Quinta-feira, 09.06.11

Parece uma outra vida. Há vinte e cinco anos, em Junho de 86, publiquei o meu primeiro livro de poemas, Onde o olhar.  Edição de autor, ou quase. A Indício era uma associação cultural que fundei com uns amigos. Os poemas eram uma colecção de textos que vinha a escrever e reescrever desde os meus 17 ou 18 anos, e o livro, para além das influências óbvias e menos óbvias, estava cheio de ligações e organizado de forma a que os poemas pudessem ser lidos individualmente ou em sequência. Isto, claro, achava eu.

O grafismo do livro era para ser inspirado numa colecção da Difel daquele tempo mas acabou, por ingenuidade gráfica e descuido, por ser mesmo copiado. A verdade é que, de tão obcecado que estava com as palavras, as vírgulas, as sequências e os seus múltiplos sentdos, só me apercebi disso quando tinha o livro na mão.

Foi uma edição integralmente paga com o meu primeiro ordenado como professor de liceu. E fui eu que distribuí o livro à consignação de livraria em livraria. E como era tradição nas edições de autor na Feira do Livro de Lisboa lá estive, nesse Verão, a vendê-lo sentado no chão, junto a outros autores.

É tradição envergonharmo-nos ou mesmo renegarmos os nossos primeiros livros. No meu caso não tenho vergonha nenhuma. Não porque ache que era muito bom, mas muito simplesmente porque é o meu primeiro livro. Parece uma outra vida.

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 00:20 | link do post

Sexta-feira, 01.04.11

Depoimento para a rubrica "Não vale dizer filhos" do programa "Histórias Devidas" (Canal Q).

 


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Quarta-feira, 23.06.10

Uma breve nota para sinalizar a edição em DVD do Voz. Já aqui escrevi sobre aquele que é um dos projectos que mais gostei de fazer e talvez aquele cujo resultado final mais superou as minhas expectativas. Depois de cinco anos de persistência, foi possível, com o patrocínio da Fundação EDP, a quem quero agradecer - e em particular ao Sérgio Figueiredo e ao José Manuel dos Santos - não só editar o DVD com os 75 clips dos poemas e o making of, mas igualmente fazê-lo no âmbito de uma iniciativa mais vasta que permite oferecer um DVD a todas as escolas secundárias do país e se fazer nessas escolas uma sessão de apresentação e recital com um dos actores do projecto. É o início de uma nova fase para um projecto que começou no programa da RTP em 2005 e que desta maneira não termina na edição do DVD.

Dos 75 clips, já publiquei aqui alguns. Acrescento estes três. O primeiro é um extracto d'A Pluma Caprichosa do Alexandre O'Neill, a quem o Rogério Samora oferece a sua extraordinária voz. O segundo é um poema do Manuel Alegre que, nesta versão, tem uma circunstância muito especial. O Zé Pedro Gomes tinha tido um aneurisma e como tal ficou em risco de perder a memória, o que felizmente não aconteceu. Este é o primeiro trabalho que ele fez depois do acidente. Pareceu-me que não haveria melhor poema para esse regresso do que este, que fala precisamente da memória. A gravação foi feita em casa do Zé Pedro e as fotografias são mesmo fotografias dele. Esta coincidência dá uma autenticidade a esta leitura que nunca deixa de me emocionar de cada vez que a vejo. Por fim, o terceiro poema, Outros Lugares de Jorge de Sena, lido pelo Diogo Infante. Neste caso estamos a pisar o risco. E o Diogo fala disso no documentário do Voz. É um poema sobre o desaparecimento, sobre a morte.  E a opção de o fazer num lar de terceira idade com figurantes reais, eles próprios nessa zona de fronteira que é o fim da vida, está no limite ético do que pode ser filmado. O resultado é, na minha opinião, absolutamente tocante.

A estes três magníficos actores, como a todos os outros que participaram no projecto, à extraordinária equipa de realização e de edição dos Até ao Fim do Mundo, o meu profundo e sincero agradecimento.

