Terça-feira, 06.07.10

Esta foi uma semana em que foi possível vermos na realidade e em antevisão, concentradas, as questões, tensões e linhas de força do futuro próximo de Portugal. (E não só: querem melhor metáfora da incapacidade de um governo para controlar a rédea solta das corporações do que a impotência do governo americano para estancar a muito real mancha negra da BP no Golfo do México?). No conto “O Aleph” Jorge Luís Borges descrevia a visão desse fenómeno que dá título ao conto como um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo. Esta última semana foi uma espécie de Aleph temporal para Portugal. Desde logo, a questão espanhola, duplamente, primeiro na versão patrótica-folclórica do futebol, depois na versão “É a economia, estúpido” em duelo David contra Golias, sem que se vislumbre como é que a PT vai dar a fisgada na Telefónica, fisgadas que estão ambas pelo Brasil. Depois, as SCUTs, assim chamadas, nunca é demais lembrar, por abreviarem a expressão Sem Custos Para o Utilizador, que afinal passariam a ter custos para o utilizador, e que no fim vão acabar quase todas por não ter ou ter só para alguns. Todo um case study sobre a governação em Portugal. Aumentam os impostos, pedem-se sacrifícios e, como de costume, é a frágil classe média quem mais vai sofrer. Em entrevista ao Expresso, João Talone dizia que estamos a voltar ao que sempre fomos: “um país de pobres com ricos”. Anunciam-se cortes na área da cultura. Nada de novo. A novidade é serem retroactivos sobre projectos já em curso. Indignação, contestação fundamentada nos direitos adquiridos e recuo. Fica só a versão de cortes para o futuro. A classe artística protesta. Com razão. O primeiro ministro tinha feito um mea culpa no desinvestimento cultural que tinha sido praticado no seu primeiro governo. O Presidente tinha feito um discurso a incentivar as indústrias criativas. Que vergonha, rapazes! Como sempre, os que protestam mais e têm mais destaque nos jornais habituais são os do cinema. A arte que em Portugal está mais subdesenvolvida. O sector onde há maior reivindicação e pretensão, e menos talento e criatividade. Os escritores, onde é possível encontrar mais exemplos de qualidade, praticamente não são subsidiados. No teatro, os maiores subsídios há anos que vão para para as mesmas (apesar de tudo excelentes e meritórias) companhias independentes surgidas logo após o 25 de Abril. Mas é talvez a dança o sector onde mais se fez com o pouco dinheiro que o Estado deu. Foi na dança que, nos últimos anos, surgiram os projectos e incubadoras mais interessantes da rede artística nacional. As artes plásticas sempre se articularam bem com as empresas. O design, por definição, também. A música pop teve um boom independente de todos os apoios por ser a arte mais popular entre os jovens, e a mais adaptada à revolução da internet. O cinema, tal como a ficção televisiva, praticamente não existe. Sufocado por um sistema de financiamento de peditório e pela ausência de talentos mobilizadores. Os cineastas portugueses, salvo raras honrosas excepções, são como o Cristiano Ronaldo mas sem o talento para a bola. São os capitães do discurso cultural que apontam a culpa dos maus resultados aos Carlos Queiroz do momento. Num futuro próximo, dominado pelas grandes empresas multinacionais e por um capitalismo enredado em abstractas operações financeiras cada vez mais incontroláveis, é fundamental redefinir o papel dos Estados. E com ele o papel dos blocos de que eles fazem parte. Como Portugal e a Europa. A questão da golden share é exemplar da relação do Estado com as empresas estratégicas. Não me parece que a golden share seja a fórmula certa. O que me parece errado é o Estado abandonar áreas de decisivo interesse público à natural ganância capitalista privada. Julgo ser essencial que o Estado - dirigido por um governo que eu posso eleger, contestar e demitir - detenha empresas que têm um papel estratégico na defesa e definição de um país. Não há nada mais estruturante para uma identidade do que a cultura. E no centro da cultura, a Língua. Uma grande empresa de telecomunicações, tal como uma grande empresa de produção, divulgação e promoção de conteúdos multimédia (por exemplo, a RTP) é um activo inalienável. Sobretudo quando aposta na mais certa das estratégias: a nossa ligação ao Brasil. O problema não é perder com a Espanha. É não ganhar o Brasil.

 

Crónica publicada no Económico no dia 3 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 09:42 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 29.06.10

Sou um cómico profissional involuntário. Nunca quis fazer da comédia, profissão. O que é cómico é que acabei por fundar a empresa de comédia mais conhecida em Portugal, agora que os Parodiantes de Lisboa já não estão no activo. E que o Governo de Santana Lopes cessou funções. Cá está, piada fácil.

