Segunda-feira, 7 de Junho de 2010

Lisboa e Junho é um casamento perfeito. À beira do verão, a cidade está salpicada de jacarandás, penso como será vista do céu, mas do céu próximo, num voo de pássaro. Em francês à vol d’oiseau quer dizer passar sem nos determos, em linha recta, mas também por alto, podia ser um título para uma crónica.

“À beira do mar de Junho” é o título de um livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge, do início dos anos oitenta, gostava do livro pelos poemas, eram quase sempre muito curtos, a abrirem muitas leituras, mas gostava sobretudo do livro pelo livro em si, era uma edição da Na Regra do Jogo, com capa azul cartonada. No interior, logo nas primeiras páginas, tinha uma foto do mar visto de uma arriba com vegetação, que estava impressa e colada como um cromo. Gostei desse livro como se ele, objecto, fosse um poema e, como acontece com um poema, me inspirasse não tanto pelo que lá está escrito como pelo que eu leio nele. Agora que o livro está numa estante da casa como um poema numa antologia, não volto a ele para não perder a memoria que dele agora tenho.

Não sei explicar ao certo o prazer que encontro nessas evocações do verão ou da ideia do verão á beira mar, nunca sei explicar ao certo e vou errando numa deriva preguiçosa que me leva desse livro a outros livros de poemas litorais, como o Salsugem, do Al Berto ou tantos ao acaso da Sophia onde apetece ficar como num terraço branco debaixo de um alpendre florido sobre o mar.

Há um amigo meu que não gosta de poesia. Diz que ouvir poemas, para ele, é como ouvir números. “ Eu vi a luz em um pais perdido”: 33, 22, 7, 423. “E busque amor novas artes, novo engenho”: 93, 44, 2, 113.

Imagino-o, um dia, a ler, por acaso, um poema “É ferida que dói e não se sente”: 24, 13, 5, 1001, desinteressado e distraído, um texto que nem seja um poema, um texto donde lhe venha, inesperado e fulgurante, um verso que ele ganhe como quem ganha a lotaria, como o número de uma lotaria íntima, o segredo do cofre onde ele guarda a sua secreta poesia privada.

Dos poemas parte-se para a infância. Ao passar pela minha adolescência lembro-me dos verões à beira mar, acampado na praia com os amigos, trocando leituras e projectos. Nunca a inspiração dos livros foi tão vibrante e partilhada como nesse tempo em que tudo parecia estar por acontecer. Do Portinho da Arrábida à costa vicentina ou ao Algarve menos betonado ficou um rasto de criação de memorias comuns de pequenas aventuras de férias e de grandes aventuras sonhadas a partir dos livros que nos seduziam como as namoradas que sonhávamos ter.

“É triste no Outono concluir/ que era o verão a única estação” diz Ruy Belo num dos mais tristes versos da literatura portuguesa, um verso onde me poderia ver mas não vejo, nem me revejo, apesar de belo e Belo, duplamente belo, estando agora no verão estou no verso do verso a concluir que o verão volta sempre. Nem que seja para nos assombrar.

À sombra dos verões passados escrevo e regresso à Lisboa hoje quase deserta do feriado.

Uma vez sonhei que estava em Lisboa e toda a gente tinha desaparecido sem deixar rasto, mas tudo estava na mesma para alem da ausência das pessoas. Percorria as ruas e não se via vivalma. Do sonho não me lembro mais, mas se o traduzisse num filme começaria a encontrar aqui e ali as pessoas que eu não vi nunca mais, como o senhor Antunes da papelaria a dizer que já tinha chegado o Tintim, o homem da carrinha dos gelados a chegar à esquina e a tocar a campainha ou o pai a dizer para nos despacharmos para apanhar o 2 para a matiné do Tivoli.

A praceta em frente à casa está agora coberta por um tapete roxo monet de folhas de jacarandá.

Termino como um pássaro que volta a pousar no fio do telefone. Like a bird on a wire/ like a drunk in a midnight choir/ I have tried in my way to be free ( Leonard Cohen).

Depois, pegarei no telemóvel e ligarei a um amigo para lhe perguntar o que é que ele tem andado a ler.

 

Crónica publicada no Económico no dia 5 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 15:45 | link do post

2 comentários:
De Pedro a 8 de Junho de 2010 às 10:39
Bom dia,

Este blog está em destaque nos Blogs do SAPO, em http://blogs.sapo.pt

Boa continuação!

Pedro


De canalsonora a 8 de Junho de 2010 às 23:19
não tinha reparado que o blog estava em destaque....
foi uma coincidência....como...
também guardo numa estante esse belo livro de JMFJ, tão bem por si descrito. se a poesia é como números este livro já leva o número 2, pelo menos.
também guardo essa paixão pelo verão...
também sonho com o deambular por cidades desertas.
continue a surpreender-nos com estes seus posts.
obrigado


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