Da minha parte, dediquei este trabalho a três amigos infelizmente já desaparecidos: o poeta Al Berto, que lia brilhantemente os seus próprios textos, e com quem organizei muitos recitiais, o Hermínio Monteiro, editor e dinamizador de recitais e encontros, com quem fiz, para a RTP, com a Margarida Gil, uma primeira versão deste Voz, que se chamava Instantes, e por fim o Raul Solnado, que eu tive o prazer de conhecer já no fim da vida dele e que gravou o poema com que fecha o DVD do Voz: Liberdade, de Fernando Pessoa.

 

 




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Nuno Artur Silva às 16:33 | link do post

Quarta-feira, 30.12.09

A fechar o ano, e ainda a propósito da edição especial da caixa com a trilogia Filipe Seems + DVD, aqui deixo duas notas.

Primeiro, o texto que escrevi para a edição de 11 de Novembro da revista Time Out, sobre a Lisboa de Seems, acompanhado pelos desenhos da série do António Jorge Gonçalves.

Depois junto a sequência de imagens que fizemos para as apresentações nas FNACs, que usámos como suporte para contar a história da nossa dupla criativa.

 

A Lisboa de Seems

 

No início dos anos 90 o António Jorge Gonçalves fazia banda desenhada e começou a fazer desenhos de Lisboa. O jornal SE7E convidou-o para publicar, primeiro, uma pequena história, e depois uma página todas as semanas. O Jorge desafiou-me a escrever o argumento. Foi quando decidimos criar um “herói”. O ponto de partida era uma versão irónica das bandas desenhadas clássicas e do imaginário dos detectives. A diferença era que tudo se passaria em Lisboa, num futuro mítico de Lisboa onde se misturam as Lisboas de todos os tempos, reais e imaginados.

Para encontrar os locais das cenas das Aventuras de Seems, o António Jorge e eu começámos a percorrer Lisboa de lés a lés, tomando notas e tirando fotografias, fazendo como no cinema, múltiplas reperages. A diferença é que não tínhamos um guião fechado. Tínhamos o argumento esboçado mas a cena só era escrita depois de decidir o local.
O que é maravilhoso na banda desenhada é que podemos passar da imaginação para a concretização no desenho sem nos preocuparmos com autorizações, efeitos especiais, orçamentos ou, pura e simplesmente, com as leis da física e da lógica do universo.

 

1 – Filipe tem um amigo cientista, Eugénio, um afro-português, negro, casado com Jane, uma astronauta loira, e com um rasto de filhos, todos com nomes de cientistas famosos. Eugénio é um génio bonacheirão. Na primeira história, “Ana”, Filipe contacta-o e Eugénio, sempre repetindo a sua expressão favorita - “é curiosíssimo” – sugere a hipótese da clonagem. A cena passa-se no laboratório de Eugénio, que decidimos situar numa versão do Instituto Superior Técnico com observatório astronómico, numa Alameda povoada de esculturas pop, com a Almirante Reis transformada num corredor para bicicletas.

 

 

2 – O mistério adensa-se quando surge uma terceira gémea. A cena passa-se num “espectáculo de moda”, misto de desfile e número de trapezistas, que tem lugar num gigantesco bar que não é senão a Basílica da Estrela. O espectáculo chama-se “Estrela da noite de todas as cores”, que era um verso do poeta surrealista português precocemente desaparecido António Maria Lisboa. Sempre nos agradou a ideia de ocupar os espaços das religiões institucionais para actividades hedonistas.

 

 

3 – Na minha infância e juventude morei em Campolide e, ao virar da esquina da minha rua, tinha uma vista sobre o vale de Alcântara, dominado pelo aqueduto das Águas Livres. Por baixo do aqueduto passavam, e passam, auto-estradas e o caminho de ferro. Mas antes disso, há mais de cem anos, o vale era um lugar bucólico e campestre, com um ribeiro a passar debaixo do aqueduto, como ilustram as gravuras da época. Na segunda aventura de Filipe Seems recuperámos esse vale e pusémos Filipe a pedalar uma bicicleta aquática para chegar ao aqueduto, subir umas escadas no arco principal, encontrar-se com Ana para um café lá em cima e depois abandonarem o local de balão, em direcção ao mar.

 

  

 

4 – Os eléctricos são as personagens mais características de Lisboa, fazem parte da sua fauna. N’“A História do Tesouro Perdido” Filipe procura um deles, num sítio que sempre nos pareceu cinematográfico: a estação de eléctricos do Calvário. Se na Lisboa real existe o 28 que liga os Prazeres à Graça, e mais do que uma linha é uma metáfora e uma filosofia de vida, na Lisboa de Seems os eléctricos deslizam sobre a cidade, suspensos, e um deles irregular e erradio, tem como destino o “desejo”.