Apesar de não ser humorista estou sempre a dar entrevistas sobre humor. As perguntas são sempre as mesmas: como é que se faz humor, quais os limites do humor, o que é o que o faz rir...

O Jorge Luís Borges, escritor muito sério, dizia que “o humor é um êxito de conversação”. O Raul Solnado, actor muito cómico, dizia que “fazer rir ou é fácil ou é impossível”.

O Dinis Machado escreveu um pequeno texto que me parece definitivo sobre o tema. Faz parte de um livro mal conhecido, “Reduto Quase Final”, que ele escreveu depois de “O Que Diz Molero” e que sempre ficou na sombra deste. Inclui um texto que se chama precisamente “Qual é o lado mais cómico disto?” e onde ele fala desse olhar muito particular sobre o mundo: “Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto? (...) Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. (...) e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro”...

Quando o Dinis morreu e os amigos se reuniram no funeral para celebrar a sua vida foi este o texto que escolhi para ler nesse momento de grande tristeza.

Os psiquiatras dizem que o humor é “o triunfo maníaco sobre a depressão”. Pode ser que sim, pode ser que não, digo só por pura rima e espírito de contradição.

Pela circunstância da minha profissão, convivo com muitos cómicos, melhores e piores, melhores e piores pessoas. Mesmo nos momentos complicados, nas zangas e ego-batalhas, em que se bate com os brinquedos nas cabeças uns dos outros, nos momentos em que usamos o armamento pesado, não há nada mais desarmante do que um momento de humor.

Lembro-me que a Amália contava a história de como esteve quase a suicidar-se num hotel numa digressão e abandonou essa ideia quando viu o Fred Astaire a dançar na televisão. Aos cómicos, dançarinos do sentido das coisas, perdoo-lhes tudo no momento em que eles me fazem rir. Fazer rir uma pessoa é como dar um momento de felicidade instantânea, mesmo que passe logo,  já ninguém nos tira. Nunca agradecerei o suficiente a quem me faz rir.

E o que me faz rir é sempre o que não estou à espera. Gosto muito quando o figurante em quem ninguém apostava nada rouba, com um pormenor mínimo, a cena ao protagonista. Uma vez gravámos um sketch com um actor e uma criança. A criança só tinha de ficar sentada e não dizer nada. O actor tinha as piadas todas. O que aconteceu foi que, a meio do sketch, o miúdo decidiu inexplicavelmente abanar a cabeça e revirar os olhos, sem razão aparente, como se estivesse a dançar um ritmo íntimo ao ouvir uma música nuns phones que não tinha. O resultado foi absolutamente hilariante e não me canso de ver a cena só para ver a cara do miúdo.

Não gosto que me digam que me vão contar uma anedota, desde logo porque é como anunciarem que me vão fazer rir. Mas a minha anedota favorita é a do coxo que queria muito entrar na peça da aldeia. Depois de muita insistência, concordaram que ele entraria e apresentaria  a peça dizendo “Senhoras e senhores: O Melro”. Entusiasmado, o coxo foi para casa ensaiar: “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”... No dia da estreia, com a sala cheia, toda a aldeia em peso a ver, ouvem-se as pancadas de Moliere e o coxo entra em cena e prepara-se para a sua deixa, quando é interrompido por um tipo da assistência que diz “Olha o coxo!”, indignado, o coxo responde: “O coxo, o melro!, senhoras e senhores: O Caralho.”

Adoro estas personagens loosers, pelas quais tenho um carinho cruel, os tipos que têm uma única oportunidade na vida e desperdiçam-na.

E sempre que entro em cena como cómico profissional sinto-me coxo.

 

Crónica publicada no Económico no dia 26 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 11:12 | link do post | comentar

Quarta-feira, 23.06.10

Uma breve nota para sinalizar a edição em DVD do Voz. Já aqui escrevi sobre aquele que é um dos projectos que mais gostei de fazer e talvez aquele cujo resultado final mais superou as minhas expectativas. Depois de cinco anos de persistência, foi possível, com o patrocínio da Fundação EDP, a quem quero agradecer - e em particular ao Sérgio Figueiredo e ao José Manuel dos Santos - não só editar o DVD com os 75 clips dos poemas e o making of, mas igualmente fazê-lo no âmbito de uma iniciativa mais vasta que permite oferecer um DVD a todas as escolas secundárias do país e se fazer nessas escolas uma sessão de apresentação e recital com um dos actores do projecto. É o início de uma nova fase para um projecto que começou no programa da RTP em 2005 e que desta maneira não termina na edição do DVD.

