Domingo, 01.08.10

As ideias, as histórias, as pessoas, as relações entre as pessoas. A Língua Portuguesa, Portugal e o Brasil. A televisão, o cinema, os livros. A poesia. A politica. As cidades. O futuro. O presente. O que passa. E o que fica do que passa.

Em quase dois anos de crónicas estes têm sido os meus temas, as minhas tags. Hoje despeço-me como um músico que termina uma digressão com um medley. Boa noite Lisboa!

 

“O grande lance é fazer romance”

 

Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos.

Quando falamos de cidades falamos de habitação, trânsito, ordenamento do território, etc, e pensamos em realidades físicas. Mas, mais que uma realidade física, uma cidade é uma realidade mental. Como o amor, “una cosa mentale”. Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias.  Romances.

Passear ou vaguear numa cidade é vaguear pelas histórias que fazem a História dessa cidade. Quanto mais histórias mais mítica é a cidade. Quanto mais mítica, mais real é.

 

Estamos sempre perdidos na tradução do mundo em que vivíamos para o mundo onde estamos sempre a começar a viver. O que nos pode salvar é - agora como sempre - a ficção.

 

A produção de ficção na televisão portuguesa, no conjunto dos seus canais generalistas e de cabo é, com honrosas excepções, um deserto de ideias e de formas, um lugar onde não há espaço para se desenvolverem narrativas para além das monocórdicas telenovelas.

É um extraordinário desperdício de recursos e talento, geração após geração, num meio, a televisão, que devia ser o palco privilegiado para a existência de uma cultura narrativa forte e diversificada. Agora que a televisão se reinventa no contexto da internet e da multiplicação de écrãs, é tempo de mudar os modelos organizacionais dominantes, que têm contribuído para esta situação de estagnação, e investir a sério, com estratégia e de forma planificada, na criatividade. Só a criação de ficções originais pode originar um verdadeiro património audiovisual nacional.

 

Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.

Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.

A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.

 

Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto,  a terceira ponte e o TGV. A RTP é mais importante que o TGV

 

“Primeiro encontramos, depois procuramos” dizia Picasso, pintor espanhol e do mundo. Nós, portugueses, primeiro encontrámos o Brasil. Falta agora, mais de quinhentos anos depois, procurá-lo.

E a terra nova que achávamos era, para além da terra real, a nova Língua Portuguesa, pátria que Pessoa haveria de proclamar séculos depois. E Caetano de cantar, roçando a sua língua na língua de Luís de Camões. E perguntando: “o que quer, o que pode esta língua?”, e respondendo “Livros, discos, vídeos à mancheia / E deixa que digam, que pensem, que falem”.

Só na poesia nos encontramos, no esplendor da Língua que é a Literatura, nossa única pátria. “Falta cumprir-se Portugal” dizia Pessoa na “Mensagem”. Esse Quinto Império mítico é o do sonho e da música da  Literatura em Língua Portuguesa, hoje disseminada por todo o mundo em “livros, discos, vídeos à mancheia”. O futuro de Portugal é a mistura, a mestiçagem e a vadiagem da língua portuguesa pelo mundo. O futuro de Portugal é o Brasil.

O acordo ortográfico é útil e inútil porque inevitável. Se não formos com o Brasil para o mundo ficaremos mirandeses e o nosso português ficará o mirandês do português.

Se há um desígnio para a CPLP é a criação de uma verdadeira comunidade cultural. A revolução da internet definindo um novo território imaterial traz consigo a oportunidade para a criação dessa comunidade.

É tempo de procurar  o Brasil. É tempo do Brasil nos descobrir.

 

Vivemos fascinados com o mundo de possibilidades à nossa frente, como jogadores viciados no tudo ou nada da roleta. Porque o que é fascinante é saber que tudo muda a cada instante, que um cisne negro quem sabe esvoaçará no lago, que a próxima esquina que virarmos pode-nos fazer encontrar o que já não procurávamos, que o acaso continua a jogar aos dados e a escrever o destino, que “o destino é a inteligência secreta do acaso”, como dizia René Char, que “o destino passa (...) como uma pluma caprichosa / passa pelos olhos de um gato”, como dizia Alexandre O’Neill.

Passo o tempo a imaginar o futuro mas a única coisa que conta, a única coisa que vai contar, é como é que nesse tempo vai ser o meu passado.

 

Termino agradecendo ao Económico o convite para a escrita destes quase dois anos de crónicas e,  pessoalmente, ao António Costa e à Isabel Lucas, pelo convite e pela atenção. Boas férias.

