Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Sou um cómico profissional involuntário. Nunca quis fazer da comédia, profissão. O que é cómico é que acabei por fundar a empresa de comédia mais conhecida em Portugal, agora que os Parodiantes de Lisboa já não estão no activo. E que o Governo de Santana Lopes cessou funções. Cá está, piada fácil.

Apesar de não ser humorista estou sempre a dar entrevistas sobre humor. As perguntas são sempre as mesmas: como é que se faz humor, quais os limites do humor, o que é o que o faz rir...

O Jorge Luís Borges, escritor muito sério, dizia que “o humor é um êxito de conversação”. O Raul Solnado, actor muito cómico, dizia que “fazer rir ou é fácil ou é impossível”.

O Dinis Machado escreveu um pequeno texto que me parece definitivo sobre o tema. Faz parte de um livro mal conhecido, “Reduto Quase Final”, que ele escreveu depois de “O Que Diz Molero” e que sempre ficou na sombra deste. Inclui um texto que se chama precisamente “Qual é o lado mais cómico disto?” e onde ele fala desse olhar muito particular sobre o mundo: “Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto? (...) Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. (...) e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro”...

Quando o Dinis morreu e os amigos se reuniram no funeral para celebrar a sua vida foi este o texto que escolhi para ler nesse momento de grande tristeza.

Os psiquiatras dizem que o humor é “o triunfo maníaco sobre a depressão”. Pode ser que sim, pode ser que não, digo só por pura rima e espírito de contradição.

Pela circunstância da minha profissão, convivo com muitos cómicos, melhores e piores, melhores e piores pessoas. Mesmo nos momentos complicados, nas zangas e ego-batalhas, em que se bate com os brinquedos nas cabeças uns dos outros, nos momentos em que usamos o armamento pesado, não há nada mais desarmante do que um momento de humor.

Lembro-me que a Amália contava a história de como esteve quase a suicidar-se num hotel numa digressão e abandonou essa ideia quando viu o Fred Astaire a dançar na televisão. Aos cómicos, dançarinos do sentido das coisas, perdoo-lhes tudo no momento em que eles me fazem rir. Fazer rir uma pessoa é como dar um momento de felicidade instantânea, mesmo que passe logo,  já ninguém nos tira. Nunca agradecerei o suficiente a quem me faz rir.

E o que me faz rir é sempre o que não estou à espera. Gosto muito quando o figurante em quem ninguém apostava nada rouba, com um pormenor mínimo, a cena ao protagonista. Uma vez gravámos um sketch com um actor e uma criança. A criança só tinha de ficar sentada e não dizer nada. O actor tinha as piadas todas. O que aconteceu foi que, a meio do sketch, o miúdo decidiu inexplicavelmente abanar a cabeça e revirar os olhos, sem razão aparente, como se estivesse a dançar um ritmo íntimo ao ouvir uma música nuns phones que não tinha. O resultado foi absolutamente hilariante e não me canso de ver a cena só para ver a cara do miúdo.

Não gosto que me digam que me vão contar uma anedota, desde logo porque é como anunciarem que me vão fazer rir. Mas a minha anedota favorita é a do coxo que queria muito entrar na peça da aldeia. Depois de muita insistência, concordaram que ele entraria e apresentaria  a peça dizendo “Senhoras e senhores: O Melro”. Entusiasmado, o coxo foi para casa ensaiar: “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”... No dia da estreia, com a sala cheia, toda a aldeia em peso a ver, ouvem-se as pancadas de Moliere e o coxo entra em cena e prepara-se para a sua deixa, quando é interrompido por um tipo da assistência que diz “Olha o coxo!”, indignado, o coxo responde: “O coxo, o melro!, senhoras e senhores: O Caralho.”

Adoro estas personagens loosers, pelas quais tenho um carinho cruel, os tipos que têm uma única oportunidade na vida e desperdiçam-na.

E sempre que entro em cena como cómico profissional sinto-me coxo.

 

Crónica publicada no Económico no dia 26 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 11:12 | link do post

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