Dos 75 clips, já publiquei aqui alguns. Acrescento estes três. O primeiro é um extracto d'A Pluma Caprichosa do Alexandre O'Neill, a quem o Rogério Samora oferece a sua extraordinária voz. O segundo é um poema do Manuel Alegre que, nesta versão, tem uma circunstância muito especial. O Zé Pedro Gomes tinha tido um aneurisma e como tal ficou em risco de perder a memória, o que felizmente não aconteceu. Este é o primeiro trabalho que ele fez depois do acidente. Pareceu-me que não haveria melhor poema para esse regresso do que este, que fala precisamente da memória. A gravação foi feita em casa do Zé Pedro e as fotografias são mesmo fotografias dele. Esta coincidência dá uma autenticidade a esta leitura que nunca deixa de me emocionar de cada vez que a vejo. Por fim, o terceiro poema, Outros Lugares de Jorge de Sena, lido pelo Diogo Infante. Neste caso estamos a pisar o risco. E o Diogo fala disso no documentário do Voz. É um poema sobre o desaparecimento, sobre a morte.  E a opção de o fazer num lar de terceira idade com figurantes reais, eles próprios nessa zona de fronteira que é o fim da vida, está no limite ético do que pode ser filmado. O resultado é, na minha opinião, absolutamente tocante.

A estes três magníficos actores, como a todos os outros que participaram no projecto, à extraordinária equipa de realização e de edição dos Até ao Fim do Mundo, o meu profundo e sincero agradecimento.

Da minha parte, dediquei este trabalho a três amigos infelizmente já desaparecidos: o poeta Al Berto, que lia brilhantemente os seus próprios textos, e com quem organizei muitos recitiais, o Hermínio Monteiro, editor e dinamizador de recitais e encontros, com quem fiz, para a RTP, com a Margarida Gil, uma primeira versão deste Voz, que se chamava Instantes, e por fim o Raul Solnado, que eu tive o prazer de conhecer já no fim da vida dele e que gravou o poema com que fecha o DVD do Voz: Liberdade, de Fernando Pessoa.

 

 




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Nuno Artur Silva às 16:33 | link do post

Terça-feira, 22.06.10

É impressionante a quantidade de vezes que opinamos e decidimos sobre coisas das quais não percebemos nada. Também é impressionante a quantidade de vezes que somos decididos e orientados nas nossas opiniões por pessoas que percebem tanto como nós. Na politica, e não me refiro só às eleições mas, desde logo, às opiniões e escolhas dos lados dos contraditórios em que queremos estar, a verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, optamos por intuição e simpatia, por influência, por embirração, por preconceito, por fanatismo, por acaso. Seja em relação a que tema for, há muito mais adesão emocional do que conhecimento de causa. A hipermediatização da discussão pública, com a transformação dos comentários e dos debates em soundbytes e espectáculo, tem amplificado e consolidado este modelo. Não é necessariamente mau que tomemos decisões por instinto ou inteligência emocional. Para lá das ideias e das políticas há os representantes e líderes partidários, ou seja, as pessoas e o seu carácter. E muitas vezes a melhor maneira de avaliar um projecto político é avaliar a personalidade e a capacidade do seu líder, e a melhor forma de o fazer é quase sempre confiar na “impressão” que temos dele e seguir o nosso instinto. Como nos textos dramáticos, a narrativa e a qualidade do texto são indispensáveis, mas o intérprete é que é o determinante. É uma evidência e tem sido muitas vezes repetida: há uma gritante falta de líderes na cena política nacional e internacional. Perante a crise cada vez mais aguda, e grave, passe a contradição sonora, não são só os modelos de gestão política que precisam de ter novas soluções. É o próprio modelo de líder que precisa de encontrar uma geração de novos intérpretes. Como parece que a América encontrou em Obama. Joseph Nye Jr., ex-reitor da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, e autor de livros como o recente “Liderança e Poder” (edição Gradiva), defende precisamente essa ideia de que a liderança está a mudar e que, no novo contexto de informação global, o esquema de poder hierárquico que vinha da era industrial tornou-se inadequado e ineficaz. Numa entrevista à revista Visão, Nye Jr. dizia “Dantes, o líder era o rei da montanha, que dava ordens cá para baixo. Agora os líderes eficientes estão no centro de um círculo e atraem os outros para os seguirem”. Refere ainda que para além de ter que ser um bom comunicador e de ter inteligência emocional para seduzir, os novos líderes vão precisar de ter aquilo a que ele chama de inteligência contextual, ou seja, “a capacidade de adaptar as estratégias a diferentes contextos”, e realçava: “a inteligência contextual é a maior qualidade para um líder do século XXI”. É este novo modelo de líder que tem de surgir na direcção das empresas e nas direcções políticas, no território de permanente mudança de contextos que é a crise mundial actual. Duas salvaguardas óbvias: o Estado não é uma empresa e não pode ser gerido como uma empresa; adaptar estratégias a diferentes contextos não quer dizer adaptar princípios ( não se aplica a célebre e tão praticada máxima : “Os meus princípios são estes. Mas se for preciso mudam-se”). Uma verdadeira liderança não se impõe nem pela força da instituição que dirige, nem pelo cargo, nem pela força coerciva, nem pelo dinheiro. Uma liderança impõe-se por si, isto é, pela autoridade que em si se reconheça. E não se apresenta num modelo hierárquico, mas antes numa lógica de visão de futuro e inspiração. Mas não há possibilidade para estes novos líderes aparecerem se não houver mudança na forma de os avaliarmos. Não são só os líderes que precisam de ser contextualmente inteligentes, cada um de nós deve obrigar-se a uma procura de informação e reflexão que nos faça decidir com mais conhecimento de causa. Ou seja, tentar perceber melhor o que está realmente em jogo. Que é muito. O meu ponto de vista de indivíduo ignorante das grandes questões de macro-política , diz-me que, mais do que nunca, precisamos de defender o “Estado social” dos predadores financeiros e dos teóricos do liberalismo selvagem. E diz-me que para esse modelo ser viável vamos precisar, por um lado, de mais Europa , e por outro lado de mais política de proximidade, ou seja, de mais região e de mais politica da cidade (mas de menos caciquismo). E de mais família (mas não da fechada família católica). Não há ninguém que nos diga como é que isto se faz? E alguém que o comece a fazer?