 

Crónica publicada no Económico no dia 31 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 12:43 | link do post

Terça-feira, 27.07.10

“Boa noite, este é o canal de notícias fáceis (...) Trazemos-lhe todas as notícias que são fáceis de arranjar (...) Pessoas noutros países querem matar-nos. O resto do artigo está cheio de nomes que não consigo pronunciar (...) Assim, a segunda peça: um debate entre dois brancos de meia idade que também não sabem por que razão pessoas nos querem matar. (Homem 1: Eles odeiam-nos porque nós somos tão espectaculares. Homem 2: Comprem o meu livro ou morrerão todos). A seguir no canal das notícias falsas, os nossos comentadores discutirão sobre varas tortas que ficam encravadas em chaminés. Excelente.” Escolhi esta (longuíssima) citação, no fundo uma transcrição, de uma tira de banda desenhada do Dilbert de Scott Adams, porque ela resume de forma perfeita o que sinto em dias como os de hoje, quando vejo o pais na televisão (ou o pais da televisão). Tudo parece normal mas é como se eu procurasse outro ângulo de visão do televisor a partir do sofá da sala e, tal como nos filmes de ficção científica, as personagens reais daquele ângulo se transformassem nos cromos Dilbertianos. As comparações, metáforas ou analogias são figuras que nos fazem perceber o sentido das coisas com uma força e uma intensidade que a linguagem mais literal e não figurada não tem. Uma boa história ou uma frase inspirada iluminam uma situação com uma luz que acrescenta verdade à constatação dos factos. Gosto de recortar e coleccionar frases ou cartoons e tiras de banda desenhada. São como versos de poemas que cito não pela sua beleza ou profundidade, antes pela sua graça e demolidora desmontagem da convenção. Há um desenho de um dos meus cartoonistas favoritos, Gary Larson, que de uma forma sintética é um tratado sobre as relações no local de trabalho: num escritório dois tipos frente a frente em duas secretárias absolutamente iguais. Um diz para o outro: “Um dia esse lugar há-de ser meu”. Ou sobre o mundo dos blogues e da opinião, aquele cartoon publicado na New Yorker, assinado por Gregory, em que um cão diz para o outro: “Eu tive o meu próprio blogue por um tempo mas agora decidi voltar só a ladrar incessantemente e sem sentido”. Por vezes é a própria realidade que nos surge em versão já metafórica e cartoonada, como era o caso do inesquecível ministro da propaganda iraniana que repetia a frase “I now inform you you’re too far from reality”. É claro que é sempre uma questão de gosto e de idiossincrasia. Cada um de nós colecciona os cromos de que gosta mais, e sobre gosto pessoal, por exemplo, uma das minhas citações favoritas é a do critico de televisão que, sobre os comediantes populares Abott e Costello dizia: “essa parelha de comediantes que não faz rir ninguém. A não ser o público”. Ou, ainda sobre os críticos, o genial Oscar Wilde que no “The critic as artist” dizia: “Ah, não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo tenho sempre a impressão que estou errado”. Um dos melhores fraseadores vivos – e certamente, quando morrer, um dos maiores fraseadores mortos – é, claro, Woody Allen. Uma das suas mais citadas frases é, parafraseio, aquela em que ele diz que não percebe porque se critica a masturbação, afinal é fazer sexo com a pessoa de quem mais gostamos na vida. O mestre reconhecido e louvado por Allen era Groucho Marx. No filme “Annie Hall”, Woody Allen utiliza um frase de Marx como uma metáfora para o seu problema nas relações amorosas: “Nunca pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”. Há uma frase de Groucho Marx de que eu me lembro sempre quando convivo com determinadas personagens do nosso mundo televisivo: “Já chega de falar de mim, vamos falar de ti. O que é que pensas de mim?”.



Nuno Artur Silva às 09:38 | link do post

Segunda-feira, 19.07.10

As coisas que só acontecem uma vez podem durar toda a vida. O que é fascinante é sabermos que nunca poderemos saber, de todas as coisas que só nos acontecem uma vez, as que vamos reter para sempre. Podemos esquecer o dia em que encontrámos a pessoa mais importante da nossa vida adulta e, no entanto, lembrarmo-nos de um dia anónimo em que com essa pessoa não fizemos nada de especial.

"A vida é a arte do encontro" dizia, cantando, Vinicius de Moraes, acrescentando "embora haja tanto desencontro nessa vida". A vida não é devidamente valorizada como arte do encontro. Investimos muito de nós e do nosso tempo em coisas completamente estúpidas que não nos são decisivas ou sequer inspiradoras. E não perdemos tempo para nos dedicarmos à arte de nos encontrarmos com os outros.

Em 1989 escrevi, a meias com o Luís Miguel Viterbo, um livrinho, na verdade um pequeno ensaio/manifesto, que a &etc editou, sobre, precisamente, essa arte dos relacionamentos a que demos o nome de "A Elaboração dos Acasos".

O acaso é o acaso do encontro. Ou, se acreditarmos que o acaso é, como dizia Paul Valery ,"a inteligência secreta do destino", voilà,  o destino. Destino não quer dizer que tudo já esteja escrito mas sim que a nossa vida se escreve, como um romance. E partindo do princípio que somos ficção, o nosso encontro com as personagens que podem valer a pena na nossa vida "é uma disciplina artística a apurar dia a dia; é um exercício de depuração e elaboração, um exercício de estilo. Um jogo de distâncias (...) Uma ficção, irremediavelmente verdadeira e real".

E não é só nas relações mais pessoais que deveríamos elaborar a arte do encontro. Naquilo que as relações profissionais têm de pessoais, no tempo que passamos uns com os outros quando trabalhamos juntos, por vezes mais tempo do que com aqueles que escolhemos passar o nosso tempo, deveríamos investir a nossa sensibilidade e criatividade, para tirar dele, tempo, e delas, pessoas, o melhor.

