Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

As coisas que só acontecem uma vez podem durar toda a vida. O que é fascinante é sabermos que nunca poderemos saber, de todas as coisas que só nos acontecem uma vez, as que vamos reter para sempre. Podemos esquecer o dia em que encontrámos a pessoa mais importante da nossa vida adulta e, no entanto, lembrarmo-nos de um dia anónimo em que com essa pessoa não fizemos nada de especial.

"A vida é a arte do encontro" dizia, cantando, Vinicius de Moraes, acrescentando "embora haja tanto desencontro nessa vida". A vida não é devidamente valorizada como arte do encontro. Investimos muito de nós e do nosso tempo em coisas completamente estúpidas que não nos são decisivas ou sequer inspiradoras. E não perdemos tempo para nos dedicarmos à arte de nos encontrarmos com os outros.

Em 1989 escrevi, a meias com o Luís Miguel Viterbo, um livrinho, na verdade um pequeno ensaio/manifesto, que a &etc editou, sobre, precisamente, essa arte dos relacionamentos a que demos o nome de "A Elaboração dos Acasos".

O acaso é o acaso do encontro. Ou, se acreditarmos que o acaso é, como dizia Paul Valery ,"a inteligência secreta do destino", voilà,  o destino. Destino não quer dizer que tudo já esteja escrito mas sim que a nossa vida se escreve, como um romance. E partindo do princípio que somos ficção, o nosso encontro com as personagens que podem valer a pena na nossa vida "é uma disciplina artística a apurar dia a dia; é um exercício de depuração e elaboração, um exercício de estilo. Um jogo de distâncias (...) Uma ficção, irremediavelmente verdadeira e real".

E não é só nas relações mais pessoais que deveríamos elaborar a arte do encontro. Naquilo que as relações profissionais têm de pessoais, no tempo que passamos uns com os outros quando trabalhamos juntos, por vezes mais tempo do que com aqueles que escolhemos passar o nosso tempo, deveríamos investir a nossa sensibilidade e criatividade, para tirar dele, tempo, e delas, pessoas, o melhor.

No meio do meu trabalho, que tem sido essencialmente nos últimos 30 anos um trabalho criativo com equipas efémeras, não me canso de dizer que o facto de estarmos juntos naquela circunstância, aquele conjunto de pessoas, poderá não se repetir. E que, portanto, o que quer que aquele grupo tenha para dar em conjunto que possa ser mais do que a soma das partes, tem que acontecer nesse agora.

Para mim cada trabalho novo: uma série de televisão, um livro a meias, uma peça de teatro, um filme... é como um grupo de músicos jazz que se encontra para tocar junto, numa dada circunstância que não se repetirá. É preciso procurar o máximo, a melhor música e a melhor contracena, que esse grupo de pessoas seja capaz de dar.

Isto soa como uma verdade luminosa na pele dos performers, músicos, dançarinos, actores, mas acaba por ser sempre verdade, alargado aos performers do fundo do conteúdo que são os inventores de ideias, os escritores quando abrem o seu trabalho à actuação de outros.

A beleza do trabalho colectivo não está unicamente no resultado múltiplo, variado e complexo, ela pode estar nas memórias que esse trabalho deixa nas nossas vidas individuais, como espectadores também, mas sobretudo como parte desses colectivos.

Aconteceu-me participar em inúmeros trabalhos colectivos, de diversas maneiras, como escritor, autor da ideia, coordenador, actor, director de actores, participante, figurante, director, etc. Recordo aqui um que está longe de ser, no seu resultado final, uma das melhores coisas que fiz. Mas foi um dos que mais gratas memórias me deixou, a mim e a várias pessoas que nele participaram como intervenientes ou visitantes (e não será isto o resultado final?). Foram os "Nocturnos", há quase 20 anos,  músicos, actores e bailarinos pelo Jardim Botânico, quadros vivos de uma exposição musical e poética que as pessoas seguiam guiadas por lanternas, nas noites quentes de Verão. Não tínhamos dinheiro para a produção e houve mil e um problemas técnicos. Mas aquele nocturno e quase secreto jardim  no coração de Lisboa foi nesse  momento um lugar de encontros.

 

Crónica publicada no Económico no dia 17 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 11:00 | link do post

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