 

Crónica publicada no Económico no dia 19 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:14 | link do post

Segunda-feira, 14.06.10

O que é que nos faz mover, correr?, pergunto-me, de vez em quando, numa pausa no meio da movida, da correria e debato-me com as respostas da praxe: o sexo, o poder, o dinheiro, a curiosidade, o medo ( da morte e tal), a fé... Já disse o sexo? ... Os Beatles diziam que tudo o que faziam era para ter muitas namoradas. E tiveram, pelo menos antes de Yoko-Onarem. Mas o sexo não é tudo. Sobretudo quando se tem (quando se vem?). Depois há as derivações, substituições e perversões, em suma, o ser humano. Freud explica e complica. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia ele, a ver se se enganava. O sexo já não é o que era (felizmente). A Internet está a mudar tudo. E a tecnologia. Dos encontros ( dating ) à consumação ( splash!?), radicalizou-se a ideia que conhecer uma pessoa é encontrarmo-nos com uma ideia – uma ficção que fazemos dela, e desejar uma pessoa é fazer coincidir essa pessoa com a projecção do nosso desejo. Ou seja, tudo o que nos faz perder a cabeça se passa na nossa cabeça. A consumação física dessa coisa mental é o contacto do nosso corpo com outro corpo, mas pode vir a ser cada vez mais o contacto do nosso corpo com a simulação de outro corpo. É aqui que o futuro se torna sedutor: o que acontecerá à sedução, ao namoro, à paixão, ao amor nos tempos de cibersexo, hiper-representação e ironia? Mas como dizia o outro ( Stig Dagerman), “ A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”, ou o que nós somos capazes de fazer só para que gostem de nós. No meu habitat de trabalho isso é tão evidente. A infância explica tudo. Como o mundo seria diferente se certas pessoas tivessem tido um pouco mais de atenção na infância. Agora vingam-se actuando para grandes plateias, ou, se tal não for possível, para pequenas, normalmente um sacrificado grupo de incautos circunstantes. A quantidade de problemas da arte, do showbizz, da politica, que se resolveriam tão simplesmente com um pouco de mimo e colo. Ou, vá lá, de sexo. Tanta declaração de princípios, opinião, teoria, polémica, indignação, honra ofendida, problema insanável que se resolveria com uma boa queca ou, vá lá, um gosto muito de ti, és o maior, mentido com jeito e convicção. As pessoas e os seus actos, tal como as personagens dos romances, têm o seu subtexto. Por detrás de uma acção ou de um traço de carácter é possível sempre descortinar uma explicação, uma lógica quase sempre mais elementar do que gostaríamos de admitir. As múltiplas variáveis humanas tem no seu dna meia-dúzia-se-tanto de Basic Plots, para ser completamente rigoroso. Como no livro de Pio de Abreu, “Como tornar-se Doente Mental”, só temos de identificar a patologia em causa ou em potência e agir em conformidade, prevenindo ou remediando. ( No meu caso um mix maníaco-depressivo / obsessivo compulsivo com nuances de narcisismo, tudo agravado por uma irremediável infância feliz). Acaba por ser divertido ler as pessoas para lá das aparências, sobretudo quando temos a informação contextual para o fazer. Perceber que o tipo que trabalhava connosco e que dizia que éramos os maiores e agora nos insulta em público, ao expressar o seu ressentimento, tem falta de mimo e colo e, agora como antes, precisa afinal é que nós lhe digamos que ele é o maior que por aqui já passou e há-de passar; que o critico que repetidamente nos critica na sua ignorada tribuna que é a sua razão de existir, ao verberar a sua verborreia, tem falta basicamente de vida e precisa que lhe digam que é muito importante e sem ele não haveria ninguém para denunciar como as coisas realmente são; em resumo, que nós próprios, ou pelo menos eu, quando começamos, começo, a perder tempo com pessoas como eles e a escrever um parágrafo que seja sobre o assunto é porque estamos, estou, a precisar de qualquer coisa. Provavelmente, arrisco, de mimo e colo. Ou então, somente de me dedicar a coisas mais interessantes. Como o que faz mover as pessoas.