No meio do meu trabalho, que tem sido essencialmente nos últimos 30 anos um trabalho criativo com equipas efémeras, não me canso de dizer que o facto de estarmos juntos naquela circunstância, aquele conjunto de pessoas, poderá não se repetir. E que, portanto, o que quer que aquele grupo tenha para dar em conjunto que possa ser mais do que a soma das partes, tem que acontecer nesse agora.

Para mim cada trabalho novo: uma série de televisão, um livro a meias, uma peça de teatro, um filme... é como um grupo de músicos jazz que se encontra para tocar junto, numa dada circunstância que não se repetirá. É preciso procurar o máximo, a melhor música e a melhor contracena, que esse grupo de pessoas seja capaz de dar.

Isto soa como uma verdade luminosa na pele dos performers, músicos, dançarinos, actores, mas acaba por ser sempre verdade, alargado aos performers do fundo do conteúdo que são os inventores de ideias, os escritores quando abrem o seu trabalho à actuação de outros.

A beleza do trabalho colectivo não está unicamente no resultado múltiplo, variado e complexo, ela pode estar nas memórias que esse trabalho deixa nas nossas vidas individuais, como espectadores também, mas sobretudo como parte desses colectivos.

Aconteceu-me participar em inúmeros trabalhos colectivos, de diversas maneiras, como escritor, autor da ideia, coordenador, actor, director de actores, participante, figurante, director, etc. Recordo aqui um que está longe de ser, no seu resultado final, uma das melhores coisas que fiz. Mas foi um dos que mais gratas memórias me deixou, a mim e a várias pessoas que nele participaram como intervenientes ou visitantes (e não será isto o resultado final?). Foram os "Nocturnos", há quase 20 anos,  músicos, actores e bailarinos pelo Jardim Botânico, quadros vivos de uma exposição musical e poética que as pessoas seguiam guiadas por lanternas, nas noites quentes de Verão. Não tínhamos dinheiro para a produção e houve mil e um problemas técnicos. Mas aquele nocturno e quase secreto jardim  no coração de Lisboa foi nesse  momento um lugar de encontros.

 

Crónica publicada no Económico no dia 17 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 11:00 | link do post

Segunda-feira, 12.07.10

Adoro televisão. Desde que me lembro de mim que me lembro das noites da minha infância na sala da casa dos meus pais, em frente a um televisor com ecrã minúsculo encastrado num pequeno móvel com porta de mini-bar. Ainda hoje o conservo em minha casa, como uma relíquia, a caixa realmente mágica de onde saíam a preto e branco os desenhos animados, as séries, os filmes, os festivais da canção, a chegada do Homem à lua, o 25 de Abril... Estávamos no fim dos anos 60-início dos anos 70 e havia um único canal, a RTP única e tutelada pelo velho Estado Novo. Mas foi nela que eu vi pela primeira, e muitas vezes única vez coisas que nunca mais saíram da memória da minha imaginação e que me inspiraram e me fizeram ser o que sou hoje. O televisor era a lareira à frente da qual a família se reunia e unia na partilha das histórias que dele emanavam. Nessa altura a emissão era só à noite e terminava com o hino nacional, por volta da meia-noite. Só mais tarde começaram as emissões à hora de almoço, mas nunca como nessa altura vi tanta televisão e com tanto fervor. Com o tempo fui vendo menos televisão, naturalmente dispersando-me por outras formas de cultura e entretenimento. Quando comecei a trabalhar no meio televisivo não passei a ver mais televisão, passei a vê-la de outra maneira. Retenho sempre uma frase que julgo ser do Nicolau Breyner, quando lhe perguntaram se tinha visto um programa em que tinha entrado ele respondeu: “Para fazer é um preço, para ver é mais caro”. É costume assinalar a contradição de em Portugal termos passado a ter mais canais mas termos passado a ter menos diversidade na oferta, visto que os canais começaram a competir repetindo o mesmo tipo de formato televisivo. Julgo que isso é verdade só até a um certo ponto. Há uma monocultura comum aos privados generalistas mas com o surgimento do satélite, do cabo e das IP TV, a oferta diversificou-se completamente. A ideia de que a televisão é “pastilha elástica para os olhos” faz cada vez menos sentido. Hoje quando me sento a ver televisão o que eu gosto realmente de fazer é zapping. E se o zapping pode ser, mais do que uma actividade, uma inactividade relaxante, ele pode ser também um extraordinário e estimulante exercício de imersão na cultura popular contemporânea. Uma coisa é ver um filme ou um documentário específico, podemos fazê-lo de múltiplas maneiras: seguindo-o na emissão do fluxo televisivo, gravado, on demand, num DVD, etc. Outra coisa é ver televisão. E ver televisão é fazer zapping. É misturar. É passar para universos totalmente diferentes com um clique. É passar do lixo ao luxo e vice-versa. E ver com igual acesso e possível curiosidade espectáculos degradantes e momentos sublimes. Esta experiência está prestes a sofrer uma nova transformação, que acelerará de forma radical este modo zapping de ver. A Google, em parceria com a Sony, a Intel e a Logitech, está a lançar a Google TV, ou seja, como se esperava, finalmente num único aparelho, o cruzamento da televisão com a net, no ecrã da sala. Sintetizando, é juntar no mesmo botão de comando, a possibilidade de zapping e de linking. Vamos não só poder ver os canais disponíveis como todos os conteúdos autónomos, inteiros ou em snack. Passaremos a ter o Youtube e o Facebook, e o que vier de novo na net. A tudo isso continuaremos a chamar televisão. Os serões familiares, ou de amigos, ganharão uma dimensão incomparavelmente mais aberta nas suas possibilidades. O acto de navegar na net, até aqui uma actividade predominantemente individual, passa a poder ser partilhado não unicamente à distância, como já acontece, mas em presença, no espaço físico, por exemplo, das salas de estar familiares. Com o mesmo entusiasmo com que antes eu e as outras crianças da minha geração olhávamos para a velha RTP a preto e branco, inamovível e inzapável, vamos todos agora poder ver nas nossas salas de estar praticamente tudo o que quisermos. De todo o mundo. E poder zappar e clicar não só ao sabor do acaso ou da preguiça mas igualmente por associação e procura deliberadas. Vai ser uma nova idade de ouro para a televisão.

