Terça-feira, 27.04.10

No meio da crise e do impasse geral, no país e em particular no mundo dos media, escolho dois temas que merecem ser destacados: os nove anos da SIC Radical e o sétimo ano do Festival Indie Lisboa.

Nunca a produção audiovisual em Portugal teve um horizonte tão indefinido como o actual. O fracasso do modelo do FICA gerou uma situação pantanosa que ainda não foi clarificada. Este retrocesso, aliado à quebra de receitas do ICA, fez de 2009 um dos anos mais negros e menos produtivos do cinema português.

Do lado das televisões o panorama também é desolador. A única produção regular de ficção é a de telenovelas. A pouca diversidade ficcional e os poucos documentários praticamente se reduzem a uma RTP que cumpre os mínimos a que é obrigada.

Perante este cenário insiste-se em fazer manifestos como o Manifesto pelo Cinema Português, assinado pelos realizadores do costume, isto é, o status quo que tem dominado a política de cinema em Portugal, onde se defende a continuidade de um modelo que conduziu à situação actual de o cinema português ser aquele que detém a mais baixa quota de mercado de exibição de cinema nacional em sala da Europa, com uma quota inferior a 3%, contra números de pelo menos dois dígitos em todos os restantes países. Um manifesto que confunde o inegável prestígio internacional de Manoel de Oliveira e Pedro Costa (nos festivais de cinema, que não nas salas) com qualquer reconhecimento do cinema português para além destes autores, que não existe de todo.

Como muito bem assinalaram António Ferreira e Miguel Rosa numa excelente "Carta aberta à Ministra da Cultura a propósito do cinema" publicada esta semana no Público, "uma quota de mercado assim baixa só pode ser explicada por uma desadequação entre a oferta cultural e os gostos do público". E noutra passagem: "o Estado tem vindo a apoiar o cinema (...) resguardado na estéril (e falsa) divisão entre cinema comercial e cinema de autor, atribuindo subsídios a filmes sem qualquer tipo de viabilidade económica e cultural, cobrindo praticamente 100% dos custos destes, quando o papel do Estado devia ser o de cobrir apenas a falha de mercado, ou seja, aquela fatia de receita que a nossa dimensão não consegue gerar (...) Esta política de privilégio de um suposto cinema de autor, hermético e de baixo retorno, penaliza os verdadeiros autores que procuram uma política de aproximação ao público..." ( Aqui só contesto a utilização do adjectivo "verdadeiros") . Como tem sido habitual, este artigo não teve o eco que o outro manifesto teve, cujos promotores há anos têm tido o benefício de uma imprensa que também não tem dado espaço para o contraditório dessa corrente.

Mas, fazendo jus à etimologia da causa, as novas gerações de cineastas movem-se e procuram novas formas de filmar e de produzir. É ver a vitalidade da produção de curtas metragens e das suas mostras e festivais, que se multiplicam. E falando de festivais, nunca é demais saudar a maturidade e o profissionalismo do Indie na sua sétima edição, cuja programação e organização exemplares falam por si.

Enquanto isso, do lado da televisão, é de saudar igualmente a SIC Radical, no seu nono aniversário. O primeiro canal de cabo português que, para lá da informação e do desporto, abriu espaço à produção nacional realmente alternativa na área do humor e, ainda que mais timidamente, na ficção.

Há pouco tempo num artigo publicado na Meios e Publicidade, o director da SIC Radical, Pedro Boucherie Mendes, assinalava o facto de canais estrangeiros a operar em Portugal, como por exemplo a Fox Life, não terem qualquer obrigação de uma percentagem de programação de obras de origem europeia, muito menos portuguesa.

Seria o mínimo exigível e um pequeno contributo para a produção independente portuguesa. Contributo que a SIC Radical tem de facto dado. Apesar do baixo orçamento tem sido possível neste canal, ainda que de forma rarefeita e irregular, dar a ver novos humoristas (o caso mais emblemático é, claro, os Gato Fedorento), ou mesmo novos formatos. Isto para além de programação estrangeira que não estariamos a ver se não fosse aqui. Era preciso que houvesse mais investimento neste canal ou noutros que possam surgir (e aqui agora falo com conhecimento de causa). Por muito que não pareça agora, o futuro passa mais por esses canais do que pelos grandes generalistas.

 



Nuno Artur Silva às 10:40 | link do post

Terça-feira, 20.04.10

Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.

O tema, cíclico, regressou à praça pública. E, como é habitual, a discussão raramente é aprofundada, acabando por limitar-se aos clichés prós e contra cristalizados há anos e que se resumem, no essencial, à questão do controlo do Estado ou dos governos vigentes na informação dos canais da RTP, e à questão dos custos brutos de manutenção desses canais e da estrutura que os sustenta.

A falta de uma discussão pública aprofundada sobre o serviço público de televisão e, num quadro mais geral, mas indissociável do primeiro, sobre o investimento público na área das redes de comunicação e dos seus conteúdos, tem originado um rol de decisões erradas ou, no mínimo, muito discutíveis, no território audiovisual português.

É ver a forma como foram atribuidos os canais privados em Portugal, como foi desenvolvida a televisão por cabo ou, mais recentemente, o processo de (não) atribuição da licença para o quinto canal ou o processo da televisão digital terrestre.