 

5 – À procura do tesouro perdido, Filipe encontra-se novamente com Eugénio, numa visita ao Oceanário, com a família, onde acabaram de falar com os golfinhos. O Oceanário é, no universo Seems, um projecto utópico de um amigo nosso arquitecto, Rui Horta Santos, e consiste numa gigantesca onda em espiral no meio do Tejo.

 

 

6 – A mais emblemática imagem da série do Filipe Seems é a sequência da baixa veneziana. Sabendo dos afluentes do Tejo, que passam por baixo da Baixa, imaginámos uma Lisboa inundada, como Veneza, onde o barulho e a poluição dos automóveis fossem substituídos pelo deslizar misterioso das gôndolas e dos seus gondoleiros errantes e, na nossa versão, cegos. O grande lago do Terreiro do Paço é directamente inspirado num dos nossos autores de BD favoritos, Fred, e na sua série Philémon, e é o palco para um concerto que os espectadores ouvem por auscultadores nas suas cadeiras flutuantes.

 

 

7 - Logo no início da primeira história Filipe Seems está sentado num escritório de detective particular. Mais à frente percebemos que o escritório é uma divisão da sua casa e a fachada de detective é uma auto-ironia literária. Filipe é de facto um escritor ou “programador de histórias de vídeo-bd”. Um detective muito particular, mais seduzido pelas pistas do que pelas provas. E imaginámos como único companheiro de Filipe o gato Schro, abreviatura de Schrodinger (um físico que ficou famoso por causa da experiência que fez com um gato). Um dos hábitos de Seems era vaguear com Schro pelos telhados da sua casa na costa do Castelo. No final do “Ana” decidimos que ela ficava com ele, o que só é revelado no último quadradinho, e pensámos que a melhor maneira de visualizar essa utopia de final feliz era com a visão de uma Lisboa coberta por um manto branco de neve.

 

 

8 - Se “A História do Tesouro Perdido” era uma história solar, luminosa, com cenas marítimas, um percurso de aventura, de um sítio para outro à procura de um tesouro sempre nunca perdido, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, quase dez anos depois, era uma
história nocturna, subterrânea, densa, passada nas catacumbas de Lisboa e com Filipe Seems perdido e perturbado nos seus sonhos e fantasmas interiores. A única imagem luminosa desta terceira história é esta quando, depois de percorrer os túneis do metro e o acampamento cigano subterrâneo, seguindo a borboleta, Filipe desemboca numa fenda da fachada dos Jerónimos e sai para uma Belém inesperadamente transformada em praia tropical.
 

 

9 – Esta é uma versão negra do primeiro projecto de fachada do Cinema Éden original, tal como foi imaginado por Cassiano Branco. Não seria aprovado, acabando por ficar o outro, entretanto destruído. É neste Éden que se reúne a seita da conspiração, um grupo de cegos perante um écrã branco. Já na primeira história tínhamos utilizado um projecto nunca concretizado de Cassiano Branco, nesse caso um plano de urbanização da Costa da Caparica nos anos 30. Na primeira história é o sítio que Filipe sobrevoa de asa delta e onde acaba por pousar, antes de perder a moto voadora que perseguia.

 

 

Filipe Seems e outras histórias - percurso de uma parceria

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 19:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 30.10.09

