Domingo, 1 de Agosto de 2010

As ideias, as histórias, as pessoas, as relações entre as pessoas. A Língua Portuguesa, Portugal e o Brasil. A televisão, o cinema, os livros. A poesia. A politica. As cidades. O futuro. O presente. O que passa. E o que fica do que passa.

Em quase dois anos de crónicas estes têm sido os meus temas, as minhas tags. Hoje despeço-me como um músico que termina uma digressão com um medley. Boa noite Lisboa!

 

“O grande lance é fazer romance”

 

Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos.

Quando falamos de cidades falamos de habitação, trânsito, ordenamento do território, etc, e pensamos em realidades físicas. Mas, mais que uma realidade física, uma cidade é uma realidade mental. Como o amor, “una cosa mentale”. Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias.  Romances.

Passear ou vaguear numa cidade é vaguear pelas histórias que fazem a História dessa cidade. Quanto mais histórias mais mítica é a cidade. Quanto mais mítica, mais real é.

 

Estamos sempre perdidos na tradução do mundo em que vivíamos para o mundo onde estamos sempre a começar a viver. O que nos pode salvar é - agora como sempre - a ficção.

 

A produção de ficção na televisão portuguesa, no conjunto dos seus canais generalistas e de cabo é, com honrosas excepções, um deserto de ideias e de formas, um lugar onde não há espaço para se desenvolverem narrativas para além das monocórdicas telenovelas.

É um extraordinário desperdício de recursos e talento, geração após geração, num meio, a televisão, que devia ser o palco privilegiado para a existência de uma cultura narrativa forte e diversificada. Agora que a televisão se reinventa no contexto da internet e da multiplicação de écrãs, é tempo de mudar os modelos organizacionais dominantes, que têm contribuído para esta situação de estagnação, e investir a sério, com estratégia e de forma planificada, na criatividade. Só a criação de ficções originais pode originar um verdadeiro património audiovisual nacional.

 

Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.

Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.

A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.

 

Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto,  a terceira ponte e o TGV. A RTP é mais importante que o TGV

 

“Primeiro encontramos, depois procuramos” dizia Picasso, pintor espanhol e do mundo. Nós, portugueses, primeiro encontrámos o Brasil. Falta agora, mais de quinhentos anos depois, procurá-lo.

E a terra nova que achávamos era, para além da terra real, a nova Língua Portuguesa, pátria que Pessoa haveria de proclamar séculos depois. E Caetano de cantar, roçando a sua língua na língua de Luís de Camões. E perguntando: “o que quer, o que pode esta língua?”, e respondendo “Livros, discos, vídeos à mancheia / E deixa que digam, que pensem, que falem”.

Só na poesia nos encontramos, no esplendor da Língua que é a Literatura, nossa única pátria. “Falta cumprir-se Portugal” dizia Pessoa na “Mensagem”. Esse Quinto Império mítico é o do sonho e da música da  Literatura em Língua Portuguesa, hoje disseminada por todo o mundo em “livros, discos, vídeos à mancheia”. O futuro de Portugal é a mistura, a mestiçagem e a vadiagem da língua portuguesa pelo mundo. O futuro de Portugal é o Brasil.

O acordo ortográfico é útil e inútil porque inevitável. Se não formos com o Brasil para o mundo ficaremos mirandeses e o nosso português ficará o mirandês do português.

Se há um desígnio para a CPLP é a criação de uma verdadeira comunidade cultural. A revolução da internet definindo um novo território imaterial traz consigo a oportunidade para a criação dessa comunidade.

É tempo de procurar  o Brasil. É tempo do Brasil nos descobrir.

 

Vivemos fascinados com o mundo de possibilidades à nossa frente, como jogadores viciados no tudo ou nada da roleta. Porque o que é fascinante é saber que tudo muda a cada instante, que um cisne negro quem sabe esvoaçará no lago, que a próxima esquina que virarmos pode-nos fazer encontrar o que já não procurávamos, que o acaso continua a jogar aos dados e a escrever o destino, que “o destino é a inteligência secreta do acaso”, como dizia René Char, que “o destino passa (...) como uma pluma caprichosa / passa pelos olhos de um gato”, como dizia Alexandre O’Neill.

Passo o tempo a imaginar o futuro mas a única coisa que conta, a única coisa que vai contar, é como é que nesse tempo vai ser o meu passado.

 

Termino agradecendo ao Económico o convite para a escrita destes quase dois anos de crónicas e,  pessoalmente, ao António Costa e à Isabel Lucas, pelo convite e pela atenção. Boas férias.

 

Crónica publicada no Económico no dia 31 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 12:43 | link do post

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