A verdade é que, independentemente da posição dos sucessivos governos e do atraso da legislação, o mundo não pára e a inovação tecnológica tem permitido o surgimento de novas realidades para além de todos os obstáculos.

Ainda que nem sempre da melhor forma, ainda que desregulados, desregrados ou sem obrigações, hoje a oferta de conteúdos multiplicou-se e a diversidade instalou-se. Simultaneamente com esta diversidade de oferta, e de forma aparentemente paradoxal, nunca a produção independente de conteúdos audiovisuais e de cinema, em Portugal, esteve numa situação tão frágil e indefinida como a actual.

É neste quadro que se deve pensar numa reformulação da RTP. E sobretudo no quadro mais vasto de uma política para a defesa, valorização e promoção do nosso maior património: a Língua Portuguesa. Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.

O que tem que acontecer é deixar de se pensar na RTP como a pensámos até aqui: um grande canal nacional, agregador de toda a população, uma variante “cultural” na RTP2, uma RTP Internacional praticamente sem programação própria e uns canais regionais (e, mais recentemente, um canal informativo do Porto e uma residual RTP Memória).

A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.

Neste sentido, como já escrevi antes, e partilhando a opinião de Miguel Gaspar num texto recente no Público, deve-se pensar a RTP mais numa lógica net do que numa lógica de televisão tradicional. Cito Miguel Gaspar: “... aquela que devia ser neste momento a principal preocupaçao do Estado em matéria de comunicação social permanece no maior dos esquecimentos. Essa prioridade deveria ser a criação de conteúdos para a internet e ainda o equivalente a uma rede social para os espaços das comunidades portuguesas e da lusofonia, que poderia desempenhar um papel muito mais interessante do que a anacrónica RTP Internacional. Em matéria de serviço público, entrámos na era digital a pensar em termos analógicos”.

É por aqui que devíamos iniciar este debate que, apesar de urgente, deve ser feito com tempo e sem decisões precipitadas.

 

Crónica publicada no dia 17 de Abril de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:37 | link do post

Terça-feira, 13.04.10

Segundo o Financial Times que é, para a economia mundial, o que o Weather Channel é para o estado do tempo, a Grécia não tem hipóteses. É bancarrota pela certa. E depois será Espanha. E depois Portugal. A Europa, isto é, a França, e sobretudo a Alemanha, não nos salvarão, somos PIGS, ficaremos PIGS, provavelmente PGS porque a Irlanda será salva pela vizinhança inglesa. Uma tragédia, grega, traduzida para espanhol e para a região autónoma de Portugal. Ver-nos-emos todos gregos. Tal como antes o sonho do império se esfumou na realidade do pequeno país à beira-mar, agora o sonho europeu desvanece-se e deixa ver a pequena região subdesenvolvida da periferia. O país mudou muito desde o 25 de Abril, como comprovam as auto-estradas, a alfabetização e os hipermercados. As estatísticas do Prodata e do Portugal, Um Retrato Social, do António Barreto, falam por si. Mas, no essencial, nos centros de poder e de decisão, as mentalidades não mudaram. Tudo está como estava no século XIX. E por isso é que o Eça de Queirós é tão actual e as crónicas dos pessimistas como o Vasco Pulido Valente, ou os relatórios catastrofistas como os do Medina Carreira, se adequam à interpretação da realidade que, como eles, teima em não mudar. O problema é sempre o mesmo: a corrupção. A promiscuidade entre o Estado e os privados, a cupidez dos empresários que dizem mal do Estado mas não podem viver sem os seus favores, o tráfico de influências e, por fim, ou mais exactamente antes de tudo, a completa ineficácia e corrupção do sistema de justiça que permite que tudo isto se perpetue impunemente. Num dos inumeráveis estudos comparativos publicados nos últimos tempos dizia-se que se não houvesse corrupção em Portugal poderíamos estar como a Finlândia. Com a vantagem do clima. Ou seja, se cá nevasse fazia-se cá ski. Mas neste caso perdíamos a vantagem do clima. É o inevitável destino português? Estamos de novo na cauda da Europa, prontos a carregar a pedra de novo para o cimo da montanha. No filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, Bill Murray interpreta um egocêntrico apresentador do programa de meteorologia que é enviado à localidade de Punxsutawney para fazer a cobertura do Dia da Marmota. Ele não vê a hora de terminar o trabalho e voltar para casa, mas o inesperado acontece: ao acordar, no dia seguinte, percebe que está de novo no início do dia anterior e que tudo vai recomeçar exactamente igual e ele vai ter que fazer a reportagem do Dia da Marmota outra vez. Portugal está outra vez no Dia da Marmota, de onde afinal parece que nunca saímos. No filme a personagem de Bill Murray apaixona-se por Rita, a personagem de Andy MacDowell. Os primeiros encontros são desastrosos e ele não tem nenhuma hipótese com ela. Mas já que o dia se vai repetindo infindavelmente, e ele parece ser o único a ter consciência disso, começa a fazer com que isso jogue a seu favor. Sabendo já o que vai acontecer, ele altera o seu comportamento de modo a obter um resultado diferente. Será que Portugal pode fazer o mesmo? Ou não há volta a dar porque os portugueses serão sempre portugueses? É inescapável? Há uns anos fui convidado para uma conferência na Universidade de Rutgers, em Newark, para falar a um grupo de alunos de Estudos Portugueses. Foi um convite muito simpático e correu tudo lindamente. Já não ia a Nova Iorque há uns anos e estava desejoso de voltar a Manhattan e de visitar a cidade. O grupo de professores convidou-me para jantar e prometeu levar-me a um restaurante muito especial. Animado pela perspectiva de uma noite nova iorquina acabámos num restaurante típico português, em Newark, cheio de portugueses, com a televisão ligada na SIC Internacional, na telenovela. O bacalhau era excelente e foi uma bela noite. No dia seguinte juntei-me a outro grupo de amigos, que não via há muito tempo, e que me desafiaram para ir até Washington. Pensando que não ia estar muito tempo em Nova Iorque, e que a viagem de carro ainda era longa, troquei o programa por um bom jantar, num restaurante muito especial, que eles sugeriram. Acabámos num restaurante típico português do outro lado da rua do restaurante do dia anterior e absolutamente igual ao primeiro. Rodeado de portugueses, com a televisão na RTP Internacional, no futebol. O cozido estava óptimo e foi uma bela noite. Na terceira noite jantei sozinho. Em Manhattan. Não foi tão divertido. Três dias em Nova Iorque e dois a jantar em Carnide. É o destino português.

