Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

Adoro televisão. Desde que me lembro de mim que me lembro das noites da minha infância na sala da casa dos meus pais, em frente a um televisor com ecrã minúsculo encastrado num pequeno móvel com porta de mini-bar. Ainda hoje o conservo em minha casa, como uma relíquia, a caixa realmente mágica de onde saíam a preto e branco os desenhos animados, as séries, os filmes, os festivais da canção, a chegada do Homem à lua, o 25 de Abril... Estávamos no fim dos anos 60-início dos anos 70 e havia um único canal, a RTP única e tutelada pelo velho Estado Novo. Mas foi nela que eu vi pela primeira, e muitas vezes única vez coisas que nunca mais saíram da memória da minha imaginação e que me inspiraram e me fizeram ser o que sou hoje. O televisor era a lareira à frente da qual a família se reunia e unia na partilha das histórias que dele emanavam. Nessa altura a emissão era só à noite e terminava com o hino nacional, por volta da meia-noite. Só mais tarde começaram as emissões à hora de almoço, mas nunca como nessa altura vi tanta televisão e com tanto fervor. Com o tempo fui vendo menos televisão, naturalmente dispersando-me por outras formas de cultura e entretenimento. Quando comecei a trabalhar no meio televisivo não passei a ver mais televisão, passei a vê-la de outra maneira. Retenho sempre uma frase que julgo ser do Nicolau Breyner, quando lhe perguntaram se tinha visto um programa em que tinha entrado ele respondeu: “Para fazer é um preço, para ver é mais caro”. É costume assinalar a contradição de em Portugal termos passado a ter mais canais mas termos passado a ter menos diversidade na oferta, visto que os canais começaram a competir repetindo o mesmo tipo de formato televisivo. Julgo que isso é verdade só até a um certo ponto. Há uma monocultura comum aos privados generalistas mas com o surgimento do satélite, do cabo e das IP TV, a oferta diversificou-se completamente. A ideia de que a televisão é “pastilha elástica para os olhos” faz cada vez menos sentido. Hoje quando me sento a ver televisão o que eu gosto realmente de fazer é zapping. E se o zapping pode ser, mais do que uma actividade, uma inactividade relaxante, ele pode ser também um extraordinário e estimulante exercício de imersão na cultura popular contemporânea. Uma coisa é ver um filme ou um documentário específico, podemos fazê-lo de múltiplas maneiras: seguindo-o na emissão do fluxo televisivo, gravado, on demand, num DVD, etc. Outra coisa é ver televisão. E ver televisão é fazer zapping. É misturar. É passar para universos totalmente diferentes com um clique. É passar do lixo ao luxo e vice-versa. E ver com igual acesso e possível curiosidade espectáculos degradantes e momentos sublimes. Esta experiência está prestes a sofrer uma nova transformação, que acelerará de forma radical este modo zapping de ver. A Google, em parceria com a Sony, a Intel e a Logitech, está a lançar a Google TV, ou seja, como se esperava, finalmente num único aparelho, o cruzamento da televisão com a net, no ecrã da sala. Sintetizando, é juntar no mesmo botão de comando, a possibilidade de zapping e de linking. Vamos não só poder ver os canais disponíveis como todos os conteúdos autónomos, inteiros ou em snack. Passaremos a ter o Youtube e o Facebook, e o que vier de novo na net. A tudo isso continuaremos a chamar televisão. Os serões familiares, ou de amigos, ganharão uma dimensão incomparavelmente mais aberta nas suas possibilidades. O acto de navegar na net, até aqui uma actividade predominantemente individual, passa a poder ser partilhado não unicamente à distância, como já acontece, mas em presença, no espaço físico, por exemplo, das salas de estar familiares. Com o mesmo entusiasmo com que antes eu e as outras crianças da minha geração olhávamos para a velha RTP a preto e branco, inamovível e inzapável, vamos todos agora poder ver nas nossas salas de estar praticamente tudo o que quisermos. De todo o mundo. E poder zappar e clicar não só ao sabor do acaso ou da preguiça mas igualmente por associação e procura deliberadas. Vai ser uma nova idade de ouro para a televisão.

 

Crónica publicada no Económico no dia 10 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:50 | link do post

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