 

Crónica publicada no Económico no dia 10 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:50 | link do post

Terça-feira, 29.06.10

Sou um cómico profissional involuntário. Nunca quis fazer da comédia, profissão. O que é cómico é que acabei por fundar a empresa de comédia mais conhecida em Portugal, agora que os Parodiantes de Lisboa já não estão no activo. E que o Governo de Santana Lopes cessou funções. Cá está, piada fácil.

Apesar de não ser humorista estou sempre a dar entrevistas sobre humor. As perguntas são sempre as mesmas: como é que se faz humor, quais os limites do humor, o que é o que o faz rir...

O Jorge Luís Borges, escritor muito sério, dizia que “o humor é um êxito de conversação”. O Raul Solnado, actor muito cómico, dizia que “fazer rir ou é fácil ou é impossível”.

O Dinis Machado escreveu um pequeno texto que me parece definitivo sobre o tema. Faz parte de um livro mal conhecido, “Reduto Quase Final”, que ele escreveu depois de “O Que Diz Molero” e que sempre ficou na sombra deste. Inclui um texto que se chama precisamente “Qual é o lado mais cómico disto?” e onde ele fala desse olhar muito particular sobre o mundo: “Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto? (...) Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. (...) e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro”...

Quando o Dinis morreu e os amigos se reuniram no funeral para celebrar a sua vida foi este o texto que escolhi para ler nesse momento de grande tristeza.

Os psiquiatras dizem que o humor é “o triunfo maníaco sobre a depressão”. Pode ser que sim, pode ser que não, digo só por pura rima e espírito de contradição.

Pela circunstância da minha profissão, convivo com muitos cómicos, melhores e piores, melhores e piores pessoas. Mesmo nos momentos complicados, nas zangas e ego-batalhas, em que se bate com os brinquedos nas cabeças uns dos outros, nos momentos em que usamos o armamento pesado, não há nada mais desarmante do que um momento de humor.

Lembro-me que a Amália contava a história de como esteve quase a suicidar-se num hotel numa digressão e abandonou essa ideia quando viu o Fred Astaire a dançar na televisão. Aos cómicos, dançarinos do sentido das coisas, perdoo-lhes tudo no momento em que eles me fazem rir. Fazer rir uma pessoa é como dar um momento de felicidade instantânea, mesmo que passe logo,  já ninguém nos tira. Nunca agradecerei o suficiente a quem me faz rir.

E o que me faz rir é sempre o que não estou à espera. Gosto muito quando o figurante em quem ninguém apostava nada rouba, com um pormenor mínimo, a cena ao protagonista. Uma vez gravámos um sketch com um actor e uma criança. A criança só tinha de ficar sentada e não dizer nada. O actor tinha as piadas todas. O que aconteceu foi que, a meio do sketch, o miúdo decidiu inexplicavelmente abanar a cabeça e revirar os olhos, sem razão aparente, como se estivesse a dançar um ritmo íntimo ao ouvir uma música nuns phones que não tinha. O resultado foi absolutamente hilariante e não me canso de ver a cena só para ver a cara do miúdo.

Não gosto que me digam que me vão contar uma anedota, desde logo porque é como anunciarem que me vão fazer rir. Mas a minha anedota favorita é a do coxo que queria muito entrar na peça da aldeia. Depois de muita insistência, concordaram que ele entraria e apresentaria  a peça dizendo “Senhoras e senhores: O Melro”. Entusiasmado, o coxo foi para casa ensaiar: “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”... No dia da estreia, com a sala cheia, toda a aldeia em peso a ver, ouvem-se as pancadas de Moliere e o coxo entra em cena e prepara-se para a sua deixa, quando é interrompido por um tipo da assistência que diz “Olha o coxo!”, indignado, o coxo responde: “O coxo, o melro!, senhoras e senhores: O Caralho.”

Adoro estas personagens loosers, pelas quais tenho um carinho cruel, os tipos que têm uma única oportunidade na vida e desperdiçam-na.

E sempre que entro em cena como cómico profissional sinto-me coxo.