 

Crónica publicada no Económico, no dia 10 de Abril de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 06.04.10
Há uma cena no Annie Hall em que a personagem do Woody Allen, Alvy Singer, um comediante, está à porta de um cinema e um transeunte começa a andar à volta dele, a perguntar se ele é da televisão. Singer acaba por confirmar vagamente, o transeunte pergunta-lhe o nome e acaba a cena a gritar a todos os que passam “ Está aqui o Alvy Singer !”. Sempre me divertiu muito a relação com os famosos, sejam os famosos realmente famosos, sejam só “famosos por ser famosos”. É uma evolução da relação com os heróis e deuses antigos, no contexto da sociedade contemporânea do espectáculo. A relação de um adulto com um famoso acaba por ser sempre a relação que uma criança tem com um boneco que faz parte do seu imaginário, das suas histórias de faz de conta. O encontro com esse famoso é como o momento em que a criança cumprimenta o Pato Donald na Disneylândia. Não importa para o caso que não seja realmente o Pato Donald que ela está a cumprimentar mas eventualmente um pobre de um actor desempregado com uma vida miserável, ou simplesmente o Chico da Farmácia num biscate. Tal como o grande cantor ou o grande escritor que cumprimentamos com admiração nunca é a figura mítica criada pela distância e veneração, mas simplesmente uma outra pessoa que desconhecemos. O cumprimento ou o autógrafo são sempre uma forma fetichista de relação com o nosso herói, um fake de uma intimidade que não aconteceu. Mas os momentos da fotografia com o Pato Donald são sempre emocionantes ou anedóticos, ou seja, transformam-se sempre numa história para contar. Eu tenho vários, anedóticos, porque apesar de não ser jornalista a minha actividade já fez com que me cruzasse com inúmeras celebridades. É batota, claro. Não tem o impacto de encontrar a celebridade por acaso ou por destino. Os jornalistas, como os que trabalham nos bastidores dos espectáculos, vivem do brilho alheio e por vezes confundem situações profissionais com cumplicidade com os artistas. Mas a verdade é que estiveram próximos deles. Eu, por exemplo, lembro-me de ter sentido que estava a cumprimentar o Pato Donald quando conheci o Herman, que eu admirava profundamente da televisão. Depois comecei a trabalhar com ele e o efeito desvaneceu-se (embora não completamente). O próprio Herman conta, a rir, a história do encontro com o seu Pato Donald, Frank Sinatra, quando ele veio a Portugal. O Herman, que fez a primeira parte do show do Sinatra, dirigiu-se-lhe dizendo “Mr. Sinatra, I’m Herman José, a very popular comediant in Portugal”, ao que Sinatra respondeu, sem o cumprimentar e não parando: “I bet you are”. É claro que isto já foi na fase em que Sinatra saía de uma limousine e entrava na sala de concertos e dizia, como disse cá, “I’m very happy to be in... this part of the world”. Nos bastidores do programa do Herman cruzei-me e conversei com grandes celebridades mundiais (a sério!). Mas a história mais extraordinária de todas é capaz de ter sido quando, na época do primeiro Big Brother, o convidado do Herman Sic foi o irmão gémeo do Marco, um dos concorrentes. E nos bastidores, na sala do Herman, a dada altura, estava a equipa toda, Herman incluído, reunida à volta do sofá, onde estava sentado esse irmão do Marco, que falava como se fosse o Marlon Brando perante uma multidão ávida para o ouvir. Apesar de ter sido o irmão, este momento foi um marco na definição contemporânea de famoso. Contudo, a minha história pessoal favorita com famosos é a seguinte: como grande fã de música brasileira, fui com uns amigos aos bastidores de um concerto do Caetano Veloso, cumprimentar o Caetano, mas sobretudo reencontrar um famoso entretanto já transformado em meu conhecido, o grande músico Jacques Morelenbaum. Tínhamos combinado jantar depois do concerto e no meu carro, para além do Jacques, dei boleia ao guitarrista do Caetano e a uma sua namorada. Ao chegarmos ao restaurante começámos a falar e eu perguntei à namorada, que ficou à minha frente, “então e você faz o quê, Ivete?”. Ao que ela respondeu “eu canto, né?”. Nesse momento eu, que me considero razoável conhecedor de música brasileira, percebi que tinha feito aquela pergunta à Ivete Sangalo, provavelmente, à época, a cantora mais popular do Brasil. Já contei tantas vezes esta história que, por causa dela, estou a ficar famoso. Qualquer dia começo a dar autógrafos.

