Segunda-feira, 14 de Junho de 2010

O que é que nos faz mover, correr?, pergunto-me, de vez em quando, numa pausa no meio da movida, da correria e debato-me com as respostas da praxe: o sexo, o poder, o dinheiro, a curiosidade, o medo ( da morte e tal), a fé... Já disse o sexo? ... Os Beatles diziam que tudo o que faziam era para ter muitas namoradas. E tiveram, pelo menos antes de Yoko-Onarem. Mas o sexo não é tudo. Sobretudo quando se tem (quando se vem?). Depois há as derivações, substituições e perversões, em suma, o ser humano. Freud explica e complica. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia ele, a ver se se enganava. O sexo já não é o que era (felizmente). A Internet está a mudar tudo. E a tecnologia. Dos encontros ( dating ) à consumação ( splash!?), radicalizou-se a ideia que conhecer uma pessoa é encontrarmo-nos com uma ideia – uma ficção que fazemos dela, e desejar uma pessoa é fazer coincidir essa pessoa com a projecção do nosso desejo. Ou seja, tudo o que nos faz perder a cabeça se passa na nossa cabeça. A consumação física dessa coisa mental é o contacto do nosso corpo com outro corpo, mas pode vir a ser cada vez mais o contacto do nosso corpo com a simulação de outro corpo. É aqui que o futuro se torna sedutor: o que acontecerá à sedução, ao namoro, à paixão, ao amor nos tempos de cibersexo, hiper-representação e ironia? Mas como dizia o outro ( Stig Dagerman), “ A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”, ou o que nós somos capazes de fazer só para que gostem de nós. No meu habitat de trabalho isso é tão evidente. A infância explica tudo. Como o mundo seria diferente se certas pessoas tivessem tido um pouco mais de atenção na infância. Agora vingam-se actuando para grandes plateias, ou, se tal não for possível, para pequenas, normalmente um sacrificado grupo de incautos circunstantes. A quantidade de problemas da arte, do showbizz, da politica, que se resolveriam tão simplesmente com um pouco de mimo e colo. Ou, vá lá, de sexo. Tanta declaração de princípios, opinião, teoria, polémica, indignação, honra ofendida, problema insanável que se resolveria com uma boa queca ou, vá lá, um gosto muito de ti, és o maior, mentido com jeito e convicção. As pessoas e os seus actos, tal como as personagens dos romances, têm o seu subtexto. Por detrás de uma acção ou de um traço de carácter é possível sempre descortinar uma explicação, uma lógica quase sempre mais elementar do que gostaríamos de admitir. As múltiplas variáveis humanas tem no seu dna meia-dúzia-se-tanto de Basic Plots, para ser completamente rigoroso. Como no livro de Pio de Abreu, “Como tornar-se Doente Mental”, só temos de identificar a patologia em causa ou em potência e agir em conformidade, prevenindo ou remediando. ( No meu caso um mix maníaco-depressivo / obsessivo compulsivo com nuances de narcisismo, tudo agravado por uma irremediável infância feliz). Acaba por ser divertido ler as pessoas para lá das aparências, sobretudo quando temos a informação contextual para o fazer. Perceber que o tipo que trabalhava connosco e que dizia que éramos os maiores e agora nos insulta em público, ao expressar o seu ressentimento, tem falta de mimo e colo e, agora como antes, precisa afinal é que nós lhe digamos que ele é o maior que por aqui já passou e há-de passar; que o critico que repetidamente nos critica na sua ignorada tribuna que é a sua razão de existir, ao verberar a sua verborreia, tem falta basicamente de vida e precisa que lhe digam que é muito importante e sem ele não haveria ninguém para denunciar como as coisas realmente são; em resumo, que nós próprios, ou pelo menos eu, quando começamos, começo, a perder tempo com pessoas como eles e a escrever um parágrafo que seja sobre o assunto é porque estamos, estou, a precisar de qualquer coisa. Provavelmente, arrisco, de mimo e colo. Ou então, somente de me dedicar a coisas mais interessantes. Como o que faz mover as pessoas.

 

Crónica publicada no Económico no dia 12 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 12:00 | link do post

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