 

Crónica publicada no Económico no dia 12 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 12:00 | link do post

Segunda-feira, 07.06.10

Lisboa e Junho é um casamento perfeito. À beira do verão, a cidade está salpicada de jacarandás, penso como será vista do céu, mas do céu próximo, num voo de pássaro. Em francês à vol d’oiseau quer dizer passar sem nos determos, em linha recta, mas também por alto, podia ser um título para uma crónica.

“À beira do mar de Junho” é o título de um livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge, do início dos anos oitenta, gostava do livro pelos poemas, eram quase sempre muito curtos, a abrirem muitas leituras, mas gostava sobretudo do livro pelo livro em si, era uma edição da Na Regra do Jogo, com capa azul cartonada. No interior, logo nas primeiras páginas, tinha uma foto do mar visto de uma arriba com vegetação, que estava impressa e colada como um cromo. Gostei desse livro como se ele, objecto, fosse um poema e, como acontece com um poema, me inspirasse não tanto pelo que lá está escrito como pelo que eu leio nele. Agora que o livro está numa estante da casa como um poema numa antologia, não volto a ele para não perder a memoria que dele agora tenho.

Não sei explicar ao certo o prazer que encontro nessas evocações do verão ou da ideia do verão á beira mar, nunca sei explicar ao certo e vou errando numa deriva preguiçosa que me leva desse livro a outros livros de poemas litorais, como o Salsugem, do Al Berto ou tantos ao acaso da Sophia onde apetece ficar como num terraço branco debaixo de um alpendre florido sobre o mar.

Há um amigo meu que não gosta de poesia. Diz que ouvir poemas, para ele, é como ouvir números. “ Eu vi a luz em um pais perdido”: 33, 22, 7, 423. “E busque amor novas artes, novo engenho”: 93, 44, 2, 113.

Imagino-o, um dia, a ler, por acaso, um poema “É ferida que dói e não se sente”: 24, 13, 5, 1001, desinteressado e distraído, um texto que nem seja um poema, um texto donde lhe venha, inesperado e fulgurante, um verso que ele ganhe como quem ganha a lotaria, como o número de uma lotaria íntima, o segredo do cofre onde ele guarda a sua secreta poesia privada.

Dos poemas parte-se para a infância. Ao passar pela minha adolescência lembro-me dos verões à beira mar, acampado na praia com os amigos, trocando leituras e projectos. Nunca a inspiração dos livros foi tão vibrante e partilhada como nesse tempo em que tudo parecia estar por acontecer. Do Portinho da Arrábida à costa vicentina ou ao Algarve menos betonado ficou um rasto de criação de memorias comuns de pequenas aventuras de férias e de grandes aventuras sonhadas a partir dos livros que nos seduziam como as namoradas que sonhávamos ter.

“É triste no Outono concluir/ que era o verão a única estação” diz Ruy Belo num dos mais tristes versos da literatura portuguesa, um verso onde me poderia ver mas não vejo, nem me revejo, apesar de belo e Belo, duplamente belo, estando agora no verão estou no verso do verso a concluir que o verão volta sempre. Nem que seja para nos assombrar.

À sombra dos verões passados escrevo e regresso à Lisboa hoje quase deserta do feriado.