 

Crónica publicada no Económico no dia 26 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 11:12 | link do post | comentar

Terça-feira, 22.06.10

É impressionante a quantidade de vezes que opinamos e decidimos sobre coisas das quais não percebemos nada. Também é impressionante a quantidade de vezes que somos decididos e orientados nas nossas opiniões por pessoas que percebem tanto como nós. Na politica, e não me refiro só às eleições mas, desde logo, às opiniões e escolhas dos lados dos contraditórios em que queremos estar, a verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, optamos por intuição e simpatia, por influência, por embirração, por preconceito, por fanatismo, por acaso. Seja em relação a que tema for, há muito mais adesão emocional do que conhecimento de causa. A hipermediatização da discussão pública, com a transformação dos comentários e dos debates em soundbytes e espectáculo, tem amplificado e consolidado este modelo. Não é necessariamente mau que tomemos decisões por instinto ou inteligência emocional. Para lá das ideias e das políticas há os representantes e líderes partidários, ou seja, as pessoas e o seu carácter. E muitas vezes a melhor maneira de avaliar um projecto político é avaliar a personalidade e a capacidade do seu líder, e a melhor forma de o fazer é quase sempre confiar na “impressão” que temos dele e seguir o nosso instinto. Como nos textos dramáticos, a narrativa e a qualidade do texto são indispensáveis, mas o intérprete é que é o determinante. É uma evidência e tem sido muitas vezes repetida: há uma gritante falta de líderes na cena política nacional e internacional. Perante a crise cada vez mais aguda, e grave, passe a contradição sonora, não são só os modelos de gestão política que precisam de ter novas soluções. É o próprio modelo de líder que precisa de encontrar uma geração de novos intérpretes. Como parece que a América encontrou em Obama. Joseph Nye Jr., ex-reitor da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, e autor de livros como o recente “Liderança e Poder” (edição Gradiva), defende precisamente essa ideia de que a liderança está a mudar e que, no novo contexto de informação global, o esquema de poder hierárquico que vinha da era industrial tornou-se inadequado e ineficaz. Numa entrevista à revista Visão, Nye Jr. dizia “Dantes, o líder era o rei da montanha, que dava ordens cá para baixo. Agora os líderes eficientes estão no centro de um círculo e atraem os outros para os seguirem”. Refere ainda que para além de ter que ser um bom comunicador e de ter inteligência emocional para seduzir, os novos líderes vão precisar de ter aquilo a que ele chama de inteligência contextual, ou seja, “a capacidade de adaptar as estratégias a diferentes contextos”, e realçava: “a inteligência contextual é a maior qualidade para um líder do século XXI”. É este novo modelo de líder que tem de surgir na direcção das empresas e nas direcções políticas, no território de permanente mudança de contextos que é a crise mundial actual. Duas salvaguardas óbvias: o Estado não é uma empresa e não pode ser gerido como uma empresa; adaptar estratégias a diferentes contextos não quer dizer adaptar princípios ( não se aplica a célebre e tão praticada máxima : “Os meus princípios são estes. Mas se for preciso mudam-se”). Uma verdadeira liderança não se impõe nem pela força da instituição que dirige, nem pelo cargo, nem pela força coerciva, nem pelo dinheiro. Uma liderança impõe-se por si, isto é, pela autoridade que em si se reconheça. E não se apresenta num modelo hierárquico, mas antes numa lógica de visão de futuro e inspiração. Mas não há possibilidade para estes novos líderes aparecerem se não houver mudança na forma de os avaliarmos. Não são só os líderes que precisam de ser contextualmente inteligentes, cada um de nós deve obrigar-se a uma procura de informação e reflexão que nos faça decidir com mais conhecimento de causa. Ou seja, tentar perceber melhor o que está realmente em jogo. Que é muito. O meu ponto de vista de indivíduo ignorante das grandes questões de macro-política , diz-me que, mais do que nunca, precisamos de defender o “Estado social” dos predadores financeiros e dos teóricos do liberalismo selvagem. E diz-me que para esse modelo ser viável vamos precisar, por um lado, de mais Europa , e por outro lado de mais política de proximidade, ou seja, de mais região e de mais politica da cidade (mas de menos caciquismo). E de mais família (mas não da fechada família católica). Não há ninguém que nos diga como é que isto se faz? E alguém que o comece a fazer?

 

Crónica publicada no Económico no dia 19 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:14 | link do post

