Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Esta foi uma semana em que foi possível vermos na realidade e em antevisão, concentradas, as questões, tensões e linhas de força do futuro próximo de Portugal. (E não só: querem melhor metáfora da incapacidade de um governo para controlar a rédea solta das corporações do que a impotência do governo americano para estancar a muito real mancha negra da BP no Golfo do México?). No conto “O Aleph” Jorge Luís Borges descrevia a visão desse fenómeno que dá título ao conto como um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo. Esta última semana foi uma espécie de Aleph temporal para Portugal. Desde logo, a questão espanhola, duplamente, primeiro na versão patrótica-folclórica do futebol, depois na versão “É a economia, estúpido” em duelo David contra Golias, sem que se vislumbre como é que a PT vai dar a fisgada na Telefónica, fisgadas que estão ambas pelo Brasil. Depois, as SCUTs, assim chamadas, nunca é demais lembrar, por abreviarem a expressão Sem Custos Para o Utilizador, que afinal passariam a ter custos para o utilizador, e que no fim vão acabar quase todas por não ter ou ter só para alguns. Todo um case study sobre a governação em Portugal. Aumentam os impostos, pedem-se sacrifícios e, como de costume, é a frágil classe média quem mais vai sofrer. Em entrevista ao Expresso, João Talone dizia que estamos a voltar ao que sempre fomos: “um país de pobres com ricos”. Anunciam-se cortes na área da cultura. Nada de novo. A novidade é serem retroactivos sobre projectos já em curso. Indignação, contestação fundamentada nos direitos adquiridos e recuo. Fica só a versão de cortes para o futuro. A classe artística protesta. Com razão. O primeiro ministro tinha feito um mea culpa no desinvestimento cultural que tinha sido praticado no seu primeiro governo. O Presidente tinha feito um discurso a incentivar as indústrias criativas. Que vergonha, rapazes! Como sempre, os que protestam mais e têm mais destaque nos jornais habituais são os do cinema. A arte que em Portugal está mais subdesenvolvida. O sector onde há maior reivindicação e pretensão, e menos talento e criatividade. Os escritores, onde é possível encontrar mais exemplos de qualidade, praticamente não são subsidiados. No teatro, os maiores subsídios há anos que vão para para as mesmas (apesar de tudo excelentes e meritórias) companhias independentes surgidas logo após o 25 de Abril. Mas é talvez a dança o sector onde mais se fez com o pouco dinheiro que o Estado deu. Foi na dança que, nos últimos anos, surgiram os projectos e incubadoras mais interessantes da rede artística nacional. As artes plásticas sempre se articularam bem com as empresas. O design, por definição, também. A música pop teve um boom independente de todos os apoios por ser a arte mais popular entre os jovens, e a mais adaptada à revolução da internet. O cinema, tal como a ficção televisiva, praticamente não existe. Sufocado por um sistema de financiamento de peditório e pela ausência de talentos mobilizadores. Os cineastas portugueses, salvo raras honrosas excepções, são como o Cristiano Ronaldo mas sem o talento para a bola. São os capitães do discurso cultural que apontam a culpa dos maus resultados aos Carlos Queiroz do momento. Num futuro próximo, dominado pelas grandes empresas multinacionais e por um capitalismo enredado em abstractas operações financeiras cada vez mais incontroláveis, é fundamental redefinir o papel dos Estados. E com ele o papel dos blocos de que eles fazem parte. Como Portugal e a Europa. A questão da golden share é exemplar da relação do Estado com as empresas estratégicas. Não me parece que a golden share seja a fórmula certa. O que me parece errado é o Estado abandonar áreas de decisivo interesse público à natural ganância capitalista privada. Julgo ser essencial que o Estado - dirigido por um governo que eu posso eleger, contestar e demitir - detenha empresas que têm um papel estratégico na defesa e definição de um país. Não há nada mais estruturante para uma identidade do que a cultura. E no centro da cultura, a Língua. Uma grande empresa de telecomunicações, tal como uma grande empresa de produção, divulgação e promoção de conteúdos multimédia (por exemplo, a RTP) é um activo inalienável. Sobretudo quando aposta na mais certa das estratégias: a nossa ligação ao Brasil. O problema não é perder com a Espanha. É não ganhar o Brasil.

 

Crónica publicada no Económico no dia 3 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 09:42 | link do post | comentar

1 comentário:
De procurar a 10 de Julho de 2010 às 20:50
Concordo plenamente...deviamos apostar mais no Brasil, para alem de falarem portugues, é um mercado em claro crescimento.


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