Uma vez sonhei que estava em Lisboa e toda a gente tinha desaparecido sem deixar rasto, mas tudo estava na mesma para alem da ausência das pessoas. Percorria as ruas e não se via vivalma. Do sonho não me lembro mais, mas se o traduzisse num filme começaria a encontrar aqui e ali as pessoas que eu não vi nunca mais, como o senhor Antunes da papelaria a dizer que já tinha chegado o Tintim, o homem da carrinha dos gelados a chegar à esquina e a tocar a campainha ou o pai a dizer para nos despacharmos para apanhar o 2 para a matiné do Tivoli.

A praceta em frente à casa está agora coberta por um tapete roxo monet de folhas de jacarandá.

Termino como um pássaro que volta a pousar no fio do telefone. Like a bird on a wire/ like a drunk in a midnight choir/ I have tried in my way to be free ( Leonard Cohen).

Depois, pegarei no telemóvel e ligarei a um amigo para lhe perguntar o que é que ele tem andado a ler.

 

Crónica publicada no Económico no dia 5 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 15:45 | link do post

Terça-feira, 01.06.10

A minha história favorita sobre as relações entre produtores e autores é a do argumentista de um filme de ficção científica que viu um argumento seu recusado pelo produtor com a justificação que dá título a esta crónica: “Um marciano nunca diria isso”. Este episódio e a sua punch line sintetizam de forma exemplar o choque de civilizações que é sempre a relação entre o criador e o produtor. Trabalhar em cinema, como em televisão, é trabalhar em equipa. E é sobretudo trabalhar numa cadeia de acontecimentos, desde a ideia inicial até à forma final, em que, muitas vezes, qualquer semelhança entre a ideia original e o resultado final é pura coincidência. Em Portugal isso tem sido por demais evidente, quer no cinema quer na televisão, pela simples razão que em ambos o autor inicial, isto é, o argumentista, não tem normalmente qualquer poder para fazer vingar as suas ideias. No caso do cinema esse poder em Portugal tem estado excessivamente concentrado no realizador, no caso da televisão esse poder tem estado concentrado no produtor e, ultimamente, no director da estação televisiva. Esta fragilidade dos argumentistas portugueses explica muito do insucesso da produção de filmes e séries em Portugal. Costuma dizer-se que o problema é não termos argumentistas. A verdadeira razão é não termos produtores. E por trás desta razão há outra que é a estagnação estrutural do audiovisual em Portugal. É sempre uma questão de poder, aquilo que se joga no processo de produção de um filme ou de uma série. Quem toma as decisões artísticas, quem decide se fica desta ou daquela maneira, quem tem o final cut. Em Portugal é muito normal não haver sequer direcção artística e o processo ficar numa deriva que deve mais à arbitrariedade, ao desleixo e à desresponsabilização do que a qualquer escolha fundamentada. Quando não é assim, normalmente é tudo afunilado numa única pessoa. Tradicionalmente o actor comediante nas séries de humor, o realizador autor nos filmes, a direcção de programas na televisão em geral. Nunca, praticamente nunca, no primeiro autor que é o argumentista, que em Portugal ainda hoje é considerado um tarefeiro, quase ao nível de um fornecedor de catering. Nos países onde há vitalidade e diversidade criativa na indústria audiovisual, o autor é não só poderoso como, em muitos casos, o elemento mais poderoso do projecto. Veja-se o período de ouro da televisão americana, que agora simbolicamente se encerra com o fim da série Lost. Um período em que os autores eram creditados como produtores da série porque eram eles quem decidia, do princípio ao fim, as grandes opções criativas da série. Da escolha de elenco ao final cut. Acima deles, só as estações produtoras, que podiam decidir cancelar ou continuar as séries, mas não interferiam de forma abusiva no conteúdo. O êxito desta fórmula pode ser comprovado se olharmos para os últimos dez anos de produção de séries americanas. A qualidade esteve sempre associada ao modelo de autor/produtor, sejam séries de humor ou séries dramáticas, mais juvenis ou mais adultas. Agora que a época de ouro parece ter terminado, por razões que têm a ver com a pulverização dos canais e a internet, e que fazem com que as grandes produtoras não arrisquem grandes produções, o papel dos autores, dos primeiros autores, dos argumentistas, deve ser mais valorizado do que nunca. Com o fim de Lost, a série mais cara de sempre, é a própria indústria que se encontra perdida, na imprevisível ilha dos media contemporâneos. Mas independentemente de toda a mutação das plataformas e dos écrãs, o essencial não mudou e não vai mudar: histórias. As pessoas vão continuar a querer seguir as boas histórias. Seja em que canal for, e seja de que maneira for, no momento em que são emitidas pela primeira vez ou quando quiserem. O que nós todos vamos continuar a querer é partilhar essas histórias com outros. E vamos continuar a querer pertencer a comunidades que vejam o mesmo que nós vemos. E vamos continuar a querer ver histórias que já conhecemos e gostamos. E vamos continuar a querer ver histórias novas. Num mundo cada vez mais invadido de conteúdos por todo o lado, há dois tipos de pessoas que vamos querer seguir: os inspirados contadores de histórias e os programadores que vão orientar-nos na forma de encontrarmos os contadores de histórias de que gostamos. Aqueles que nos contam o que os marcianos realmente dizem.