Segunda-feira, 14.06.10

O que é que nos faz mover, correr?, pergunto-me, de vez em quando, numa pausa no meio da movida, da correria e debato-me com as respostas da praxe: o sexo, o poder, o dinheiro, a curiosidade, o medo ( da morte e tal), a fé... Já disse o sexo? ... Os Beatles diziam que tudo o que faziam era para ter muitas namoradas. E tiveram, pelo menos antes de Yoko-Onarem. Mas o sexo não é tudo. Sobretudo quando se tem (quando se vem?). Depois há as derivações, substituições e perversões, em suma, o ser humano. Freud explica e complica. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia ele, a ver se se enganava. O sexo já não é o que era (felizmente). A Internet está a mudar tudo. E a tecnologia. Dos encontros ( dating ) à consumação ( splash!?), radicalizou-se a ideia que conhecer uma pessoa é encontrarmo-nos com uma ideia – uma ficção que fazemos dela, e desejar uma pessoa é fazer coincidir essa pessoa com a projecção do nosso desejo. Ou seja, tudo o que nos faz perder a cabeça se passa na nossa cabeça. A consumação física dessa coisa mental é o contacto do nosso corpo com outro corpo, mas pode vir a ser cada vez mais o contacto do nosso corpo com a simulação de outro corpo. É aqui que o futuro se torna sedutor: o que acontecerá à sedução, ao namoro, à paixão, ao amor nos tempos de cibersexo, hiper-representação e ironia? Mas como dizia o outro ( Stig Dagerman), “ A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”, ou o que nós somos capazes de fazer só para que gostem de nós. No meu habitat de trabalho isso é tão evidente. A infância explica tudo. Como o mundo seria diferente se certas pessoas tivessem tido um pouco mais de atenção na infância. Agora vingam-se actuando para grandes plateias, ou, se tal não for possível, para pequenas, normalmente um sacrificado grupo de incautos circunstantes. A quantidade de problemas da arte, do showbizz, da politica, que se resolveriam tão simplesmente com um pouco de mimo e colo. Ou, vá lá, de sexo. Tanta declaração de princípios, opinião, teoria, polémica, indignação, honra ofendida, problema insanável que se resolveria com uma boa queca ou, vá lá, um gosto muito de ti, és o maior, mentido com jeito e convicção. As pessoas e os seus actos, tal como as personagens dos romances, têm o seu subtexto. Por detrás de uma acção ou de um traço de carácter é possível sempre descortinar uma explicação, uma lógica quase sempre mais elementar do que gostaríamos de admitir. As múltiplas variáveis humanas tem no seu dna meia-dúzia-se-tanto de Basic Plots, para ser completamente rigoroso. Como no livro de Pio de Abreu, “Como tornar-se Doente Mental”, só temos de identificar a patologia em causa ou em potência e agir em conformidade, prevenindo ou remediando. ( No meu caso um mix maníaco-depressivo / obsessivo compulsivo com nuances de narcisismo, tudo agravado por uma irremediável infância feliz). Acaba por ser divertido ler as pessoas para lá das aparências, sobretudo quando temos a informação contextual para o fazer. Perceber que o tipo que trabalhava connosco e que dizia que éramos os maiores e agora nos insulta em público, ao expressar o seu ressentimento, tem falta de mimo e colo e, agora como antes, precisa afinal é que nós lhe digamos que ele é o maior que por aqui já passou e há-de passar; que o critico que repetidamente nos critica na sua ignorada tribuna que é a sua razão de existir, ao verberar a sua verborreia, tem falta basicamente de vida e precisa que lhe digam que é muito importante e sem ele não haveria ninguém para denunciar como as coisas realmente são; em resumo, que nós próprios, ou pelo menos eu, quando começamos, começo, a perder tempo com pessoas como eles e a escrever um parágrafo que seja sobre o assunto é porque estamos, estou, a precisar de qualquer coisa. Provavelmente, arrisco, de mimo e colo. Ou então, somente de me dedicar a coisas mais interessantes. Como o que faz mover as pessoas.

 

Crónica publicada no Económico no dia 12 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 12:00 | link do post

Segunda-feira, 07.06.10

Lisboa e Junho é um casamento perfeito. À beira do verão, a cidade está salpicada de jacarandás, penso como será vista do céu, mas do céu próximo, num voo de pássaro. Em francês à vol d’oiseau quer dizer passar sem nos determos, em linha recta, mas também por alto, podia ser um título para uma crónica.

“À beira do mar de Junho” é o título de um livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge, do início dos anos oitenta, gostava do livro pelos poemas, eram quase sempre muito curtos, a abrirem muitas leituras, mas gostava sobretudo do livro pelo livro em si, era uma edição da Na Regra do Jogo, com capa azul cartonada. No interior, logo nas primeiras páginas, tinha uma foto do mar visto de uma arriba com vegetação, que estava impressa e colada como um cromo. Gostei desse livro como se ele, objecto, fosse um poema e, como acontece com um poema, me inspirasse não tanto pelo que lá está escrito como pelo que eu leio nele. Agora que o livro está numa estante da casa como um poema numa antologia, não volto a ele para não perder a memoria que dele agora tenho.

Não sei explicar ao certo o prazer que encontro nessas evocações do verão ou da ideia do verão á beira mar, nunca sei explicar ao certo e vou errando numa deriva preguiçosa que me leva desse livro a outros livros de poemas litorais, como o Salsugem, do Al Berto ou tantos ao acaso da Sophia onde apetece ficar como num terraço branco debaixo de um alpendre florido sobre o mar.

Há um amigo meu que não gosta de poesia. Diz que ouvir poemas, para ele, é como ouvir números. “ Eu vi a luz em um pais perdido”: 33, 22, 7, 423. “E busque amor novas artes, novo engenho”: 93, 44, 2, 113.

Imagino-o, um dia, a ler, por acaso, um poema “É ferida que dói e não se sente”: 24, 13, 5, 1001, desinteressado e distraído, um texto que nem seja um poema, um texto donde lhe venha, inesperado e fulgurante, um verso que ele ganhe como quem ganha a lotaria, como o número de uma lotaria íntima, o segredo do cofre onde ele guarda a sua secreta poesia privada.

