Terça-feira, 22 de Junho de 2010

É impressionante a quantidade de vezes que opinamos e decidimos sobre coisas das quais não percebemos nada. Também é impressionante a quantidade de vezes que somos decididos e orientados nas nossas opiniões por pessoas que percebem tanto como nós. Na politica, e não me refiro só às eleições mas, desde logo, às opiniões e escolhas dos lados dos contraditórios em que queremos estar, a verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, optamos por intuição e simpatia, por influência, por embirração, por preconceito, por fanatismo, por acaso. Seja em relação a que tema for, há muito mais adesão emocional do que conhecimento de causa. A hipermediatização da discussão pública, com a transformação dos comentários e dos debates em soundbytes e espectáculo, tem amplificado e consolidado este modelo. Não é necessariamente mau que tomemos decisões por instinto ou inteligência emocional. Para lá das ideias e das políticas há os representantes e líderes partidários, ou seja, as pessoas e o seu carácter. E muitas vezes a melhor maneira de avaliar um projecto político é avaliar a personalidade e a capacidade do seu líder, e a melhor forma de o fazer é quase sempre confiar na “impressão” que temos dele e seguir o nosso instinto. Como nos textos dramáticos, a narrativa e a qualidade do texto são indispensáveis, mas o intérprete é que é o determinante. É uma evidência e tem sido muitas vezes repetida: há uma gritante falta de líderes na cena política nacional e internacional. Perante a crise cada vez mais aguda, e grave, passe a contradição sonora, não são só os modelos de gestão política que precisam de ter novas soluções. É o próprio modelo de líder que precisa de encontrar uma geração de novos intérpretes. Como parece que a América encontrou em Obama. Joseph Nye Jr., ex-reitor da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, e autor de livros como o recente “Liderança e Poder” (edição Gradiva), defende precisamente essa ideia de que a liderança está a mudar e que, no novo contexto de informação global, o esquema de poder hierárquico que vinha da era industrial tornou-se inadequado e ineficaz. Numa entrevista à revista Visão, Nye Jr. dizia “Dantes, o líder era o rei da montanha, que dava ordens cá para baixo. Agora os líderes eficientes estão no centro de um círculo e atraem os outros para os seguirem”. Refere ainda que para além de ter que ser um bom comunicador e de ter inteligência emocional para seduzir, os novos líderes vão precisar de ter aquilo a que ele chama de inteligência contextual, ou seja, “a capacidade de adaptar as estratégias a diferentes contextos”, e realçava: “a inteligência contextual é a maior qualidade para um líder do século XXI”. É este novo modelo de líder que tem de surgir na direcção das empresas e nas direcções políticas, no território de permanente mudança de contextos que é a crise mundial actual. Duas salvaguardas óbvias: o Estado não é uma empresa e não pode ser gerido como uma empresa; adaptar estratégias a diferentes contextos não quer dizer adaptar princípios ( não se aplica a célebre e tão praticada máxima : “Os meus princípios são estes. Mas se for preciso mudam-se”). Uma verdadeira liderança não se impõe nem pela força da instituição que dirige, nem pelo cargo, nem pela força coerciva, nem pelo dinheiro. Uma liderança impõe-se por si, isto é, pela autoridade que em si se reconheça. E não se apresenta num modelo hierárquico, mas antes numa lógica de visão de futuro e inspiração. Mas não há possibilidade para estes novos líderes aparecerem se não houver mudança na forma de os avaliarmos. Não são só os líderes que precisam de ser contextualmente inteligentes, cada um de nós deve obrigar-se a uma procura de informação e reflexão que nos faça decidir com mais conhecimento de causa. Ou seja, tentar perceber melhor o que está realmente em jogo. Que é muito. O meu ponto de vista de indivíduo ignorante das grandes questões de macro-política , diz-me que, mais do que nunca, precisamos de defender o “Estado social” dos predadores financeiros e dos teóricos do liberalismo selvagem. E diz-me que para esse modelo ser viável vamos precisar, por um lado, de mais Europa , e por outro lado de mais política de proximidade, ou seja, de mais região e de mais politica da cidade (mas de menos caciquismo). E de mais família (mas não da fechada família católica). Não há ninguém que nos diga como é que isto se faz? E alguém que o comece a fazer?

 

Crónica publicada no Económico no dia 19 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:14 | link do post

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