sonhava com uma cidade que não existia, uma cidade e a sua mitologia. os desígnios do acaso são insondáveis. encontrar na rua uma pessoa igual a nós, gémea, que nunca tinhamos visto antes. ana lógica é um nome invulgar. um gato chamado schrodinger, schro. filipe seems. não é o que parece. um detective muito particular. procurava perceber tudo aquilo e escrevia como se escrevesse uma história. ela não tinha passado. ou tinha um passado ilusório, que só era real na sua memória. no fundo, não é o que cada um de nós tem?... mas não era nisto que eu pensava. o que eu pensava naquele momento não era um pensamento, era música, pura música, e isso não se pode descrever. ucronia, o que não se passou em tempo algum. amnésia ucrónica? a história refeita logicamente, tal como poderia ter acontecido. tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas. bem vindo ao pavilhão da límpida solidão. orbis tertius design – projecto alice liddell. a casa das belas adormecidas. uma conspiração imaginária. a verdade é que não sei viver sem ser literariamente. a neve de lisboa. encontramo-nos no desejo. a história do tesouro perdido. caminhava pelo fundo do mar e respirava. respirava. um peixe esvoaçava. pensava: é um sonho. a maré descia. e depois acordava. encontramo-nos nos nossos corpos ou é só nas imagens que nos encontramos? a distância pode ser a mais íntima forma de duas pessoas se encontrarem. a lua irreal. guardamos segredos que não é tempo ainda de serem revelados. o tesouro da flor do mar. contam-se histórias desencontradas do seu naufrágio. a caravela estará afundada ao largo da costa alentejana. jóias e ícones das civilizações pré-colombianas. um mapa e um marinheiro. vergílio ventura e um velho cavalheiro da fortuna. o mapa e a mnemónica. o último lugar do mundo onde esperaria encontrar um marinheiro. o mapa é o tesouro? nota no lunário: ... eis a vida, a história de um tesouro perdido. percebes que estás perdido, quanto mais andas mais perdido estás, decides voltar para trás, procurar o sítio de onde vieste, mas não consegues encontrar o caminho de volta, voltas para trás à procura do sítio onde ainda há pouco estavas e já não o encontras. cada passo de volta é um passo para um sítio mais longe. e no que eu não acredito não desejo. ocupava os dias a tecer a trama de dezenas de histórias de cidade. real tv. no more images. e tu, perdeste o teu duende? segue a borboleta. o sonho do sonho. uma vez cruzámo-nos com uma tribo, descendentes de índios, que dormiam com redes por cima da cabeça para nelas ficarem presos os sonhos. são as minhas histórias, as redes dos meus sonhos. um ritual vodu. a imagem interfere com o meu corpo. fere o meu corpo. é uma songline, a borboleta, uma melodia tatuada no corpo, no sonho? esquece as provas, segue as pistas. só as pistas fazem sonhar.

 

* - trailer – conjunto de excertos de um filme, geralmente apresentado para anunciar a sua estreia; pessoa que segue a pista ou rasto de outra ou de qualquer animal.

 

       

 

 

(Clique nas capas para ver excertos dos livros)
 

 

 


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Nuno Artur Silva às 14:00 | link do post

Sexta-feira, 23.10.09

No âmbito da edição deste ano da Experimenta Design e do seu mote "It's About Time" e a convite da Guta Moura Guedes fui o anfitrião da Open Talk inaugural e apresentei o recital As Passagens do Tempo, no Museu da Electricidade, com o apoio da Fundação EDP.

O tema era o Tempo e as suas Ficções. Para a conferência convidei o Filipe Homem Fonseca, o Pedro Gadanho e o João Lopes que, não podendo estar presente, gravou este depoimento.

O recital tinha como ponto de partida os textos do meu livro As Passagens do Tempo, e reuniu os actores Marco d'Almeida, Rui Morisson e Sandra Celas, a música de Armando Teixeira (toda produzida com um instrumento chamado tenorion), o desenho de luz do Ricardo Campos e as imagens e desenho em tempo real do António Jorge Gonçalves, e eu próprio, como mestre de cerimónias.

Sempre me pareceu que a criação e escrita de ideias se desdobra em dois momentos: a escrita propriamente dita e a performance a partir dessa escrita. Escrever na época contemporânea é, à semelhança de ser músico, compor e editar primeiro, e actuar ou representar em público depois. Eu que não tenho talento musical, mas adoro música, sempre admirei a capacidade dos músicos tocarem em conjunto e improvisarem: o lado irrepetível da performance, com a inspiração e o erro do momento. E sempre pensei nos escritores como músicos incompletos, à procura de uma outra espécie de música, pelo meio das palavras. Ler em público, com outros actores e artistas, ou mesmo falar, conferenciar, debater, é o jazz, a jam session de quem escreve.

Foi isso que procurei fazer nos dois momentos da minha participação no It's About Time da EXD'09 Lisboa.

Aqui ficam as fotos e o guião (gosto mais de "argumento", ou mesmo do brasileiro "roteiro") do recital.