Nuno Artur Silva às 10:15 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 30.03.10

No meio do turbilhão de trabalho e de informação e de todo o sem tempo, tiro um tempo, faço uma suspensão no tempo e, por um momento, penso e pergunto: o que fica do que passa? Vejo os jornais em cima da mesa, hesito no tema da crónica, penso em tudo o que tenho para fazer e me apetece muito fazer e apetece-me fazer o que não tenho que fazer. E penso em tudo o que tenho feito e no que não fiz para fazer o que fiz. Agora ajusto o espelho retrovisor, e começo a ver o que vou deixando para trás. O que é que vai ficar? Agora que estou outra vez na voragem de mil e um projectos, com mil e uma coisas em falta, mal dormido e sem tempo para os amigos e para os prazeres, páro e pergunto o que fica do que passa? Lembro-me do poema do O’Neill: “E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa / Passa pelos olhos de um gato (...) O destino passa (...) o destino demora-se e passa...” E o que vai ficar? Dos recortes do jornal que é a nossa memória dos dias quais é que vamos guardar, quais vão sobreviver ao pó e à humidade e às mudanças da casa que é a nossa memória? Quais é que vão acontecer pela segunda vez? (“A memória é o sítio onde as coisas acontecem pela segunda vez” – Paul Auster). No Blade Runner, filme meu tão favorito, na cena derradeira, quase final, o Replicant, antes de morrer, salva a vida do polícia que o queria matar e recita-lhe as suas memórias: “Vi coisas que vocês homens nem imaginam. Naves de guerra em chamas na constelação Orion. Vi raios C resplandecentes no escuro, perto do Portal de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. Lembro-me dos versos da belíssima canção de Sérgio Godinho e Ivan Lins “Que há-de ser de nós?”: “Que há-de ser do mais longo beijo / que nos fez trocar de morada / dissipar-se-á como tudo em nada? / já fizemos tanto e tão pouco / que há-de ser de nós?” Há experiências que se vivem intensamente como uma canção pop, que se repete e se canta até à exaustão, celebrando a novidade do ritmo e da melodia até se gastar como uma pastilha elástica. É a vibração pop de viver o momento intensamente, carpe diem, dizia Horácio, seize the day dizia Robin Williams no Clube dos Poetas Mortos. No meio do frenesim de tudo o que há para fazer, alguém aqui nas Produções Fictícias começou a colar pequenos poemas nas cadeiras, nas portas, nos dossiers... Como este do Jorge Sousa Braga (no espelho da casa-de-banho): “Nos semáforos da rua de Santa Catarina: ao menos os teus olhos / permanecem verdes / todo o ano”. E depois tudo se recupera pela nostalgia. Estamos a saír da nostalgia dos anos 80 e a entrar na nostalgia dos anos 90. Com a aceleração, a cultura pop vai-nos fazer celebrar o dia de hoje e iniciar a nostalgia deste dia no dia seguinte. Uma vez escrevi um sketch para o Zé Pedro Gomes e o António Feio em que eles eram dois amigos nostálgicos dos anos 60 e depois dos 70, e por aí fora, até ficarem com nostalgia do momento em que começaram a fazer o sketch e do fim do sketch, que dessa forma nunca mais acabava. Resistindo a todas as modas ficam os clássicos. Que são o que fica com o tempo. Que são o essencial. Mas o que fica com o tempo? Lembro-me que a seguir ao 25 de Abril o escritor de que se falava e que era O Escritor era o Fernando Namora. Quem lê hoje Fernando Namora? Lemos Vergílio Ferreira. Vamos continuar a ler? E Saramago, Lobo Antunes, Agustina... Aceitam-se apostas. Mas isso interessa para alguma coisa? São todos expressões do seu tempo. Se forem as vozes do seu tempo o que importa que não sejam vozes de outro tempo? Quando procuro lembrar-me da televisão que se fazia nos anos 90 em Portugal, lembro-me de uma pequena produtora de vão de escada, a Latina Europa. A Latina Europa foi fundada em 1989 pelo Paulo Miguel Fortes e pelo António Saraiva. Fez programas para a RTP 2, como Lusitânia Expresso, PopOff ou Lentes de Contacto. Por lá passaram todos os que viriam a ser os melhores realizadores de televisão da década seguinte. Era uma pequena produtora mas foi mais importante pela inovação e pelo espírito do que praticamente tudo o que se fazia na altura. Do outro lado da minha vida, fora da televisão, nesse início dos anos 90, lembro-me do Herminio Monteiro e da sua Assírio e Alvim. E de como ele juntou à sua volta poetas e artistas e editou milhares de livros de poesia. Agora que estou no meio de um lançamento de um novo projecto, no meio das tentativas e dos erros, e das dúvidas e alegrias , no meio de mil e uma ideias e pessoas , páro para pensar no que vai ficar de tudo isto. E penso que é sempre imprevisível, que nunca se pode saber. E que isso é inspirador.



