornecedor de catering. Nos países onde há vitalidade e diversidade criativa na indústria audiovisual, o autor é não só poderoso como, em muitos casos, o elemento mais poderoso do projecto. Veja-se o período de ouro da televisão americana, que agora simbolicamente se encerra com o fim da série Lost. Um período em que os autores eram creditados como produtores da série porque eram eles quem decidia, do princípio ao fim, as grandes opções criativas da série. Da escolha de elenco ao final cut. Acima deles, só as estações produtoras, que podiam decidir cancelar ou continuar as séries, mas não interferiam de forma abusiva no conteúdo. O êxito desta fórmula pode ser comprovado se olharmos para os últimos dez anos de produção de séries americanas. A qualidade esteve sempre associada ao modelo de autor/produtor, sejam séries de humor ou séries dramáticas, mais juvenis ou mais adultas. Agora que a época de ouro parece ter terminado, por razões que têm a ver com a pulverização dos canais e a internet, e que fazem com que as grandes produtoras não arrisquem grandes produções, o papel dos autores, dos primeiros autores, dos argumentistas, deve ser mais valorizado do que nunca. Com o fim de Lost, a série mais cara de sempre, é a própria indústria que se encontra perdida, na imprevisível ilha dos media contemporâneos. Mas independentemente de toda a mutação das plataformas e dos écrãs, o essencial não mudou e não vai mudar: histórias. As pessoas vão continuar a querer seguir as boas histórias. Seja em que canal for, e seja de que maneira for, no momento em que são emitidas pela primeira vez ou quando quiserem. O que nós todos vamos continuar a querer é partilhar essas histórias com outros. E vamos continuar a querer pertencer a comunidades que vejam o mesmo que nós vemos. E vamos continuar a querer ver histórias que já conhecemos e gostamos. E vamos continuar a querer ver histórias novas. Num mundo cada vez mais invadido de conteúdos por todo o lado, há dois tipos de pessoas que vamos querer seguir: os inspirados contadores de histórias e os programadores que vão orientar-nos na forma de encontrarmos os contadores de histórias de que gostamos. Aqueles que nos contam o que os marcianos realmente dizem.

 

Crónica publicada no Económico, no dia 29 de Maio de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

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