Dos poemas parte-se para a infância. Ao passar pela minha adolescência lembro-me dos verões à beira mar, acampado na praia com os amigos, trocando leituras e projectos. Nunca a inspiração dos livros foi tão vibrante e partilhada como nesse tempo em que tudo parecia estar por acontecer. Do Portinho da Arrábida à costa vicentina ou ao Algarve menos betonado ficou um rasto de criação de memorias comuns de pequenas aventuras de férias e de grandes aventuras sonhadas a partir dos livros que nos seduziam como as namoradas que sonhávamos ter.

“É triste no Outono concluir/ que era o verão a única estação” diz Ruy Belo num dos mais tristes versos da literatura portuguesa, um verso onde me poderia ver mas não vejo, nem me revejo, apesar de belo e Belo, duplamente belo, estando agora no verão estou no verso do verso a concluir que o verão volta sempre. Nem que seja para nos assombrar.

À sombra dos verões passados escrevo e regresso à Lisboa hoje quase deserta do feriado.

Uma vez sonhei que estava em Lisboa e toda a gente tinha desaparecido sem deixar rasto, mas tudo estava na mesma para alem da ausência das pessoas. Percorria as ruas e não se via vivalma. Do sonho não me lembro mais, mas se o traduzisse num filme começaria a encontrar aqui e ali as pessoas que eu não vi nunca mais, como o senhor Antunes da papelaria a dizer que já tinha chegado o Tintim, o homem da carrinha dos gelados a chegar à esquina e a tocar a campainha ou o pai a dizer para nos despacharmos para apanhar o 2 para a matiné do Tivoli.

A praceta em frente à casa está agora coberta por um tapete roxo monet de folhas de jacarandá.

Termino como um pássaro que volta a pousar no fio do telefone. Like a bird on a wire/ like a drunk in a midnight choir/ I have tried in my way to be free ( Leonard Cohen).

Depois, pegarei no telemóvel e ligarei a um amigo para lhe perguntar o que é que ele tem andado a ler.

 

Crónica publicada no Económico no dia 5 de Junho de 2010.



Nuno Artur Silva às 15:45 | link do post

Terça-feira, 25.05.10
Num dos últimos fins-de-semana passei pela Feira do Livro para uma sessão de autógrafos a dois com o António Jorge Gonçalves. Estava bom tempo e a feira estava cheia de gente, mas a sensação que ambos tivemos e comentámos foi a de que, num tempo em que se começam a comercializar os dispositivos electrónicos de leitura, este modelo de Feira do Livro de papel está esgotado. A feérica exibição comercial e industrial do livro enquanto objecto impresso massivamente e indiferenciadamente (seja literatura, livro técnico ou simplesmente versão livresca de qualquer sucesso televisivo) esconde com a sua incontinência editorial o fim de uma época na história da edição. O Jorge dizia que a multidão de pessoas com sacos cheios de livros lhe fazia lembrar o tempo em que não havia água canalizada e as pessoas iam às fontes com bilhas e garrafões. Hoje em dia os “livros” começam a chegar-nos electrónicos e canalizados e já não falta muito para que todos nós tenhamos, para além do telemóvel e do “computador” portátil, hoje absolutamente banais e essenciais à vida urbana contemporânea, um dispositivo de leitura electrónica portátil, na linha Kindle ou iPad ou o que for. Ironicamente, esta mudança não vai ser a morte do livro em papel, mas a sua salvação. Quando pudermos ler o que quisermos e quando quisermos no nosso leitor portátil, vamos poder perceber e escolher melhor, com melhor critério, aquilo que gostaríamos de ter em edição especial. Como já acontece com os CDs ou os DVDs, aquilo que faz sentido editar são colecções especiais, objectos de design em colecções limitadas e muitas vezes personalizadas pela assinatura dos autores. Os livros que escolhemos ter nas nossas estantes vão ser, literalmente, escolhidos a dedo como objectos de colecção e, tal como hoje acontece com os livros infantis, podem ter mil e um formatos e vir em caixas de diferentes formas e feitios. Talvez quando isso acontecer as feiras do livro se transformem novamente em sítios onde o contacto com os autores seja também transformado em momentos mais especiais, sítios com uma arquitectura que valorize mais os lugares de encontro dos escritores com os seus autores e os separe um pouco mais dos postos de venda, ou seja, cafés literários, aquilo em que, desejo e espero, acabarão por se transformar as livrarias. Por outro lado, os leitores electrónicos vêm permitir um novo género de escrita e de leitura, que ainda mal começou a ser explorado. Refiro-me não só à possibilidade do hipertexto, que permitirá, a partir de uma palavra, expressão, ou de uma citação, entrar – literalmente, noutro texto, como à possibilidade de cruzar com as palavras e as imagens dos livros tradicionais, outros registos, como o som e a música ou as imagens em movimento. Imaginem as possibilidades que se abrem ao podermos “escrever” um livro que nos faça passar de uma história para outra que foi citada, que nos permita ouvir a música que a personagem trauteia, que nos faça ver a cidade que ela percorre, etc. É claro que a literatura continuará a ser a literatura, como o cinema continuará a ser o cinema. Haverá mistura, mas o que muda não é tanto o género em si como o suporte e a maneira como ele chega a cada um de nós. O cinema, por exemplo, na maior parte das vezes, já nos chega por múltiplos ecrãs nas nossas casas ou nos dispositivos portáteis. Numa altura em que é o cinema que vem até nós, “ir ao cinema” vai ser uma de duas coisas: ou vamos ao cinema para namorarmos ou nos divertirmos em grupo, ou para fruirmos uma experiência estética que, curiosamente, aproxima o cinema do teatro: isto é, ou vamos como adolescentes para uma grande sala de cinema divertirmo-nos, ou vamos para um cinema de culto ou uma cinemateca ver um filme clássico ou de autor em película num grande écrã como quem vai ao teatro ter uma experiência que só acontece naquela noite. ( A propósito, já era tempo de haver uma sala que só programasse grandes clássicos do cinema). Tudo se resume a podermos escolher, mas escolher de forma personalizada, como na anedota das duas cabras que estão numa lixeira a comer os restos de uma película de cinema e uma comenta para a outra: “que tal, gostas?”, e a outra responde “gosto mas prefiro o livro”. Crónica publicada no Económico no dia 22 de Maio de 2010.