Nuno Artur Silva às 10:27 | link do post | comentar

Terça-feira, 23.03.10

Está tudo a mudar no mundo da produção audiovisual. A própria divisão entre o que é cinema e o que é audiovisual, ou seja, televisão, está a deixar de fazer sentido no território do multimédia digital. E no que era o universo específico da televisão o território não está menos incerto. A decadência dos canais generalistas é uma evidência. O ritual de visionamento televisivo passivo, frente ao fluxo dos canais, está a ser substituído por visionamentos escolhidos, on demand, da maneira e no tempo que os espectadores querem. Isto obriga a um reposicionamento das estações de televisão, dos seus canais, das suas estratégias de produção, programação, divulgação e dos seus modelos de negócio.
A TVI estreou esta semana uma nova telenovela. Nada de novo. Aparentemente um êxito de share, nada de novo também. A TVI lidera de forma sólida no conjunto das três grandes estações generalistas há uma década. E, no entanto, a TVI tem um problema: o modelo está esgotado. A monocultura da telenovela gera um monopúblico. O canal está a deixar de ser generalista. E, ao perder determinados públicos, perde anunciantes. E não os recupera doutra maneira porque a estação não soube criar outros canais. A TVI 24 não tem ainda marca própria e os outros anunciados canais não aconteceram.
A TVI tem, pela sua estrutura accionista, condições privilegiadas para fazer pontes com Espanha e com a América Latina. A sua marca produtora, Plural, segundo foi anunciado, foi formada para concretizar esse potencial. Mas tudo parece adiado. E ainda não se começou a produzir ficção que não fosse para exibição na TVI. E praticamente tudo telenovela. O êxito telenovelesco esconde o impasse estratégico.
Já o êxito da SIC está na sua rede de canais. Falta criar condições para que esses canais possam crescer. A SIC Notícias é um êxito e tornou-se o canal informativo de referência. A SIC Radical, a SIC Mulher e, recentemente, a SIC K, têm grande potencial de crescimento, desde que haja investimento financeiro e criativo. Falta resolver a programação da SIC generalista. Não é fácil. Desde o início que a SIC tem uma matriz informativa muito forte. Primeiro, ela foi complementada do lado da programação com a parceria com a Globo, num tempo em que as novelas brasileiras tinham público e notoriedade. Esse tempo acabou. Depois, o modelo de programação foi genericamente o da Endemol, do grande entretenimento com uma componente de reality show. Numa terceira fase apostou-se no humor popular português. Hoje em dia, e desde há uns anos, a programação procura uma marca própria que ainda não foi encontrada. A enorme instabilidade da grelha nocturna não tem fidelizado públicos. No caso da SIC podemos dizer que o impasse da estratégia de conteúdos do canal generalista tem prejudicado o desenvolvimento do conjunto dos canais. Mas, paradoxalmente, por causa da existência desta rede de canais, a SIC está mais bem posicionada para o futuro do que a TVI.
A RTP mantém-se fiel ao modelo de sempre, os novos canais são pequenos satélites do grande canal que é a RTP 1. A RTP Internacional continua a não ser uma prioridade. Como lhe compete, a RTP, dentro desse modelo generalista comercial que está definido desde há décadas, tem procurado ter uma programação mais diversificada que a dos privados.
Fazendo uma retrospectiva muito geral da história da televisão em Portugal, é fácil constatar que os modelos dominantes (e os próprios decisores) não mudaram muito. Com a excepção da SIC inicial, de Emídio Rangel, que de facto introduziu uma mudança no audiovisual português, e da TVI pós-Big Brother, de José Eduardo Moniz, da monocultura telenovelesca e da lógica reality tablóide dos talkshows aos telejornais, nada mudou substancialmente.
E, no entanto, como dizia no início do texto, tudo está a mudar. Em que direcção? E de que maneira? O novo modelo dominante é não haver modelo dominante? É capaz de ser um bom princípio para o futuro.

 

Crónica publicada no Económico no dia 20 de Março de 2010.
 