 

Crónica publicada no Económico, no dia 29 de Maio de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 25.05.10
Num dos últimos fins-de-semana passei pela Feira do Livro para uma sessão de autógrafos a dois com o António Jorge Gonçalves. Estava bom tempo e a feira estava cheia de gente, mas a sensação que ambos tivemos e comentámos foi a de que, num tempo em que se começam a comercializar os dispositivos electrónicos de leitura, este modelo de Feira do Livro de papel está esgotado. A feérica exibição comercial e industrial do livro enquanto objecto impresso massivamente e indiferenciadamente (seja literatura, livro técnico ou simplesmente versão livresca de qualquer sucesso televisivo) esconde com a sua incontinência editorial o fim de uma época na história da edição. O Jorge dizia que a multidão de pessoas com sacos cheios de livros lhe fazia lembrar o tempo em que não havia água canalizada e as pessoas iam às fontes com bilhas e garrafões. Hoje em dia os “livros” começam a chegar-nos electrónicos e canalizados e já não falta muito para que todos nós tenhamos, para além do telemóvel e do “computador” portátil, hoje absolutamente banais e essenciais à vida urbana contemporânea, um dispositivo de leitura electrónica portátil, na linha Kindle ou iPad ou o que for. Ironicamente, esta mudança não vai ser a morte do livro em papel, mas a sua salvação. Quando pudermos ler o que quisermos e quando quisermos no nosso leitor portátil, vamos poder perceber e escolher melhor, com melhor critério, aquilo que gostaríamos de ter em edição especial. Como já acontece com os CDs ou os DVDs, aquilo que faz sentido editar são colecções especiais, objectos de design em colecções limitadas e muitas vezes personalizadas pela assinatura dos autores. Os livros que escolhemos ter nas nossas estantes vão ser, literalmente, escolhidos a dedo como objectos de colecção e, tal como hoje acontece com os livros infantis, podem ter mil e um formatos e vir em caixas de diferentes formas e feitios. Talvez quando isso acontecer as feiras do livro se transformem novamente em sítios onde o contacto com os autores seja também transformado em momentos mais especiais, sítios com uma arquitectura que valorize mais os lugares de encontro dos escritores com os seus autores e os separe um pouco mais dos postos de venda, ou seja, cafés literários, aquilo em que, desejo e espero, acabarão por se transformar as livrarias. Por outro lado, os leitores electrónicos vêm permitir um novo género de escrita e de leitura, que ainda mal começou a ser explorado. Refiro-me não só à possibilidade do hipertexto, que permitirá, a partir de uma palavra, expressão, ou de uma citação, entrar – literalmente, noutro texto, como à possibilidade de cruzar com as palavras e as imagens dos livros tradicionais, outros registos, como o som e a música ou as imagens em movimento. Imaginem as possibilidades que se abrem ao podermos “escrever” um livro que nos faça passar de uma história para outra que foi citada, que nos permita ouvir a música que a personagem trauteia, que nos faça ver a cidade que ela percorre, etc. É claro que a literatura continuará a ser a literatura, como o cinema continuará a ser o cinema. Haverá mistura, mas o que muda não é tanto o género em si como o suporte e a maneira como ele chega a cada um de nós. O cinema, por exemplo, na maior parte das vezes, já nos chega por múltiplos ecrãs nas nossas casas ou nos dispositivos portáteis. Numa altura em que é o cinema que vem até nós, “ir ao cinema” vai ser uma de duas coisas: ou vamos ao cinema para namorarmos ou nos divertirmos em grupo, ou para fruirmos uma experiência estética que, curiosamente, aproxima o cinema do teatro: isto é, ou vamos como adolescentes para uma grande sala de cinema divertirmo-nos, ou vamos para um cinema de culto ou uma cinemateca ver um filme clássico ou de autor em película num grande écrã como quem vai ao teatro ter uma experiência que só acontece naquela noite. ( A propósito, já era tempo de haver uma sala que só programasse grandes clássicos do cinema). Tudo se resume a podermos escolher, mas escolher de forma personalizada, como na anedota das duas cabras que estão numa lixeira a comer os restos de uma película de cinema e uma comenta para a outra: “que tal, gostas?”, e a outra responde “gosto mas prefiro o livro”. Crónica publicada no Económico no dia 22 de Maio de 2010.