Uma nota final para agradecer ao Delfim Sardo ter-me contado a história do Man Ray.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 11:00 | link do post

Quinta-feira, 06.08.09

No meio destes anos todos em que ocupava a minha vida a escrever, editar ou produzir sketches de humor, de vez em quando fazia coisas radicalmente diferentes. Como por exemplo uma letra para um fado. No fundo é só uma variação de humor.

A letra era esta. O Mário Laginha fez a música e a Maria João cantou.

Podem ouvir aqui.

 

fado do coração errante

 

errando a noite inteira

num incerto vaguear

eu quero só perder-me

no corpo que encontrar 
 

o acaso é o meu destino

é um verso no instante

esplendor que não domino

do corpo sempre errante.

não sei se é uma miragem

é a sina de uma sede

o encontro é uma chama

que o dom do acaso acende

 

eu posso não estar certo

se o certo é não errar

eu erro a noite inteira

sem a noite encontrar.

no fundo do encontro

é mais funda a solidão

sou infiel ao mundo

e fiel à sedução.

da noite quero o jogo,

o perfume e a melodia

e o incêndio do ardil

que arde até ser dia.

 

não sei se é um feitiço

é o enredo do coração.

estou preso na vertigem

que liberta o coração.

 

eu posso não estar certo

se o certo é não errar

eu erro a noite inteira

sem a noite encontrar.

eu posso não estar certo

se o certo é não errar

eu erro a noite inteira

sem a noite encontrar.

eu erro a noite inteira

sem a noite encontrar.
 


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Nuno Artur Silva às 10:11 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 04.08.09

Uma década antes dos programas de televisão fazíamos sketches de teatro. Estas fotografias são de 1986, da peça O Subsídio. Comigo estão o Miguel Mallaguerra, que hoje é arquitecto, a Teresa Conceição, que é jornalista da SIC, e o João Brito, de quem perdi o rasto mas julgo que ainda é professor.

 

 

Na peça entravam também o José de Pina e o Rui Cardoso Martins, que alternavam no papel de funcionário do Ministério da Cultura. Era a história de um anónimo cidadão solitário, espectador de televisão, que um dia recebe a visita de um funcionário do Ministério da Cultura, a dizer que teve subsídio para fazer uma peça de teatro. A cena inicial era um pastiche de O Processo, de Kafka, depois desdobrava-se por uma sequência de sketches em que o personagem principal, confrontado com a inevitabilidade de fazer a peça, contratava os serviços de uma trupe de actores falhados. Entre eles eu próprio, a fazer mal um papel que me calhava bem, precisamente o papel de mau actor.

 

 

Um dos sketches era sobre um realizador que fez um filme sem imagens, em branco, e o defendia numa entrevista. O que acabou por ser uma curiosa premonição da obra ao negro do César Monteiro.

Não havia canais cabo, nem net, e era nos teatros que nós, com o cenário às costas, íamos fazendo os nossos primeiros esboços dos programas de televisão que gostaríamos de fazer. Foi o embrião das Produções Fictícias.

Para quem tiver curiosidade, a Inês Fonseca Santos teve a paciência de recolher as histórias e as contar no livro "Produções Fictícias - 13 anos de insucessos", da Oficina do Livro.

 

 


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Nuno Artur Silva às 10:16 | link do post | comentar

Sexta-feira, 31.07.09

Este domingo a RTP1 exibe o último episódio da terceira série d’Os Contemporâneos. Para a semana haverá os habituais best ofs e bloopers e depois férias.
Ironicamente, em Setembro, a maioria os actores d’Os Contemporâneos estará a fazer clássicos. Sketches de Aristófanes encenados por Luís Miguel Cintra, no Teatro São Luiz. Novos Contemporâneos, a haver, só em 2010. Quem quiser rever, tem as duas primeiras séries em DVD ou o site da série, aqui, onde se encontram sketches como este, da semana passada, sobre as tendências deste Verão da programação portuguesa.

 

 

Aproveito aqui o fim da terceira série d’Os Contemporâneos para fazer um flashback a outras séries de humor para as quais fiz direcção criativa ou geral. A primeira foi esta, que saiu agora em DVD. Este extracto inclui uma interpretação melancólica do conceito “25 de Abril Sempre”, que eu propus e que o Miguel Guilherme brilhantemente interpreta. É logo a seguir à delirante interrupção do frenético Joaquim Monchique na pele de um contestatário da alienação televisiva, que consegue uma surpreendente adesão dos entertainers a partir do momento em que transforma o manifesto num refrão vagamente cantável.