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 16.03.10

O dinheiro, numa época materialista como a nossa, é o último reduto da espiritualidade. Uma imaterialidade que origina todos os bens materiais que possamos imaginar. Que origina não, que pode originar. Porque para a maioria de nós o dinheiro nunca passa de uma imaterialidade. Aquilo que quase ninguém tem mas que toda a gente anda à procura. Um Graal contemporâneo.
Os grandes temas da Humanidade: o Sexo, a Morte, o Poder, a Religião, as Letras Maiúsculas não são nada comparado com a fé transformadora do Dinheiro, que é a única verdadeira religião universal.
Como qualquer texto religioso, este texto tem de conter uma parábola. “Pergunta o ignaro ao mestre: Porque é que o cão lambe a pila? O mestre sorri com condescendência e retorque: Porque pode.”
E porquê esta parábola? Porque é sábia e se adapta a qualquer coisa. Por exemplo, ao dinheiro. O dinheiro permite-nos lamber a pila. Metaforicamente, claro. (E também sem ser metaforicamente, mas nesse caso, normalmente, são outras pessoas).
Nessa medida, podemos dizer, também metaforicamente, que a vida é um casino, uma roleta que determina quem nasce rico e quem nasce pobre. A grande divisão do mundo não é entre homens e mulheres, judeus e muçulmanos, bonitos e feios, estúpidos e inteligentes: é entre ricos e pobres.
Claro que o dinheiro não traz a felicidade, de maneira nenhuma. Mas permite viver a infelicidade de uma forma muito mais confortável.
Em certos países, os milionários doam grande parte da sua fortuna para fins de beneficência, para combater doenças, abrem alas de hospitais que ficam com o seu nome, criam Fundações… Em Portugal tudo isso é considerado ostensivo e de mau-gosto. Doa a quem doer, por regra, em Portugal ninguém doa nada. O milionário português quando produz riqueza fá-lo normalmente com grande discrição e nunca permite que se esbanje um tostão que seja em acções que beneficiem pessoas que afinal nunca viram mais gordas.
Pode-se perguntar de que serve ser milionário e ter carros e jactos e ilhas se depois se usa calças encarnadas e se casa com uma mulher que parece saída de um casting para uma novela venezuelana. Ou de que serve ter-se dinheiro para contratar qualquer artista do mundo e depois se contrata para festas privadas a Celine Dion. Quem pergunta isso não percebe o grau de infelicidade dessa gente e a sofisticação irónica do seu sofrimento Camp.
Sendo o dinheiro a fonte do prazer que ilude a nossa miséria, o Banco é o Grande Colchão onde enganamos a infelicidade com as mil posições desse kama-sutra que são as operações financeiras.
Terminamos, como começámos, com uma parábola. E que não se pense que é sobre sexo outra vez (embora seja). É a parábola do milionário e das três mulheres. “O milionário queria deixar a sua fortuna à mulher que mais o merecesse e perguntou às três mulheres o que iriam fazer com o dinheiro quando ele desaparecesse. A primeira disse que doaria tudo para beneficência; a segunda investiria, faria negócios e multiplicaria a fortuna; finalmente a terceira, sem hipocrisias, disse que gastaria tudo e se divertiria sem culpa gastando tudo até ao último cêntimo. Pergunta: a quem deixou ele o dinheiro? Resposta: à que tinha as mamas maiores.”
Esta parábola revela muitas coisas. Primeiro, que o dinheiro permite-nos tomar qualquer decisão de forma completamente arbitrária. Segundo, que é sempre escolhido quem tem as mamas maiores. Terceiro, que o dinheiro pode fazer as mamas maiores. E, nesse sentido, quem tem as mamas maiores pode, não só ser escolhido, como escolher. E nesse caso normalmente escolhe quem tem as mamas maiores.
É por isso que o dinheiro é a coisa mais espiritual do mundo.



Nuno Artur Silva às 10:27 | link do post

Terça-feira, 09.03.10

Este tem sido o Inverno do nosso descontentamento. Desde logo, meteorologicamente. Nunca como este ano tenho estado tão farto da chuva, do vento e do frio, e das previsões meteorológicas que, invariavelmente, prevêem chuva para os próximos dias. E não se enganam.
Mas, pior ainda que o tempo meteorológico, no país real da política não pára a chuva de casos, intrigas e revelações inundando os média e deixando tudo literalmente na lama, o país transformado num pântano e numa grande metáfora climática.
A verdade é que estou, estamos, fartos, de Sócrates e da sua obsessão doentia pela comunicação social. Tão fartos dele como da comunicação social e da sua obsessão doentia pela obsessão doentia de Sócrates. Isto não é saudável.
E o pior de tudo é a impunidade com que este sistema de justiça e, muito em particular, a magistratura judicial, do Ministério Público, não faz nada para impedir que certos elementos seus condicionem as investigações, manipulando informação, fazendo fugas de imprensa sistemáticas, corrompendo completamente todo o sistema.
Estamos fartos que toda a gente diga que o principal problema é a justiça e ninguém faça nada. Estamos fartos deste bloqueio político em que já não acreditamos no governo e não acreditamos na oposição e nas suas rupturas e mudanças e políticas de verdade.
É um território perigoso este pântano. Pode abrir caminho a demagogias e populismos que se apresentam como clarificadores e acabam em autoritarismos déspotas. Quando começamos a ver maus jornalistas a transformarem-se em mártires da luta pela liberdade de imprensa está aberto o caminho para vermos maus políticos a transformarem-se em justiceiros da insatisfação popular.
Os média parecem um disco riscado e o coro de comentadores, a que me junto nesta crónica, repete incessantemente os refrões da praxe: contra, a favor, os do “isto já não tem saída”, e os do “é preciso acreditar”. Já para não falar dos cómicos e dos piadistas, que pululam por todo o lado, tanto quanto as novas fadistas. E estamos todos fartos uns dos outros. Deve ser do tempo.
E, no entanto, mais do que nunca, é preciso saber ler os sinais, é preciso ter critério, é preciso ter lucidez, inteligência, sensibilidade, é preciso separar, escolher. Não recusar a política, mas separar os maus políticos dos bons políticos, seguir os bons jornalistas e ignorar o mau jornalismo, não perder tempo com os engraçadinhos para poder rir com os cómicos, é preciso fazer escolhas, escolher o essencial, esquecer o acessório.
É preciso ter um critério de exigência, procurar em todas essas áreas as boas ideias e as boas pessoas e no meio do ruído encontrar as vozes certas fazendo dissipar as nuvens que as estão a tapar.
Para concluir, recorro ao mais citado e singular dos comentadores portugueses. Falo, claro, de Gabriel Alves. O homem que disse frases tão inesquecíveis como “um passe para a zona de ninguém, onde realmente não estava ninguém” ou “Juskoviac, a vantagem de ter duas pernas” ou ainda, enquanto o público gritava “Ó Pinto da Costa vai para o c.....” : “o público entusiasmado apoia as duas equipas”. Verdadeiros haikus com uma amplitude de significado que não se esgota no jogo de futebol.
O meu haiku favorito de sempre de Gabriel Alves é, na sua contenção, um tratado definitivo sobre o falhanço. O falhanço do próprio comentador mediante a incerta realidade. Penso muito nele a propósito de Portugal: “Já perdeu tempo para o remate... Golo.”
Portugal já perdeu tempo para o remate, falta dizer golo.
 

