Terça-feira, 27 de Julho de 2010

“Boa noite, este é o canal de notícias fáceis (...) Trazemos-lhe todas as notícias que são fáceis de arranjar (...) Pessoas noutros países querem matar-nos. O resto do artigo está cheio de nomes que não consigo pronunciar (...) Assim, a segunda peça: um debate entre dois brancos de meia idade que também não sabem por que razão pessoas nos querem matar. (Homem 1: Eles odeiam-nos porque nós somos tão espectaculares. Homem 2: Comprem o meu livro ou morrerão todos). A seguir no canal das notícias falsas, os nossos comentadores discutirão sobre varas tortas que ficam encravadas em chaminés. Excelente.” Escolhi esta (longuíssima) citação, no fundo uma transcrição, de uma tira de banda desenhada do Dilbert de Scott Adams, porque ela resume de forma perfeita o que sinto em dias como os de hoje, quando vejo o pais na televisão (ou o pais da televisão). Tudo parece normal mas é como se eu procurasse outro ângulo de visão do televisor a partir do sofá da sala e, tal como nos filmes de ficção científica, as personagens reais daquele ângulo se transformassem nos cromos Dilbertianos. As comparações, metáforas ou analogias são figuras que nos fazem perceber o sentido das coisas com uma força e uma intensidade que a linguagem mais literal e não figurada não tem. Uma boa história ou uma frase inspirada iluminam uma situação com uma luz que acrescenta verdade à constatação dos factos. Gosto de recortar e coleccionar frases ou cartoons e tiras de banda desenhada. São como versos de poemas que cito não pela sua beleza ou profundidade, antes pela sua graça e demolidora desmontagem da convenção. Há um desenho de um dos meus cartoonistas favoritos, Gary Larson, que de uma forma sintética é um tratado sobre as relações no local de trabalho: num escritório dois tipos frente a frente em duas secretárias absolutamente iguais. Um diz para o outro: “Um dia esse lugar há-de ser meu”. Ou sobre o mundo dos blogues e da opinião, aquele cartoon publicado na New Yorker, assinado por Gregory, em que um cão diz para o outro: “Eu tive o meu próprio blogue por um tempo mas agora decidi voltar só a ladrar incessantemente e sem sentido”. Por vezes é a própria realidade que nos surge em versão já metafórica e cartoonada, como era o caso do inesquecível ministro da propaganda iraniana que repetia a frase “I now inform you you’re too far from reality”. É claro que é sempre uma questão de gosto e de idiossincrasia. Cada um de nós colecciona os cromos de que gosta mais, e sobre gosto pessoal, por exemplo, uma das minhas citações favoritas é a do critico de televisão que, sobre os comediantes populares Abott e Costello dizia: “essa parelha de comediantes que não faz rir ninguém. A não ser o público”. Ou, ainda sobre os críticos, o genial Oscar Wilde que no “The critic as artist” dizia: “Ah, não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo tenho sempre a impressão que estou errado”. Um dos melhores fraseadores vivos – e certamente, quando morrer, um dos maiores fraseadores mortos – é, claro, Woody Allen. Uma das suas mais citadas frases é, parafraseio, aquela em que ele diz que não percebe porque se critica a masturbação, afinal é fazer sexo com a pessoa de quem mais gostamos na vida. O mestre reconhecido e louvado por Allen era Groucho Marx. No filme “Annie Hall”, Woody Allen utiliza um frase de Marx como uma metáfora para o seu problema nas relações amorosas: “Nunca pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”. Há uma frase de Groucho Marx de que eu me lembro sempre quando convivo com determinadas personagens do nosso mundo televisivo: “Já chega de falar de mim, vamos falar de ti. O que é que pensas de mim?”.



Nuno Artur Silva às 09:38 | link do post

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