 

 

Sobre este segmento, escrito pelo Rui Cardoso Martins e o José de Pina, a partir de um conceito desenvolvido pela equipa de autores, em brainstorming: um grupo de conspiradores do Norte que quer fazer uma Expo97 antes da Expo98 de Lisboa, uma nota só para dizer que quando o imaginámos sempre pensámos que devia ser representado de maneira sóbria, no estilo do Yes, Minister. Quando o Herman dirigiu os actores (um quarteto irrepetível – Zé Pedro, Miguel, Rueff e o próprio Herman) numa linha radicalmente oposta, tipo Irmãos Marx ou Benny Hill, ficámos em estado de choque. É claro que, depois de ver, imediatamente concordámos que a versão dele era muito melhor e resulta de forma hilariante.

 

 

Polaroid da época, com a equipa de autores:


Em 2001 e 2002, quase em simultâneo, no mesmo estúdio mas para canais diferentes, fizemos duas séries que não sendo um êxito de audiências, muito pelo contrário, mas por razões diferentes, acabaram ambas por se tornar séries de culto. Primeiro, a Paraíso Filmes, de que já fiz referência aqui. Depois o Programa da Maria. É curioso, retrospectivamente, ver a evolução de algumas ideias de uns programas para os outros, ver como as equipas de autores se vão misturando, bem como observar a passagem de alguns actores de uns elencos para os outros.

 

Da Paraíso Filmes deixo aqui o link para o Agente L123, um agente secreto nacional que actua na Coroa de acção do passe social L123, e para o Shôr Anibal, que não tem nada a ver com o filme americano Hannibal, sobre um psicopata que é um grande malandro.

 

Do Programa da Maria deixo aqui um sketch que explica aos jovens o que é um livro e que tem a curiosidade de ser a primeira vez que actuaram em dupla o Nuno Lopes com a Maria Rueff, para além do jovem ser figurado pelo Pedro Tochas, que teve nesta série uma das suas raras presenças televisivas.



 

E este, com a popular Dona Rosete e a sua pregação sobre as virtudes da programação televisiva.



 

Finalmente, a estreia do grupo Manobras de Diversão. Vídeo gravado pela equipa dos Até ao Fim do Mundo (que agora realiza e edita os Contemporâneos) na Feira do Livro de Lisboa, com a estreia do Bruno Nogueira, em interacção com transeuntes reais, e depois com o Marco Horácio como speaker da feira. Nunca foi emitido, existe em DVD como parte integrante do livro Manobras de Diversão, da Oficina do Livro.

 


 

 

 

 

As Manobras de Diversão incluíam, para além do Bruno Nogueira e do Marco Horácio, o Manuel Marques e as actrizes Carla Salgueiro, Sofia Grilo e Sandra Celas. Para além da nossa muito especial figurante e contra-regra Ana Ribeiro. Um dos sketches mais populares era esta muito especial boys band, onde a química entre os três actores estava ao rubro, por assim dizer.

 


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Nuno Artur Silva às 13:14 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.07.09

Passaram já vinte anos da edição  (Fevereiro de 1989) de um pequeno ensaio/manifesto que eu e o Luís Miguel Viterbo escrevemos e que a &etc editou. O título era" A Elaboração dos Acasos", com o ante-título "Amizade, Enamoramento". Era uma reflexão/provocação sobre as relações entre as pessoas, as relações afectivas: o enamoramento, a paixão, a amizade, o amor.

Na sequência de leituras da época, desde logo Os Nós e os Laços, de António Alçada Baptista, mas também os Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, O Amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont ou Enamoramento e Amor, de Francesco Alberoni, entre outros, juntámo-nos para escrever este texto, que começava assim:

 

"Escrever, falar sobre o amor, a paixão, o enamoramento ou a amizade, as suas formas e os seus significados, é escrever sobre escrita e falar sobre fala, é escrever ou falar sobre linguagens..."

 

Vinte anos depois nada mudou e tudo mudou.


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Nuno Artur Silva às 17:08 | link do post | comentar


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