Crónica publicada no Económico no dia 6 de Março de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:28 | link do post

Terça-feira, 02.03.10

Há 20 anos que trabalho em televisão e ainda não me habituei ao sacrossanto culto das audiências. Eu sei que não sou exemplo para ninguém e que no “mundo da televisão” serei sempre um estrangeiro, um tipo que veio do lado da cultura, pior que tudo: um intelectual. Ou seja, um tipo que não percebe nada de televisão. (Claro que para o “mundo da cultura” eu serei sempre o tipo da televisão, um entertainer. Ou seja, um tipo que não tem nada a ver com a cultura.) Mas a questão das audiências e da obsessão de (quase) todas as pessoas que trabalham em televisão pelas audiências sempre me passou ao lado. Eu sei que os canais que vivem de publicidade dependem das audiências e que não há serviço público sem público, mas – e este é um grande mas – primeiro, penso sempre que a prioridade deverá ser fazer não o que nos parece que o público acha o melhor possível, mas aquilo que nós achamos que é o melhor possível; segundo, as audiências já não são o que eram, ou seja, têm cada vez mais que se lhe diga.
É raro encontrar um director de programas que diga que gosta ou não gosta de um programa antes de consultar as audiências. Pode parecer estranho mas o normal em televisão, quando se pergunta a um director se gostou do programa, é receber a resposta: “vamos a ver amanhã”, isto é, “vamos a ver se teve boas audiências, porque se teve é sinal de que gostei muito”. Traduzindo para a vida real, é como se a excelente noite que passámos só foi realmente excelente se o público tiver gostado, ou na versão do Woody Allen: “Finalmente tive um orgasmo mas o meu médico disse-me que era do tipo errado”.
Esta febre das audiências é contagiosa. A quantidade de pessoas que nas produtoras de televisão correm com ansiedade para ver “como é que foi ontem” é incomparavelmente superior ao número de pessoas que se preocupa com a qualidade do programa. E, no entanto, chamem-me idealista, mas continuo a achar que o verdadeiro barómetro deve ser a consciência que cada um tem do trabalho que está a fazer, a partir das reacções que tem. É claro que as audiências são um dado importante mas – cada vez mais – a análise dos públicos não se resume a um simples número.
Já em 1997, quando fizemos um programa chamado Herman Enciclopédia, tivemos esta percepção. O programa foi um relativo flop de audiências. Era sempre derrotado de forma clara pela programação dos outros canais. Mas começámos a reparar que – nos cafés, nos locais de trabalho, e depois nos jornais – foram aparecendo frases do programa: “não havia necessidade”, “este homem não é do norte”, “não te desgraces”, “fantástico Melga” ou mesmo “lets look at the traila”. O programa não tinha grandes audiências mas ganhou notoriedade e deixou marcas. Ao contrário dos programas que na altura o derrotavam no campeonato das audiências.
Hoje em dia há muitíssimas mais razões para pôr em causa esta ditadura das audiências. Com a multiplicação dos canais e dos hábitos de consumo, os mecanismos de medição estão manifestamente obsoletos e não acompanham minimamente o que se está a passar em termos de visionamento. As agências de meios têm interesses instalados, ou seja, modelos de negócio e de influência sobre os anunciantes que estão promiscuamente relacionados com o status quo dos canais generalistas. Por fim, hoje mais do que nunca, os públicos estão pulverizados e dizer que se teve x ou y de audiência ou de share pode não querer dizer nada, se não tivermos mais dados. Por exemplo, o perfil de quem estava a ver ou a quantidade de pessoas que não viu nessa altura mas vai ver mais tarde, em gravação, on demand, na net...
Dizendo de outra maneira, temos que comparar tudo porque cada vez mais as coisas não são comparáveis. Não podemos comparar o milhão de pessoas que viu a telenovela com as cem mil que viram a entrevista com o escritor. Tal como não podemos comparar a tiragem do livro de poemas do Herberto Hélder com as vendas do José Rodrigues dos Santos.
A decadência das televisões generalistas e a multiplicação dos canais de nicho vem trazer uma nova realidade. Agora não temos público, temos públicos. Muitos públicos. 