Nuno Artur Silva às 10:42 | link do post

Terça-feira, 18.05.10

Para ler uma entrevista feita por Maria João Freitas, com fotografia de David Cardeira Alves, clique aqui.


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Nuno Artur Silva às 12:15 | link do post

Sempre me pareceu que Deus está mais na palavra “acredito” do que na palavra “ Deus”, quando se diz “acredito em Deus”. Natália Correia deixou-nos um belíssimo pequeno texto “Exórdio”, incluído no livro “O Armistício”, onde diz: “Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles”. Fui educado no catolicismo mas depressa o abandonei. Imediatamente depois de ter feito a primeira comunhão, desliguei-me. A variante católica do cristianismo não só nunca me sensibilizou como, em muitos aspectos me ofendeu e ofende. Desde logo pela chocante contradição entre a pompa e ostentação do poder do Vaticano e o despojamento da mensagem cristã, mas sobretudo pela imposição do conceito de pecado e pela continuada repressão do corpo e das ideias - da liberdade, e em suma, pela sua primária e bafienta mitologia. Mas fico sempre fascinado pela necessidade que as pessoas têm de acreditar em qualquer coisa e pela forma como satisfazem essa necessidade celebrando essa fé em público e em colectivo. Aconteceu agora de novo em Portugal com a vinda do Papa, como acontece sempre com o fenómeno de Fátima ( Ou, de outra maneira não tão diferente quanto possa pensar-se, aconteceu no domingo passado, com a vitória do Benfica numa outra forma de celebração colectiva de uma fé, neste caso muito terrena, profana e prosaica, mas que suscita, como a outra, paixão libertação e alegria, e igualmente promove rituais de celebração colectiva). Não me identifico com nenhuma das grandes religiões, todas me parecem muito mais formas políticas de poder sobre os pessoas e os povos do que sistemas de relação com a transcendência, o divino ou a espiritualidade. O sentido etimológico da palavra religião, religare, é voltar a ligar, reencontrar a ligação com aquilo de que estamos separados, afinal um sentido comum com o da mitologia universal do amor. E, tal como o amor, o sentimento religioso é uma questão íntima e privada, uma relação individual com uma transcendência que, no essencial, faz da epifania uma experiência estética. Há um verso luminoso na obscura poesia de Herberto Hélder que, para mim, exprime, cintilante, esta ideia: “Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza”. Uma das mais gritantes evidências das grandes religiões é, precisamente, a péssima relação delas com as artes contemporâneas, por mais que, por exemplo, o próprio Papa invoque a Beleza. António Marujo escrevia no Público desta semana que “há uma estética na Igreja Católica feia e ridícula, presa que está a expressões de um passado recente – século XIX e XX, em que o catolicismo se zangou com a arte e vice-versa – ou à reprodução deslocada de ícones de séculos”. Mas a inadequação das grandes religiões à época contemporânea não é unicamente uma questão estética, ou sequer ética. A verdade é que não sinto necessidade, como a personagem do Woody Allen num dos seus filmes, de bater à porta de todas as congregações – judaicas, cristãs, muçulmanas, budistas – para perceber qual é a religião ideal para mim. Aliás, num mundo dominado pelas leis do mercado e pela obsessão do consumo, as religiões hoje chegam-nos por catálogo multimédia, muito mais do que por via familiar, escolar ou estatal. Lembro-me de ter escrito um sketch sob a forma de uma rubrica de defesa do consumidor, em que se comparavam diferentes religiões, como quem compara electrodomésticos, usando tabelas onde se comparam a qualidade das igrejas, o interesse dos discursos, a relação entre tempo investido e alívio das consciências, etc. Para lá da anedota, é isto que hoje se passa, quando por exemplo entre nós temos católicos não praticantes, ou seja, católicos que acabam por não praticar ou concordar com muitas coisas que estruturam a sua própria religião. A questão é que não precisamos das grandes religiões tradicionais e do seu totalitarismo politico. Acreditar e ter fé faz parte da natureza e da cultura humanas, a espiritualidade é um caminho para a nossa alegria e elevação. Mas é tempo de inscrever esse caminho no território do livre arbítrio e da liberdade. Acabo como comecei, citando Natália Correia: “Verdade de todos os deuses serem verdadeiros; e não o deus totalitário da verdade única tenazmente administrada pelo fantatismo dos monoteístas (...) Já que só se defende fanaticamente aquilo de que se duvida (...) Os deuses são da poesia.”

 

Crónica publicada no Económico no dia 15 de Maio de 2010.

 



Nuno Artur Silva às 10:16 | link do post


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