Nuno Artur Silva às 10:42 | link do post

Segunda-feira, 10.05.10

Num tempo político em que os investimentos públicos estão na linha da frente da discussão, era inevitável que a RTP voltasse à baila. Já se começam a ouvir os políticos a debitarem banalidades de base, cheios de certezas sobre o que fazer. Desde logo, vozes pseudoliberais do partido que cometeu o maior erro que se fez com a RTP – a abolição da taxa, uma decisão de Cavaco Silva. O que é lamentável é que nenhum dos partidos, nem dos grandes nem dos pequenos, tenha uma posição reflectida e articulada sobre o tema e não se vislumbre neles sequer quem a possa ou queira ter (as únicas excepções são Arons de Carvalho do Partido Socialista, que já há muito tempo desempenha o mesmo papel, e Pacheco Pereira que, como é seu hábito, usa o tema não para o discutir em si mas como um pretexto para defender a sua agenda politica ). Duplamente lamentável é que a abordagem ao tema seja exclusivamente economicista e não se inscreva no quadro onde realmente se deve inscrever - no contexto cultural. A manutenção do serviço público de televisão e de rádio - do serviço público multimédia é um pilar fundamental de uma política para o audiovisual em Portugal. Num futuro governo a tutela deste serviço público devia ser inequivocamente do Ministério da Cultura. Mas para além disso, deveria ser o próprio Primeiro Ministro, neste caso, como noutros de política cultural (a política da Língua, por exemplo), a chamar a si a primeira responsabilidade desta causa e a garantir a articulação do Ministério da Cultura com outros, como o da Economia, o dos Negócios Estrangeiros, o da Educação e o da Ciência. Tal como noutras áreas culturais (e sobretudo não culturais), a pequena dimensão do país faz com que tenha que ser o Estado a criar condições para a existência de uma indústria audiovisual que possa ser diversa e acessível a todos. Mais: o próprio jornalismo de qualidade pode ter que vir a necessitar de apoios do Estado. Parece paradoxal num tempo em que se clama pela não interferência do Estado na actividade dos jornalistas mas, quando nos grupos privados escasseiam as condições para um trabalho jornalístico mais aprofundado, a ironia dos tempos é que pode vir a ser o Estado quem tem que ser chamado a apoiar projectos que mantenham vivo o pulmão da democracia: o jornalismo livre. Não podemos ser simplistas nem ingénuos nesta discussão. Quando se diz que se quer privatizar a RTP, isso quer dizer o quê? Quem é que quer comprar a RTP? E, já agora, que parte da RTP? E a dívida? E os trabalhadores? Só a RTP 1? E o resto? E ao privatizar a RTP 1 ficariam três canais generalistas a competir? Então não se aprova um quinto canal e privatiza-se o canal público? Julgo que seria aconselhável uma discussão aprofundada sobre o assunto. O que me parece é que a médio prazo faria sentido renegociar a dívida da RTP e, logo que possível, tirar os intervalos publicitários à estação pública, mas não tirar completamente a publicidade, isto é, manter a possibilidade de haver programas e iniciativas patrocinadas e product placement nas séries de ficção. Parece-me que seria desejável que a RTP fosse o centro de uma nova estratégia de financiamento para a produção, promoção e divulgação de filmes, séries e documentários. É fundamental que, ao fazer esta mudança radical, a RTP não se transforme num serviço público residual, como existe na América, com a PBS, ou no Brasil, não somos um país com aquela escala que permite ter grandes estações privadas, que façam grandes produções, precisamos de manter uma grande estação pública, que faça investimentos na ficção e no documentário e que articule co-produções de maior dimensão ( A ideia de uma televisão da Sociedade Civil tal como foi ensaiada pela RTP2 é um absurdo que ninguém vê). Tudo está a mudar no mundo das televisões - E aproveito aqui para saudar o novo canal Etv do grupo Económico - por mais que os canais generalistas façam esquemas com as agências de meios para atrasar o inevitável: o futuro está numa estratégia de rede de canais integrados em grupos de comunicação (Por isso é que é a TVI - e não a SIC, que tem um problema para resolver a curto prazo, se não quer ficar reduzida a um canal de Cs e Ds) Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto, a terceira ponte e o TGV. 

 

Crónica publicada no dia 8 de Maio de 2010 no Económico.

 

 



Nuno Artur Silva às 15:25 | link do post


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