 

Crónica publicada no Económico no dia 27 de Fevereiro de 2010.

 

 



Nuno Artur Silva às 10:20 | link do post

Terça-feira, 23.02.10

Nasci nos anos 60, em 62, no exacto dia em que os Beatles lançaram o seu primeiro single, Love Me Do. Adoro os Beatles, as suas canções, e tudo o que eles foram e representaram. Quando os comecei a ouvir já eles tinham acabado. O meu primeiro LP dos Beatles foi o duplo de capa azul com o best of da 2ª parte da carreira deles. Eu, tal como Portugal, cheguei tarde aos anos 60, por causa da minha idade e por causa da ditadura. Em Portugal a explosão da cultura pop e jovem (passe a redundância) só aconteceu plenamente depois da revolução e do PREC, já nos anos 80.
Este delay acompanhou sempre a minha adolescência e fez de mim e de muitos da minha geração um adolescente tardio com tendência para começar a gostar de coisas que já tinham acabado. Daí a passar a gostar de coisas porque já tinham acabado foi um pequeno passo para a melancolia.
Musicalmente, os anos 70, os anos da minha adolescência, foram anos de rock sinfónico, de bandas pop rock que incharam em delírio megalómano até rebentarem ou serem rebentadas pelo movimento punk.
A verdade é que nunca gostei muito de rock, com excepções de que gosto muito, como Jagger e os Stones ou Morrison e os Doors (Muito menos de hard rock ou heavy metal. O punk sempre detestei). Mas adorava poder ter estado com 16 anos em Londres no início dos anos 60, e em São Francisco no final dessa década.
Extraordinário foi estar em Lisboa no 25 de Abril de 74, ter saído à rua nos dias seguintes e ver a revolução. Tinha 11 anos. Se tivesse 18 talvez fosse perfeito.
Vivo na cidade do Pessoa mas nasci quase 30 anos depois dele ter morrido. Estive de certeza em cafés e esquinas onde ele esteve. É possível que o meu pai, mais possível ainda o meu avô, se tenha cruzado com ele numa qualquer rua da Baixa. Se calhar falaram e beberam um copo juntos. É possível que um dos miúdos que vejo a jogar à bola no meu bairro lisboeta seja o super Pessoa do século XXI.
A seguir ao 25 de Abril comecei a ouvir música brasileira. Lembro-me que um dos primeiros discos era um best of do Chico Buarque, que vi ao vivo numa das primeiras festas do Avante. E depois foi o Caetano, e depois a bossa nova.
Se tiver que escolher um género musical é este, essa bossa e seus cantores. João Gilberto, a começar tudo com o Chega de Saudade, e Jobim, o compositor maior. Penso como seria maravilhosa a cidade, o Rio de Janeiro, no final dos anos 50, naquele intervalo de meia dúzia de anos antes da ditadura e antes das favelas e do crime. No meu best of do Mundo esta era a faixa 1: ter 20 anos e partilhar as canções e a praia com as garotas de Ipanema e os seus cantores.
A felicidade no Mundo, como na vida de cada um de nós, é efémera, mas pode acontecer várias vezes e sempre onde menos se espera. Ao olhar para trás, para toda a História do Mundo, para toda a alegria e glória, para toda a tragédia e pó, penso como seria a utopia da viagem no tempo, por todos os tempos e lugares do Mundo. Se fosse possível, como num best of das melhores músicas, viver, estar no sítio e no tempo dos melhores momentos do Mundo.
Uma ideia que tenho para um livro que ainda hei-de fazer, O Mundo, best of: Rio de Janeiro, 1958; Lisboa, 25 de Abril a 1 de Maio de 1974; Londres, início dos anos 60; Califórnia, fim dos anos 60. Mas também: Paris, início do século XX ou Filadélfia na Revolução Americana. Ou Roma, na República Romana. Ou a Atenas dos Filósofos. E a Lisboa de D. Manuel, no Terreiro do Paço, com o regresso das Caravelas e os seus mistérios e maravilhas. Córdova e o Al Andaluz. O Egipto de Nefertiti. O momento da descoberta do Brasil, ao lado de Pêro Vaz de Caminha. A Florença do século XV. A Pérsia de Alexandre. A Badgad das mil e uma noites. Uma ilha esquecida da Polinésia...
Discografia alternativa, os lados B dos singles, as faixas esquecidas, as raridades: Aquele entardecer perdido no Portinho da Arrábida da adolescência. O pai a dizer : uma noite descansada, antes de eu voltar a acender a luz para ler. Eu a dizer ao meu filho uma noite descansada. Como diz a canção, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.



Nuno Artur Silva às 09:43 | link do post


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